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COMO ARBITRAR ENTRE AS INTERPRETAÇÕES DO TRIPÉ MACROECONÔMICO BRASILEIRO? CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO ENTRE CONTINUIDADE, INFLEXÃO E TRANSFORMAÇÃO ESTRUTURAL (1995-2010)
FRANCISCO CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA LEITE ; Larissa da Silva Rodrigues; Ana Vívian Gomes Alencar; Cristiane Chaves da Silva
COMO ARBITRAR ENTRE AS INTERPRETAÇÕES DO TRIPÉ MACROECONÔMICO BRASILEIRO? CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO ENTRE CONTINUIDADE, INFLEXÃO E TRANSFORMAÇÃO ESTRUTURAL (1995-2010) Área Temática: Área 1 - Teoria, História e Política Econômica Resumo: A controvérsia sobre o significado da política macroeconômica brasileira entre 1995 e 2010 permanece aberta, e sua persistência decorre menos da escassez de evidência do que da ausência de critérios explícitos de classificação: cada corrente opera com uma definição própria, e em geral implícita, do que contaria como continuidade do ajuste liberal ou como inflexão desenvolvimentista. O objetivo é reconstruir essas definições, torná-las comparáveis e submetê-las a um procedimento de arbitragem declarado de antemão. O procedimento distingue três categorias que o debate habitualmente funde, continuidade do regime, inflexão da operação e transformação estrutural, atribui a cada uma um critério observável e especifica o que refutaria a classificação proposta. A base empírica é uma série anual de indicadores oficiais para 1995-2010. O resultado é assimétrico: a continuidade se sustenta na permanência dos três pilares e na rigidez do juro real, de 16,4% ao ano sob Cardoso e 8,5% sob Lula; a inflexão se sustenta na reorientação distributiva posterior a 2006, com ganho real de 62,4% do salário-mínimo, transferências de 6,9% para 9,0% do PIB e queda do Gini de 0,588 para 0,540; e a transformação estrutural falha em todos os critérios, com indústria de transformação em 12,7% do PIB em 2010, investimento apenas de volta ao nível de 1995 e câmbio real tão apreciado quanto sob a âncora dos anos 1990. A contribuição está no procedimento: a categoria de regime híbrido deixa de ser rótulo descritivo e passa a classificação com condições de refutação declaradas. Palavras – Chaves: tripé macroeconômico; interpretações concorrentes; critérios de classificação; distribuição de renda; economia brasileira. INTRODUÇÃO Poucos períodos da história econômica brasileira recente foram tão examinados quanto o intervalo entre a consolidação do Plano Real e o fim do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Sobre ele existe hoje um acervo considerável de indicadores, relatos de formuladores e interpretações acadêmicas. Ainda assim, a pergunta mais elementar que o período suscita, se houve continuidade do ajuste liberal dos anos 1990 ou inflexão desenvolvimentista, continua sem resposta consensual. A hipótese que orienta este artigo é que a persistência da controvérsia não decorre de escassez de evidência. Decorre de um problema anterior, de natureza conceitual: as correntes em disputa operam com definições distintas, e em geral implícitas, daquilo que contaria como continuidade ou como inflexão. Quando Paulani (2008) afirma continuidade, refere-se à permanência da abertura financeira e da remuneração oferecida ao capital externo. Quando Barbosa e Souza (2010) afirmam inflexão, referem-se à reorientação dos instrumentos distributivos a partir de 2006. As duas afirmações podem ser simultaneamente verdadeiras, porque descrevem objetos diferentes; a aparência de contradição vem de que ambas empregam o mesmo par de termos para designar coisas distintas. Sem critérios comuns, o acúmulo de indicadores não resolve a disputa, apenas fornece munição a cada lado. Daí o problema de pesquisa deste artigo: quais critérios observáveis permitem classificar a experiência macroeconômica brasileira de 1995 a 2010 entre continuidade, inflexão e transformação estrutural, e o que a evidência disponível diz quando confrontada com esses critérios? O objetivo geral é construir e aplicar um procedimento explícito de arbitragem entre as interpretações concorrentes. São objetivos específicos: (i) reconstruir, para cada corrente, o critério implícito que sustenta sua classificação; (ii) distinguir analiticamente três categorias que o debate habitualmente funde, continuidade do regime, inflexão da operação e transformação estrutural; (iii) atribuir a cada categoria um critério observável e declarar as condições que refutariam a classificação; e (iv) confrontar os critérios com a evidência reunida para o período. O artigo é de natureza teórico-interpretativa. Não produz dados novos nem estima modelos: opera sobre a base empírica consolidada em estudo anterior dos autores, uma série anual de indicadores oficiais do Banco Central do Brasil, do IBGE, do Banco Mundial e do Datasus para 1995-2010, reorganizada aqui em função dos critérios propostos. A análise econométrica dessas mesmas séries, com função de reação da autoridade monetária, vetor autorregressivo e decomposição da dívida pública, é objeto de trabalho companheiro e aparece neste artigo apenas onde corrobora ou qualifica uma classificação. A contribuição pretendida é metodológica antes de ser substantiva. A categoria de regime híbrido, hoje amplamente aceita (Morais; Saad-Filho, 2011; Ban, 2013), corre o risco de operar como rótulo que acomoda qualquer evidência, precisamente porque combina elementos de duas leituras opostas. Transformá-la em classificação científica exige dizer sob que condições ela seria falsa, e é essa a tarefa que o procedimento aqui proposto assume. REFERENCIAL TEÓRICO A literatura sobre o período organiza-se em três famílias interpretativas, e a reconstrução que segue procura, em cada uma, o critério que sustenta sua classificação. A primeira delas, que lê o período sob o critério da arquitetura institucional, interpreta o governo Lula como prolongamento do ajuste herdado. Paulani (2008) caracteriza o Brasil como plataforma de valorização financeira internacional, em que a abertura da conta de capitais e o arcabouço do tripé operam como condição de atratividade para o capital externo, e sustenta em elaboração posterior que a inserção pós-2000 reforçou, em vez de atenuar, a subordinação financeira dos anos 1990 (Paulani, 2012). A coletânea organizada por Carneiro (2006) converge ao mostrar que a política econômica do primeiro mandato manteve a primazia das instituições financeiras sobre as decisões de investimento e crédito. No plano político, Boito Jr. (2013) radicaliza a leitura ao caracterizar o lulismo como forma de bonapartismo, em que a autonomia relativa do Estado concilia interesses antagônicos sem desorganizar a hegemonia da grande burguesia interna. O critério que sustenta essa classificação é a permanência da arquitetura institucional e dos preços macroeconômicos que ela produz. O que se observa, nessa leitura, é o conjunto de regras, metas de inflação, câmbio flutuante, superávit primário, abertura financeira, e o nível dos juros e do câmbio real que delas resulta. A força do critério está em ser verificável de forma direta: basta examinar se as regras permaneceram vigentes e se os preços macroeconômicos mudaram de patamar. Sua limitação está em que a permanência das regras nada diz sobre a orientação com que foram operadas, e é exatamente nesse ponto que a segunda família se instala. Essa segunda família identifica no período uma inflexão desenvolvimentista e desloca a observação das regras para o modo de operá-las. Bresser-Pereira (2007) situa o diagnóstico no interior de uma crítica mais ampla à ortodoxia convencional, e Singer (2012) caracteriza o lulismo como reforma gradual amparada em pacto conservador, sustentado pela manutenção da estabilidade macroeconômica e pela ampliação de mecanismos redistributivos focalizados junto ao subproletariado. A formulação mais precisa do ponto de virada vem de Barbosa e Souza (2010), que, em relato participante da formulação da política econômica, periodizam o governo em duas fases: ajuste de inspiração ortodoxa entre 2003 e 2005 e inflexão a partir de 2006, assentada em estímulo fiscal e monetário, aceleração do desenvolvimento social via transferências e salário-mínimo e retomada do investimento público. Kerstenetzky (2012) acrescenta profundidade institucional ao argumento, ao situar a experiência brasileira no marco internacional da reinvenção do estado social e mostrar que o país, na contramão do desmonte observado em economias maduras, encontrava-se em processo de construção de seu Estado de bem-estar. O critério dessa família é a orientação distributiva dos instrumentos de política, e não a existência das regras que os enquadram. O que se observa é o sentido em que salário-mínimo, transferências, crédito público e investimento estatal foram mobilizados, e se essa mobilização foi sustentada no tempo ou episódica. O critério tem o mérito de captar exatamente o que o primeiro ignora. Sua fragilidade está na tentação de saltar da reorientação dos instrumentos para a afirmação de mudança de modelo de desenvolvimento, salto que a definição de Fonseca (2015) impede: qualificar uma política como desenvolvimentista exige projeto deliberado de transformação produtiva, com objetivos de industrialização, redução da heterogeneidade estrutural e construção de capacidade tecnológica nacional, e não apenas atuação estatal expansiva. A terceira família recusa a dicotomia entre as duas leituras anteriores e adota como critério a coexistência. Morais e Saad-Filho (2011) qualificam a política econômica do período como híbrida, na medida em que as iniciativas desenvolvimentistas se somaram, de forma complementar e não substitutiva, às políticas macroeconômicas neoliberais herdadas, cuja incompatibilidade latente teria sido apenas provisoriamente suspensa por uma conjunção singular de fatores internos e externos. Em perspectiva internacional comparada, Ban (2013) chega a diagnóstico análogo: o regime brasileiro não seria réplica local do Consenso de Washington (Williamson, 1990) nem ruptura revolucionária, mas neodesenvolvimentismo liberal, produto da edição doméstica das prescrições do Consenso por atores que preservaram a estabilidade macroeconômica enquanto reduziam a dependência de poupança externa. Bastos (2012), por fim, distingue analiticamente duas correntes em disputa no interior do próprio campo desenvolvimentista, o desenvolvimentismo exportador do setor privado, centrado no câmbio competitivo, e o desenvolvimentismo distributivo orientado pelo Estado, centrado no mercado interno de consumo de massa e no gasto social. O critério aqui é a coexistência: a classificação se sustenta se elementos das duas leituras anteriores forem simultaneamente verificáveis. A vantagem é evidente, pois a categoria acomoda o que as outras duas tratam como anomalia. A desvantagem também: uma classificação que se sustenta pela coexistência corre o risco de ser compatível com qualquer configuração de dados, e nesse caso deixa de ser informativa. É esse risco que a declaração de condições de refutação procura neutralizar. Antes de passar ao procedimento, convém explicitar o que os três critérios pressupõem em matéria de regime monetário e financeirização. Eles não são teoricamente neutros: cada um supõe uma tese sobre como o regime macroeconômico funciona, e tornar visíveis esses pressupostos é condição para que a arbitragem não se reduza a uma escolha de indicadores. O critério da arquitetura pressupõe que as regras determinam os preços macroeconômicos. É a proposição central do Novo Consenso, formalizada na regra de Taylor (1993) e refinada por Svensson (1997) na versão prospectiva, segundo a qual a taxa básica responde a desvios da inflação esperada e do produto em relação a suas referências. Mishkin (2000) mostra que a transposição do arcabouço a economias emergentes exige condições prévias específicas, de independência operacional do banco central a disciplina fiscal, e Minella et al. (2003) documentam que a operação brasileira inicial incorporou a volatilidade cambial como determinante relevante da decisão. Se as regras determinam os preços, então sua permanência basta para caracterizar continuidade, e é por isso que a primeira família pode concluir continuidade sem examinar a orientação distributiva dos instrumentos. O critério da orientação pressupõe o oposto: que as regras subdeterminam os resultados, de modo que o mesmo arcabouço pode produzir trajetórias distintas segundo a forma como é operado. O pressuposto encontra sustentação na crítica pós-keynesiana, para a qual a inflação periférica comporta dimensões de custo e de conflito distributivo que instrumentos monetários não endereçam (Sicsú, 2003), e na evidência de que a desinflação brasileira do período respondeu mais a câmbio, preços administrados e salário-mínimo do que a contenção de demanda (Summa; Serrano, 2018). Nessa leitura, o espaço de manobra dentro das regras é o objeto relevante, e a distribuição pode operar como variável causal do crescimento, e não apenas como seu resultado (Serrano; Summa, 2011). O critério da coexistência, por fim, pressupõe que os dois planos são governados por lógicas distintas e parcialmente independentes, o que a literatura da financeirização fornece. Chesnais (1996) e Epstein (2005) descrevem o processo pelo qual a integração dos circuitos de capital subordina a política macroeconômica periférica às exigências dos mercados financeiros globais, e Bruno et al. (2011) traduzem a tese para o caso brasileiro ao caracterizar um regime de finance-led growth em que a taxa real elevada deixa de ser anomalia conjuntural e passa a variável funcional do arranjo. Se o plano monetário-financeiro responde a condições externas de avaliação de risco enquanto o plano distributivo responde a decisões domésticas, então a coexistência de continuidade e inflexão não é contradição, e sim consequência esperada. O procedimento da seção seguinte adota esse pressuposto, com a ressalva de que adotá-lo impõe justificar por que as duas lógicas não se anulam, questão retomada nas considerações finais. O Quadro 1 sistematiza as três famílias interpretativas e os critérios que lhes foram reconstruídos ao longo desta seção. Quadro 1 - Famílias interpretativas sobre o período 1995-2010 e seus critérios implícitos de classificação Família interpretativa Critério implícito de classificação Principais obras Continuidade do ajuste liberal Permanência da arquitetura institucional (metas, câmbio flutuante, primário, abertura financeira) e do patamar dos preços macroeconômicos que ela produz Paulani (2008; 2012); Carneiro (2006); Boito Jr. (2013) Inflexão desenvolvimentista Mudança sustentada na orientação distributiva dos instrumentos de política operados dentro das mesmas regras Bresser-Pereira (2007); Singer (2012); Barbosa e Souza (2010); Kerstenetzky (2012) Coexistência ou regime híbrido Coexistência verificável de elementos das duas leituras anteriores no mesmo período Morais e Saad-Filho (2011); Ban (2013); Bastos (2012) Fonte: elaboração própria a partir da literatura revisada. Comparados lado a lado, os três critérios não competem pela mesma evidência: cada um interroga um plano distinto do mesmo objeto. O da arquitetura pergunta se as regras permaneceram; o da orientação, em que sentido foram operadas; o da coexistência, se ambos os planos se verificam simultaneamente. Daí a possibilidade, que a controvérsia trata como paradoxo, de as três famílias estarem corretas naquilo que afirmam e equivocadas naquilo que negam às demais. O desacordo é menos empírico do que conceitual, e é essa a razão pela qual o acúmulo de indicadores não o dissolveu. Reconhecer isso, porém, não basta para arbitrar entre as leituras. Enquanto os critérios permanecerem implícitos e sem condições declaradas de refutação, a categoria intermediária segue vulnerável à objeção de acomodar qualquer configuração de dados. O que falta é converter os critérios reconstruídos em proposições testáveis, atribuindo a cada categoria indicadores observáveis e enunciando o que precisaria ocorrer para que a classificação fosse considerada falsa. É esse o objeto da seção seguinte. MÉTODOS O procedimento proposto tem três passos. O primeiro separa três categorias que o debate funde. Continuidade do regime diz respeito à permanência das regras e da arquitetura institucional. Inflexão da operação diz respeito à mudança sustentada na orientação com que os instrumentos são mobilizados dentro dessas regras. Transformação estrutural diz respeito à alteração qualitativa da estrutura produtiva e da inserção externa. As três são logicamente independentes: um regime pode permanecer formalmente intacto e ser operado em sentido oposto ao anterior, e uma reorientação sustentada dos instrumentos pode ocorrer sem que a estrutura produtiva se altere. O segundo passo atribui a cada categoria um critério observável. Para continuidade do regime, verifica-se se os três pilares permaneceram vigentes ao longo de todo o período e se os preços macroeconômicos que o regime produz, particularmente o juro real e o câmbio real, permaneceram no mesmo patamar de ordem de grandeza. Para inflexão da operação, verifica-se se a orientação distributiva dos instrumentos mudou de sentido e se a mudança se sustentou por mais de um mandato, com resultados observáveis em indicadores de renda e de mercado de trabalho. Para transformação estrutural, aplica-se o critério de Fonseca (2015) e examinam-se os indicadores de estrutura: participação da indústria de transformação no produto, taxa de investimento, composição da pauta exportadora e posição do câmbio real. O terceiro passo declara as condições de refutação, e é ele que distingue uma classificação de um rótulo. A tese de continuidade do regime seria refutada pela revogação formal de qualquer um dos pilares ou por mudança de patamar dos preços macroeconômicos que os aproximasse dos padrões internacionais comparáveis. A tese de inflexão da operação seria refutada pela ausência de reorientação distributiva sustentada, ou por sua restrição a um único mandato. A tese de ausência de transformação estrutural seria refutada por elevação persistente da participação industrial, por salto do investimento acima dos patamares históricos ou por diversificação da pauta exportadora. O Quadro 2 sistematiza os critérios e as condições de refutação. Quadro 2 - Critérios de classificação, condições de refutação e vereditos Categoria Critério observável Condição de refutação Veredito Continuidade do regime Vigência ininterrupta dos três pilares; juro real e câmbio real sem convergência aos padrões internacionais comparáveis Revogação formal de qualquer pilar; convergência dos preços macroeconômicos Sustenta-se Inflexão da operação Mudança de sentido na orientação distributiva dos instrumentos, sustentada por mais de um mandato, com resultados em renda e mercado de trabalho Ausência de reorientação sustentada; reorientação restrita a um único mandato Sustenta-se a partir de 2006 Transformação estrutural Critério de Fonseca (2015); participação industrial, taxa de investimento, pauta exportadora e posição do câmbio real Elevação persistente da participação industrial; salto do investimento; diversificação da pauta Não se sustenta Fonte: elaboração própria. Nota: os vereditos resultam do confronto com a evidência discutida adiante e valem para as medidas ali especificadas. Três esclarecimentos delimitam o alcance do procedimento. Ele é classificatório, não causal: estabelece a que categoria a experiência pertence, sem identificar os mecanismos que a produziram. É sensível à escolha dos indicadores, razão pela qual cada critério, quando aplicado, vem acompanhado da qualificação de sua medida. E depende das evidências disponíveis na literatura e nas bases oficiais, herdando suas limitações, entre as quais a mais relevante é a subestimação da renda do topo nas pesquisas domiciliares (Barros; Cury; Ulyssea, 2007). RESULTADO E DISCUSSÃO O critério da arquitetura institucional, que fundamenta a tese de continuidade do regime, é o que a evidência satisfaz de forma mais inequívoca. Os três pilares foram institucionalizados entre 1999 e 2000, com a flutuação cambial de janeiro de 1999, o regime de metas de junho de 1999, as metas de superávit primário acordadas com o Fundo Monetário Internacional e a Lei de Responsabilidade Fiscal de 2000, e nenhum deles foi revogado até 2010. A transição presidencial de 2003 não apenas os preservou: a Selic média subiu para 23,4% naquele ano, a meta de primário foi elevada e as metas de inflação foram ajustadas em Carta Aberta, mas mantidas como referência (Tabela 1). Tabela 1 - Indicadores macroeconômicos selecionados, Brasil (1995-2010) Ano PIB (%) IPCA (%) Selic (% a.a.) Juro real (% a.a.) Câmbio (R$/US$) Primário (% PIB) DLSP (% PIB) Gini 1995 4,2 22,41 54,9 26,5 0,97 0,2 30,6 0,600 1996 2,2 9,56 27,6 16,5 1,04 -0,1 33,3 0,601 1997 3,4 5,22 25,2 19,0 1,12 -0,9 34,3 0,601 1998 0,3 1,65 29,5 27,4 1,21 0,0 41,7 0,599 1999 0,5 8,94 26,3 15,9 1,79 3,2 48,7 0,593 2000 4,4 5,97 17,6 11,0 1,96 3,5 48,8 ND 2001 1,4 7,67 17,5 9,1 2,32 3,6 51,5 0,594 2002 3,1 12,53 19,1 5,8 3,53 3,2 59,9 0,588 2003 1,1 9,30 23,4 12,9 2,89 3,2 54,3 0,582 2004 5,8 7,60 16,2 8,0 2,65 3,7 50,2 0,570 2005 3,2 5,69 19,1 12,7 2,34 3,7 47,9 0,568 2006 4,0 3,14 15,3 11,8 2,14 3,2 46,5 0,561 2007 6,1 4,46 12,0 7,2 1,77 3,2 44,6 0,554 2008 5,1 5,90 12,4 6,1 2,34 3,3 37,6 0,544 2009 -0,1 4,31 10,0 5,5 1,74 1,9 40,9 0,540 2010 7,5 5,91 9,8 3,7 1,67 2,6 38,0 ND Fonte: elaboração própria a partir de Banco Central do Brasil (2026), IBGE (2026), World Bank (2026), Datasus (2011) e Giambiagi et al. (2016). Nota: resultado primário e DLSP de 1995-2001 e 1995-2000, respectivamente, conforme Giambiagi et al. (2016); demais anos, BCB/SGS (séries 5793 e 4513), com emenda em dez./2001, encadeamento aproximado que não constitui série oficial homogênea. Selic: média aritmética simples das taxas mensais anualizadas (SGS 4189). Juro real: equação de Fisher sobre Selic e IPCA. Gini: série RIPSA B.9; ND em 2000 e 2010, anos sem PNAD. O segundo teste do critério é mais informativo. A Figura 1 mostra que o juro real, embora declinante, permaneceu em patamar excepcional durante todo o período: média de 22,4% ao ano em 1995-1998, 10,4% em 1999-2002, 11,3% em 2003-2006 e 5,6% em 2007-2010, o que resulta em 16,4% ao ano sob Cardoso e 8,5% sob Lula (Tabela 2). Mesmo o valor do segundo mandato de Lula, o mais baixo da série, situa-se acima do que a literatura considera compatível com estabilidade de preços em economias de renda média. Modenesi (2014) nomeia o fenômeno conservadorismo monetário extremo, e Modenesi e Modenesi (2012) mostram que nenhuma das explicações concorrentes, de baixa eficácia da política monetária a equilíbrios múltiplos, convenção pró-conservadorismo, causas fiscais e incerteza jurisdicional, dá conta isoladamente da anomalia. Figura 1 - Taxa Selic nominal e juro real ex post (1995-2010) Fonte: elaboração própria a partir de Banco Central do Brasil (2026), séries SGS 4189 e 433. Nota: no painel (b), as linhas verticais assinalam as quebras estimadas por Bai e Perron (2003) com datas endógenas, reportadas no estudo companheiro. Tabela 2 - Síntese comparativa por mandato presidencial (médias do período, salvo indicação) Período PIB (% a.a.) IPCA (% a.a.) Juro real (% a.a.) Primário (% PIB) DLSP final (% PIB) Gini final FHC I (1995-1998) 2,5 9,7 22,4 -0,2 41,7 0,599 (1998) FHC II (1999-2002) 2,4 8,8 10,4 3,4 59,9 0,588 (2002) Lula I (2003-2006) 3,5 6,4 11,3 3,5 46,5 0,561 (2006) Lula II (2007-2010) 4,7 5,1 5,6 2,8 38,0 0,540 (2009) FHC (1995-2002) 2,4 9,2 16,4 1,6 59,9 0,588 (2002) Lula (2003-2010) 4,1 5,8 8,5 3,1 38,0 0,540 (2009) Corte 2003-2005 3,4 7,5 11,2 3,5 47,9 0,568 (2005) Corte 2006-2010 4,5 4,7 6,9 2,8 38,0 0,540 (2009) Fonte: elaboração própria a partir de Banco Central do Brasil (2026), IBGE (2026), Datasus (2011) e Giambiagi et al. (2016). Nota: médias aritméticas simples das observações anuais. DLSP final: posição de dezembro do último ano do período. Gini final: último ano com PNAD disponível, indicado entre parênteses. A contrapartida fiscal e financeira desse patamar aparece na Figura 2. Os juros nominais apropriados pelo setor público consolidado situaram-se entre 5,0% e 8,4% do PIB ao ano em 2002-2010, fluxo que explica contabilmente a convivência entre superávits primários próximos de 3% do PIB e déficits nominais persistentes, e a parcela da dívida mobiliária federal indexada à própria Selic, embora declinante, partiu de mais de 60% em 2002-2003 e ainda representava cerca de um terço do estoque em 2010. A composição transmite as elevações da taxa básica ao custo do estoque pós-fixado, o que compromete a eficácia contracionista do instrumento (Brito; Araújo; Araujo, 2019). A leitura da economia política da financeirização vê nesse fluxo a remuneração da coalizão rentista que sustenta o arranjo (Bruno et al., 2011), interpretação que a série ilustra sem demonstrar, uma vez que dados agregados não identificam detentores nem incidência distributiva líquida. Figura 2 - Indicadores fiscais e financeiros do setor público (1995-2010) Fonte: elaboração própria a partir de Banco Central do Brasil (2026), séries SGS 4513, 5793, 5760 e 4177, e Giambiagi et al. (2016) para os anos anteriores à cobertura do SGS. Nota: sinal do resultado primário invertido em relação à convenção de necessidades de financiamento, de modo que valores positivos indicam superávit; painéis (c) e (d) em posição de dezembro. O câmbio real fecha o critério. O painel (c) da Figura 5, adiante, mostra que o índice, após a depreciação de 1999-2003, com pico de 137,4 pontos na média de 2003, apreciou-se de forma quase contínua até retornar, em 2010, a 77,1 pontos, patamar comparável ao da própria âncora cambial dos anos 1990, entre 68 e 74 pontos. Nenhuma das condições de refutação declaradas no Quadro 2 se verificou: os pilares não foram revogados e os preços macroeconômicos não convergiram para os padrões internacionais comparáveis. A classificação de continuidade do regime, nesse sentido restrito, sustenta-se. O segundo critério, o da orientação distributiva dos instrumentos, é satisfeito com igual clareza, e em direção oposta: o que ele revela é uma inflexão da operação, com data identificável. Três vetores definem a reorientação. A política de valorização real do salário-mínimo, iniciada em 2005, aplicada por acordo a partir de 2007 e institucionalizada nas Leis nº 12.255/2010 e nº 12.382/2011, acumulou ganho real de 62,4% entre dezembro de 2002 e dezembro de 2010, com o piso passando de R$ 200,00 para R$ 510,00 nominais ante inflação de 57,0% pelo INPC. As transferências federais de renda às famílias, agregado que reúne benefícios previdenciários, abono e seguro-desemprego, benefícios assistenciais e Bolsa Família, passaram de 6,89% do PIB em 2002 para 9,01% em 2009, e o Bolsa Família alcançou 12,4 milhões de famílias em 2009 a custo inferior a 0,4% do PIB. O crédito ao setor privado expandiu-se de 24,6% do PIB em 2003 para 46,6% em 2010, apoiado no consignado e nos bancos públicos, e o Programa de Aceleração do Crescimento elevou o investimento federal a cerca de 1% do PIB em 2009 (Barbosa; Souza, 2010; Morais; Saad-Filho, 2011; Kerstenetzky, 2012). Os resultados observáveis, reunidos na Tabela 3, confirmam a sustentação no tempo exigida pelo critério. O coeficiente de Gini caiu de 0,588 em 2002 para 0,540 em 2009, em trajetória contínua e sem precedentes na série (Figura 3); a pobreza absoluta recuou de 35,8% das famílias em 2003 para 21,4% em 2009; a taxa média anual de desocupação nas seis regiões metropolitanas cobertas pela Pesquisa Mensal de Emprego caiu de 12,3% em 2003 para 6,7% em 2010; e o estoque de vínculos formais expandiu-se de 28,7 milhões em 2002 para 44,1 milhões em 2010. A decomposição disponível atribui papel central à combinação entre rendimentos do trabalho, impulsionados pelo salário-mínimo e pela formalização, e transferências públicas, cuja contribuição as estimativas situam entre aproximadamente um quinto e um terço da queda observada (Soares, F. et al., 2006; Soares, S. et al., 2007). Tabela 3 - Indicadores sociais e de mercado de trabalho: síntese do período Lula Indicador 2002/2003 2009/2010 Fonte Coeficiente de Gini (PNAD) 0,588 (2002) 0,540 (2009) Datasus (2011) Pobreza absoluta (% das famílias) 35,8 (2003) 21,4 (2009) Morais e Saad-Filho (2011) Salário-mínimo nominal (dez., R$) 200,00 (2002) 510,00 (2010) Legislação federal Salário-mínimo real (dez./2002 = 100) 100,0 (2002) 162,4 (2010) Cálculo próprio, Eq. (4) Transferências federais às famílias (% do PIB) 6,89 (2002) 9,01 (2009) Barbosa e Souza (2010) Bolsa Família (milhões de famílias atendidas) criado em out./2003 12,4 (2009) Kerstenetzky (2012) Bolsa Família (% do PIB) 0,19 (2003) 0,39 (2009) Barbosa e Souza (2010) Crédito ao setor privado (% do PIB) 24,6 (2003) 46,6 (2010) Morais e Saad-Filho (2011) Desocupação, PME seis regiões (% média anual) 12,3 (2003) 6,7 (2010) IBGE (2026) Vínculos formais ativos (milhões, 31/12) 28,7 (2002) 44,1 (2010) MTE (2026) Reservas internacionais (US$ bilhões, dez.) 37,8 (2002) 288,6 (2010) BCB (2026) Fonte: elaboração própria a partir das fontes indicadas em cada linha. Nota: os valores de pobreza, transferências, Bolsa Família e crédito são estimativas reproduzidas das obras indicadas, conforme os conceitos e universos definidos pelas próprias fontes; séries com metodologias distintas não foram encadeadas. Figura 3 - Coeficiente de Gini da renda domiciliar per capita, Brasil (1995-2009) Fonte: elaboração própria a partir de Datasus (2011), indicador RIPSA B.9, com base na PNAD/IBGE. Nota: sem PNAD em 2000 e 2010; nos Censos Demográficos o índice foi de 0,646 (2000) e 0,609 (2010), valores não comparáveis à série da PNAD segundo a própria fonte. A data da inflexão merece registro à parte, porque é o ponto em que o critério se torna discriminante. A periodização de Barbosa e Souza (2010) localiza a virada em 2006, e o corte alternativo aos mandatos presidenciais corrobora a leitura em termos descritivos: no subperíodo 2006-2010 o PIB cresceu 4,5% ao ano e o juro real médio foi de 6,9%, contra 3,4% e 11,2% em 2003-2005 (Tabela 2). A convergência sistemática da inflação ao intervalo de tolerância, por sua vez, só se consolida a partir de 2004-2005, depois do choque de 2002-2003 (Figura 4), o que situa a reorientação distributiva já sob inflação ancorada. O trabalho companheiro, ao aplicar o teste de quebras múltiplas com datas endógenas de Bai e Perron (2003) à série mensal da taxa básica, localiza quebra em julho de 2006, resultado que converte a periodização qualitativa em achado estatístico e que aqui se registra como corroboração externa, não como evidência produzida neste artigo. Figura 4 - IPCA efetivo, meta central e intervalo de tolerância (1999-2010) Fonte: elaboração própria a partir de Banco Central do Brasil (2026) e do histórico de metas do Conselho Monetário Nacional. Nota: em 2003 e 2004 exibem-se as metas ajustadas de 8,5% e 5,5%, anunciadas na Carta Aberta de 21 de janeiro de 2003 e na Resolução CMN nº 3.108, de 25 de junho de 2003, em lugar das metas originalmente fixadas de 4,0% e 3,75%. Duas qualificações limitam o alcance do critério. A primeira é histórica: Ferreira, Leite e Litchfield (2008) documentam que o coeficiente de Gini subiu de 0,574 em 1981 para 0,625 em 1989 e recuou para 0,564 em 2004, o que insere a queda dos anos 2000 em uma reversão iniciada com a própria estabilização de 1994 e reparte o crédito distributivo entre os dois governos comparados. A segunda é de mensuração: Medeiros, Souza e Castro (2015), com declarações do imposto de renda, mostram que a concentração no topo é substancialmente superior à captada pela PNAD e permaneceu estável entre 2006 e 2012. Como universo, conceito de renda e unidade de análise diferem, as duas medidas são evidências complementares sobre segmentos distintos da distribuição, e não estimativas intercambiáveis de um mesmo parâmetro. A inflexão é robusta na base e no meio da distribuição e não está demonstrada no topo, qualificação que a classificação precisa incorporar. Resta o terceiro critério, o da transformação estrutural, e é o único que a evidência recusa; essa recusa é o que impede classificar o período como transição desenvolvimentista em sentido pleno. A participação da indústria de transformação no produto, que se recuperara para 15,1% em 2004 sob câmbio ainda depreciado, recuou para 12,7% em 2010, patamar inferior ao de 1995 (Figura 5). A trajetória alinha-se à desindustrialização relativa discutida por Oreiro e Feijó (2010), que apontam a apreciação cambial crônica como principal canal pelo qual o regime macroeconômico compromete a estrutura produtiva, ainda que os próprios autores registrem a controvérsia sobre causas e magnitude. A medida é de participação a preços correntes, sensível a variações de preços relativos e a revisões das Contas Nacionais, e a caracterização plena do fenômeno exigiria emprego industrial, produção em volume, produtividade e composição da pauta exportadora; trata-se, portanto, de evidência parcial, suficiente para recusar a afirmação de transformação, insuficiente para estabelecer sua causa. Figura 5 - Setor externo, câmbio real e estrutura produtiva (1995-2010) Fonte: elaboração própria a partir de World Bank (2026), indicadores BN.CAB.XOKA.GD.ZS, TT.PRI.MRCH.XD.WD, NE.GDI.FTOT.ZS e NV.IND.MANF.ZS, e Banco Central do Brasil (2026), série SGS 11752. Nota: os termos de troca têm origem UNCTAD e, para o Brasil, observações disponíveis apenas a partir de 2005; no painel (c), valores maiores indicam câmbio real mais depreciado; no painel (d), participações a preços correntes. O investimento confirma o diagnóstico. A formação bruta de capital fixo saiu do vale de 16,6% do PIB em 2003 para 20,5% em 2010, recuperação efetiva porém modesta, que apenas retornou ao nível de 1995 e não se aproxima dos patamares que a literatura associa a transformação produtiva. O setor externo acrescenta uma qualificação de sentido semelhante: o saldo em transações correntes, cronicamente deficitário entre 1995 e 2001, tornou-se superavitário entre 2003 e 2007, precisamente os anos de decolagem do novo ciclo, e voltou a deteriorar-se a partir de 2008, fechando 2010 em déficit de 3,9% do PIB, enquanto os termos de troca melhoraram 27,6% entre 2005 e 2010 (Figura 5). A melhora externa, portanto, foi em parte transitória e apoiada no ciclo de commodities, o que recoloca a vulnerabilidade estrutural apontada pela tradição cepalina (Prebisch, 2000a; Carneiro, 2006). Nenhuma das condições de refutação da tese de ausência de transformação se verificou: não houve elevação persistente da participação industrial, nem salto do investimento acima dos patamares históricos, nem diversificação da pauta exportadora, sobre a qual a literatura registra, ao contrário, tendência de reprimarização (Bastos, 2012). Aplicado o critério conceitual de Fonseca (2015), a conclusão é direta: faltou ao período o projeto deliberado de transformação produtiva que a definição exige. CONSIDERAÇÕES FINAIS O artigo partiu da suspeita de que a controvérsia sobre o período 1995-2010 se mantém aberta por razões conceituais antes que empíricas, e procurou enfrentá-la pela construção de um procedimento explícito de arbitragem. Os quatro objetivos específicos foram cumpridos: reconstruíram-se os critérios implícitos de cada família interpretativa, separaram-se três categorias que o debate funde, atribuiu-se a cada uma um critério observável com condições declaradas de refutação e confrontaram-se os critérios com a evidência. O resultado é assimétrico, e a assimetria é o achado principal. A continuidade do regime se sustenta: os três pilares permaneceram vigentes de 1999 a 2010 e o juro real, embora declinante, não convergiu para os padrões internacionais comparáveis, ao mesmo tempo que o câmbio real terminou o período em patamar de apreciação semelhante ao da âncora dos anos 1990. A inflexão da operação também se sustenta: a reorientação distributiva dos instrumentos foi de sentido inequívoco, atravessou dois mandatos e produziu resultados observáveis em renda, pobreza, desocupação e formalização. A transformação estrutural não se sustenta em nenhum de seus critérios. As três conclusões são compatíveis entre si precisamente porque as categorias foram separadas de antemão, e essa compatibilidade é o conteúdo analítico da noção de regime híbrido. A contribuição do procedimento está em retirar dessa noção o caráter de rótulo. Afirmar que o período constituiu regime híbrido passa a significar três proposições verificáveis e, portanto, falsificáveis: que as regras permaneceram, que a orientação dos instrumentos mudou de forma sustentada a partir de 2006 e que a estrutura produtiva não se alterou. Se qualquer uma delas fosse contrariada pela evidência, a classificação cairia. Nenhuma o foi, nas medidas aqui examinadas. As leituras político-sociológicas oferecem a mediação que o procedimento, por ser classificatório, não fornece. A caracterização de Singer (2012), de reforma gradual dentro da ordem amparada em pacto que evita o confronto com o capital, é consistente com a evidência de que a redistribuição avançou pelos interstícios do regime sem tocar em seus pilares monetário-financeiros; a crítica de Boito Jr. (2013) e os balanços reunidos em Singer e Loureiro (2016) acrescentam que a conciliação preservou a hegemonia dos interesses financeiros; e a advertência de Morais e Saad-Filho (2011), de que a suspensão da incompatibilidade entre os dois componentes do híbrido era provisória e dependente de conjuntura externa favorável, antecipa os limites que o arranjo revelaria depois de 2010. Três limitações delimitam as conclusões. O procedimento é classificatório e não identifica mecanismos causais, de modo que nada aqui estabelece o efeito do salário-mínimo, das transferências ou do crédito sobre a desigualdade. Os critérios são sensíveis à escolha dos indicadores, e a participação industrial a preços correntes é o caso mais evidente dessa dependência. E o recorte encerrado em 2010 impede julgamento sobre a sustentabilidade do arranjo, que é justamente a questão que a literatura posterior passaria a enfrentar. Dessas limitações deriva a agenda que o artigo sugere. A primeira frente é aplicar o mesmo procedimento ao período posterior a 2010, quando a chamada nova matriz econômica alterou a operação do tripé, para verificar se a classificação se mantém ou se a hipótese de incompatibilidade latente se confirma. A segunda é submeter os critérios a medidas alternativas, particularmente no eixo da estrutura produtiva, com emprego industrial, produção em volume e composição da pauta. A terceira é integrar registros tributários e pesquisas domiciliares na mensuração da desigualdade, na linha aberta por Medeiros, Souza e Castro (2015), de modo que o critério distributivo possa ser aplicado também ao topo da distribuição. REFERÊNCIAS BAI, J.; PERRON, P. Computation and analysis of multiple structural change models. Journal of Applied Econometrics, Chichester, v. 18, n. 1, p. 1-22, 2003. BAN, C. Brazil's liberal neo-developmentalism: new paradigm or edited orthodoxy? Review of International Political Economy, London, v. 20, n. 2, p. 298-331, 2013. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS): séries 188, 433, 3546, 3696, 4177, 4189, 4513, 5760, 5793 e 11752. Brasília: BCB, 2026. Disponível em: https://www3.bcb.gov.br/sgspub. Acesso em: 15 set. 2026. BARBOSA, N.; SOUZA, J. A. P. A inflexão do governo Lula: política econômica, crescimento e distribuição de renda. In: SADER, E.; GARCIA, M. A. (org.). Brasil, entre o passado e o futuro. 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DOMINÂNCIA FINANCEIRA SEM DOMINÂNCIA MONETÁRIA: REGIMES ENDÓGENOS NA ESTRUTURA A TERMO BRASILEIRA, 2006–2025
FRANCISCO CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA LEITE
A literatura sobre financeirização costuma operacionalizá-la por indicadores agregados de longo prazo, construídos a partir de contas nacionais e de demonstrações contábeis, e a literatura brasileira sobre a estrutura a termo raramente identifica choques estruturais que liguem a curva de juros aos mercados de ações e de câmbio. Este artigo articula as duas agendas e testa se a financeirização pode ser tratada como um estado do processo de formação de preços, e não apenas como tendência secular. Extraem-se os fatores da curva prefixada brasileira por Nelson-Siegel dinâmico entre janeiro de 2006 e dezembro de 2025, estima-se um vetor autorregressivo com mudança de regime markoviana sobre esses fatores e sobre os retornos de ações, títulos e câmbio, e identifica-se o choque de política monetária por restrições de sinal, sem impor o sinal da resposta cambial. O modelo separa dois regimes cuja datação, inteiramente endógena, coincide com os episódios de estresse do período em cinco dos seis eventos examinados. No regime de alta volatilidade o choque é de 1,44 a 2,36 vezes mais intenso, mas explica parcela menor da variância do erro de previsão em quinze das vinte comparações realizadas, de modo que a política monetária ganha força absoluta e perde comando relativo no mesmo estado. O comovimento entre mercados aumenta em nove dos dez pares examinados, e essa é a evidência mais direta de dominância financeira encontrada.
Palavras-chave: Financeirização,Dominância financeira,Estrutura a termo,Mudança de regime markoviana,Política monetária
Oral
Abrir o trabalhoAspectos da formação econômica dos municípios da Região de Planejamento Centro Sul do Ceará
MARIA EMILY SILVA ALEXANDRE ; JANIELE DE BRITO DE SOUZA
ASPECTOS DA FORMAÇÃO ECONÔMICA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO DE PLANEJAMENTO CENTRO-SUL DO CEARÁ Área Temática: Desenvolvimento Regional, Urbano, Rural e Sustentabilidade Resumo: O presente trabalho analisa os aspectos da formação econômica dos municípios que compõem a Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará, delimitada pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE). Parte-se da compreensão de que o desenvolvimento regional ocorre de forma desigual no território, sendo influenciado por fatores históricos, geográficos, produtivos e institucionais. Nesse contexto, torna-se fundamental investigar como se estruturaram as bases econômicas locais e de que maneira elas se refletem nos indicadores demográficos, sociais e econômicos atuais da região. Nesse contexto, o objetivo geral consiste em compreender os fatores determinantes da formação histórico-econômica dos municípios da Região de Planejamento Centro-Sul cearense e suas implicações para o desenvolvimento regional. Para isso, adotou-se uma metodologia de natureza básica, com abordagem qualitativa, caráter exploratório e descritivo, fundamentada em levantamento bibliográfico e documental. Foram utilizados dados secundários provenientes de bases oficiais, especialmente IBGE, IPECE, INEP, MDIC, SESA e RAIS/MTE, além de artigos científicos, livros e documentos institucionais. Os principais resultados evidenciam forte heterogeneidade intra-regional, com concentração populacional e econômica em poucos municípios, especialmente Iguatu e Icó, que exercem função de centralidade regional. Observa-se predominância do setor de serviços no emprego formal, baixa representatividade da agropecuária nas estatísticas formais e desigualdades nos indicadores de saúde e educação, sobretudo no ensino médio e na mortalidade infantil. Conclui-se assim, que o desenvolvimento regional no Centro-Sul cearense apresenta concentração espacial e setorial, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à diversificação produtiva, redução das desigualdades e fortalecimento das potencialidades locais. Palavras-chave: Centralidade Regional; Dinâmica Setorial; Indicadores Sociais; Análise Territorial. 1 INTRODUÇÃO Compreender o funcionamento econômico de um território exige incorporar a dimensão espacial às análises sociais e econômicas. Conforme Pires et al. (2018), a atividade humana, especialmente a econômica, está vinculada a pontos específicos do espaço, tornando relevantes os conceitos de espaço, região e desenvolvimento regional. Nesse sentido, o espaço envolve dimensões físicas, sociais, econômicas, culturais e institucionais (IPECE, 2006; 2015). A região, por sua vez, constitui um recorte espacial marcado por características compartilhadas, enquanto a regionalização representa importante instrumento de planejamento e gestão pública. Essa perspectiva é particularmente relevante em contextos de desigualdade territorial, uma vez que o desenvolvimento ocorre de forma desigual e tende a favorecer áreas mais dinâmicas (Duarte, 2013). Diante disso, o presente estudo tem como objetivo compreender os determinantes da formação econômica dos municípios da Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará e suas implicações para o desenvolvimento regional. A região é composta por Acopiara, Baixio, Cariús, Catarina, Cedro, Icó, Iguatu, Ipaumirim, Jucás, Orós, Quixelô, Saboeiro e Umari, municípios que compartilham características do semiárido, mas apresentam diferentes trajetórias econômicas, dinâmicas de crescimento e níveis de polarização urbana (IPECE, 2015). Para alcançar esse propósito, estabelecem-se como objetivos específicos: i) discutir os conceitos de desenvolvimento regional e local, região e região de planejamento; ii) investigar a trajetória histórico-política da formação econômica dos municípios; e, iii) analisar indicadores recentes de natureza geoambiental, demográfica, social e econômica, buscando compreender suas dinâmicas territoriais e socioeconômicas. A partir desses objetivos, formula-se o seguinte problema de pesquisa: quais atividades econômicas marcaram a formação dos municípios da Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará e de que forma esse processo histórico influenciou os indicadores socioeconômicos recentes? A relevância do estudo está na possibilidade de contribuir para a compreensão da economia regional do Centro-Sul cearense e subsidiar discussões acadêmicas e políticas públicas voltadas à redução das disparidades territoriais e à promoção de um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável. O trabalho está estruturado em cinco seções, além desta introdução. A próxima apresenta o Referencial Teórico, contemplando o debate sobre desenvolvimento regional, local e região de planejamento e a formação histórico-econômico local. Em seguida, apresenta-se a metodologia. Posteriormente, são discutidos os resultados, organizados em indicadores sociais e dinâmicas de emprego e renda. Por fim, as conclusões sistematizam os principais achados do estudo. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Desenvolvimento regional, local e Região de Planejamento O debate sobre o desenvolvimento regional e local ganhou centralidade nas políticas públicas brasileiras a partir da segunda metade do século XX, especialmente diante dos esforços para reduzir as desigualdades socioeconômicas territoriais (Costa, 2010). Nesse contexto, o conceito de região passou a assumir importância tanto na ciência geográfica, para compreender a organização e as dinâmicas espaciais, quanto no planejamento público, como instrumento de delimitação territorial e orientação de investimentos e ações governamentais. Para este estudo, essa perspectiva é fundamental à compreensão da formação econômica dos municípios da Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará e de sua articulação com as estratégias de desenvolvimento regional promovidas pelo Estado. Nesse aspecto, o desenvolvimento regional constitui um campo marcado por diferentes abordagens. Na perspectiva clássica, fundamentada nos estudos de Perroux, Myrdal e Hirschman, o crescimento decorre predominantemente de fatores exógenos, como investimentos estatais e instalação de grandes indústrias, capazes de formar polos de crescimento, mas também de ampliar desigualdades socioespaciais (Cavalcante, 2008). Em contraposição, Aydalot (1986 apud Amaral Filho, 2001) propõe a abordagem do desenvolvimento endógeno, que enfatiza as potencialidades internas dos territórios e suas especificidades históricas, culturais, ambientais e produtivas. Assim, o desenvolvimento constitui um processo de transformação econômica, social e territorial orientado à redução das disparidades regionais. No Brasil, essas concepções contribuíram para a criação de instituições como a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), voltadas ao planejamento e à integração territorial. Entretanto, sua capacidade de atuação foi posteriormente reduzida em razão da escassez de recursos, da limitada autonomia e da fragilidade da articulação federativa (Lourenço, 2022). Nesse debate, Aydalot (1986 apud Amaral Filho, 2001) destaca o “meio inovador” e a capacidade local de geração de conhecimento, enquanto Lima (2021) enfatiza a valorização dos recursos e das especificidades territoriais, relacionando o desenvolvimento regional sustentável à preservação ambiental e à qualidade de vida. Em escala local, o desenvolvimento concentra-se na mobilização das competências e recursos próprios de cada território. Cabugueira (2000) destaca o protagonismo dos agentes locais, a inovação, a cooperação e a valorização das especificidades culturais e econômicas. Sant’Anna, Queiroz Neto e Marchi (2020) compreendem esse processo como eminentemente endógeno, baseado na ativação dos ativos humanos, sociais e produtivos, ultrapassando o crescimento econômico ao incorporar qualidade de vida, identidades coletivas e sustentabilidade. Entre seus elementos fundamentais estão a mobilização social, o fortalecimento das vocações econômicas locais, como agricultura familiar, turismo e artesanato, o capital social e as inovações capazes de dinamizar os mercados locais (Pereira, 2013). Assim, embora se diferenciem quanto à escala e aos mecanismos de atuação, desenvolvimento regional e local convergem para o fortalecimento dos territórios e a melhoria das condições de vida. A compreensão desses processos relaciona-se ao próprio conceito de região, entendida como uma construção dinâmica e histórica resultante da interação de fatores internos e externos e condicionada pelos contextos político, econômico e cultural (Matos; Gonçalves, 2019). Dessa forma, a região ultrapassa a simples delimitação espacial e pode assumir diferentes configurações, como natural, econômica, cultural e administrativa (Claval, 1974 apud Corrêa, 1986). Como unidade analítica e operacional de planejamento, possibilita identificar desigualdades, realizar diagnósticos e orientar políticas públicas de acordo com as especificidades territoriais. No Ceará, o IPECE utiliza o conceito de região de planejamento como instrumento de ordenamento territorial, considerando aspectos geográficos, econômicos, sociais e culturais para orientar a distribuição de recursos e investimentos públicos (IPECE, 2023). Esse modelo foi institucionalizado pela Lei Complementar nº 154, de 2015, que estabeleceu 14 Regiões de Planejamento no Estado, delimitadas a partir de características geoambientais, indicadores socioeconômicos, infraestrutura, aspectos socioculturais e redes de fluxos (Ceará, 2015). Entre elas, a Região de Planejamento Centro-Sul, objeto deste estudo, é formada pelos municípios de Acopiara, Baixio, Cariús, Catarina, Cedro, Icó, Iguatu, Ipaumirim, Jucás, Orós, Quixelô, Saboeiro e Umari. Esse recorte permite relacionar os processos históricos de formação econômica às características territoriais e socioeconômicas atuais, constituindo a base para a análise das especificidades e desigualdades existentes entre os municípios. 2.2 Trajetória histórico-econômica e institucional dos municípios 2.2.1 Os polos de centralidade histórica e comercial: Iguatu e Icó A estruturação urbana e econômica da Região Centro-Sul tem suas bases ancoradas nos municípios de Iguatu e Icó, que historicamente exerceram papéis de centralidade e polarização territorial (IPECE, 2021). Icó, um dos núcleos mais antigos do estado, prosperou entre os séculos XVIII e XIX como um dos maiores mercados de gado e charque do interior nordestino, articulando rotas de boiadas entre o Ceará, Pernambuco e Bahia (IBGE, 1959). Conhecido pela alcunha de “Terra do Louro” — cuja historiografia divide-se entre o abate administrativo de aves pragas e a lenda de um psitacídeo resgatado no Rio Salgado —, o município consolidou-se como subpolo regional, sustentado pelo Rio Salgado para a agricultura de vazante (Prefeitura Municipal de Icó, 2024; IPECE, 2021; IPECE, 2023). Por sua vez, Iguatu originou-se do aldeamento dos indígenas Quixelôs, evoluindo do antigo povoado de Telha até tornar-se cidade em 1874 (Lima, 2011; Souza; Lima, 2019). O grande divisor de sua economia ocorreu em 1910 com a chegada da Estrada de Ferro de Baturité, transformando o município no principal entreposto comercial de algodão do Alto Jaguaribe (IBGE, 2024). Essa opulência histórica refletiu-se no patrimônio cultural, como a Igreja Matriz de Senhora Santana (Iguatu, [s. d.]). Na contemporaneidade, Iguatu superou a crise da cotonicultura através da diversificação industrial — impulsionada pela Dakota Calçados — e consolidou-se como Centro Sub-regional A, estendendo sua influência educacional e administrativa por meio de campis da URCA, UECE e CENTEC (Souza; Lima, 2019; IPECE, 2023). 2.2.2 Os municípios de impulso ferroviário e do "ouro branco": Acopiara, Baixio e Cedro Um segundo grupo de municípios teve sua formação econômica fortemente condicionada pela expansão ferroviária e pelo ciclo do algodão. Acopiara, originada das sesmarias de Antônio Vieira Pita, teve seu crescimento impulsionado pela chegada da Ferrovia Fortaleza-Crato em 1919, emancipando-se politicamente em 1921 (IBGE, 1959; Ceará, 1921; Decreto nº 448, 1938). Cedro, cuja ocupação remonta ao final do século XVII, consolidou-se com a Estrada de Ferro de Baturité, tornando-se importante centro de beneficiamento durante a expansão algodoeira (Câmara Municipal de Cedro, 2014; UVA, 2003). Baixio, por sua vez, desenvolveu-se a partir da atividade pecuária e foi posteriormente favorecido pela expansão ferroviária, com a conexão do Ceará à Paraíba pela Rede de Viação Cearense (IBGE, 1959; Prefeitura Municipal de Baixio, 2024). Os três municípios compartilharam o dinamismo da cotonicultura e os impactos de sua decadência, intensificada pela praga do bicudo na década de 1970 (IBGE, 2023; IPECE, 2023). Atualmente, apresentam economias mais diversificadas entre agricultura familiar, pecuária e serviços, embora permaneçam condicionados pelas limitações hídricas do semiárido e pela necessidade de maior dinamização produtiva e logística (Câmara Municipal de Cedro, 2014; IPECE, 2021; 2023). 2.2.3 Antigos núcleos de ocupação e economias de sequeiro: Jucás, Saboeiro e Catarina Caracterizados por uma forte dependência histórica do setor primário e por raízes coloniais profundas ligadas à hinterland cearense, Jucás, Saboeiro e Catarina apresentam trajetórias moldadas pela pecuária extensiva. Jucás originou-se do antigo aldeamento dos indígenas Jucás, promovido por missionários e colonizadores no século XVIII, desenvolvendo-se economicamente a partir da criação de gado e da agricultura tradicional ao longo dos vales fluviais (IBGE, 1959). Saboeiro, por sua vez, constitui um dos núcleos de povoamento mais remotos do interior, umbilicalmente ligado à ocupação colonial dos Sertões dos Inhamuns e do Centro-Sul por criadores de gado baianos e pernambucanos que consolidaram o binômio gado-couro como base financeira local (Cunha, 2020). Em paralelo, Catarina estruturou-se na antiga Serra da Catarina (ex-território de Arneiroz), com o topônimo associado historicamente a Catarina de Albuquerque ou a Catarina Cardoso da Rocha Resende, da influente família Feitosa, tendo sua nucleação urbana consolidada em 1913 com a capela de São José (IBGE, 1959; Prefeitura Municipal de Catarina, 2024). Essas economias apoiam-se tradicionalmente na pecuária bovina e no binômio milho-feijão, operando sob os severos condicionantes do clima semiárido e da Caatinga (IPECE, 2021; IPECE, 2023). Contudo, enquanto Jucás e Saboeiro enfrentam historicamente desafios severos de oscilação hídrica em suas pastagens tradicionais, Catarina exibe uma persistente vulnerabilidade associada à agricultura de sequeiro, o que gerou, na contemporaneidade, uma forte expansão do setor de serviços altamente indexado ao funcionalismo público e às transferências governamentais de renda (IPECE, 2021; IPECE, 2023). 2.2.4 Fronteiras agrícolas e a dinâmica das águas: Orós, Cariús e Quixelô Um quarto bloco congrega os municípios cujas trajetórias econômicas e políticas recentes foram transformadas por grandes intervenções hidráulicas e pela proximidade com os mercados consolidados da região. Orós, desmembrado politicamente de Icó na segunda metade do século XX, teve sua dinâmica socioeconômica radicalmente alterada pela construção do Açude Orós pelo DNOCS, inaugurado em 1960. O empreendimento atraiu contingentes demográficos e viabilizou eixos de piscicultura e agricultura irrigada que hoje sustentam sua pauta produtiva (IBGE, 1959). De maneira correlata, Cariús originou-se do povoado de Poço dos Paus, em terras das etnias Juca, Quixará e Quixelô, tendo seu nome derivado do tupi "rio do cari" (IBGE, 1959; Prefeitura Municipal de Cariús, 2024). O desenvolvimento de Cariús intensificou-se nos anos 1920 com as obras ferroviárias e a construção do Açude Público de Cariús no governo Epitácio Pessoa, obtendo sua emancipação em 1951 (Ceará, 1951). Já Quixelô apresenta uma emancipação política recente, desmembrando-se de Iguatu no final do século XX. Historicamente, o território funcionou como uma franja de abastecimento agrícola para a cidade-polo, produzindo grãos em áreas de vazante e perímetros irrigados (Souza; Lima, 2019). Na atualidade, embora partilhem das vulnerabilidades climáticas da Caatinga, esses municípios diferenciam-se pelo uso estratégico de seus recursos hídricos: Orós destaca-se na piscicultura e turismo de veraneio; Cariús utiliza seu leito fluvial e solos férteis para a manutenção da agropecuária; e Quixelô sustenta uma dinâmica baseada na agricultura familiar, embora sofra um forte processo de movimento pendular de sua população em direção a Iguatu (IPECE, 2021; IPECE, 2023). 2.2.5 Zonas de fronteira interestadual e suporte local: Ipaumirim e Umari Por fim, municípios localizados nos extremos orientais da região de planejamento compartilham dinâmicas de transição e forte vinculação com mercados vizinhos. A formação de Ipaumirim deu-se em territórios originalmente habitados pelos indígenas Cariry (IBGE, 1959). Sua posição geográfica como passagem natural entre as Chapadas do Apodi e do Araripe transformou o território, desde o século XVII, em rota de penetração para missões jesuíticas, expedições militares e comboios comerciais (IPECE, 2021). Antigo distrito de Alagoinha, o município estruturou suas bases na lavoura tradicional e no comércio interestadual, favorecido pela proximidade com o estado da Paraíba e o entroncamento da BR-116. De forma análoga, Umari estruturou-se a partir do desbravamento de fazendas de gado por colonos no século XIX, conquistando sua autonomia política em meados do século XX. Sua trajetória econômica manteve-se historicamente restrita à pequena pecuária e à agricultura tradicional de subsistência de sequeiro (IBGE, 1959). Na contemporaneidade, tanto Ipaumirim quanto Umari apresentam estruturas produtivas de pequena escala, caracterizadas por baixa atividade industrial, forte dependência do setor terciário administrativo e alta vulnerabilidade socioeconômica face aos períodos de estiagem prolongada do semiárido (IPECE, 2021; IPECE, 2023). 3 PERCURSO METODOLÓGICO A pesquisa foi desenvolvida a partir de levantamento bibliográfico e documental, com utilização exclusiva de dados secundários, visando compreender os determinantes da formação histórico-econômica e regional dos treze municípios da Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará (integra treze municípios, conforme já citado anteriormente). Quanto à natureza, caracteriza-se como pesquisa básica, por contribuir para a ampliação do conhecimento sobre a dinâmica regional e fornecer subsídios à comunidade acadêmica, à sociedade e aos gestores públicos. Adota abordagem qualitativa, com objetivos exploratório-descritivos, buscando sistematizar e analisar as características territoriais e socioeconômicas da região, sem intervenção direta do pesquisador (Gil, 2017). O levantamento bibliográfico foi realizado por meio do Google Acadêmico, Portal de Periódicos da CAPES, livros e artigos científicos relacionados ao tema. A pesquisa documental utilizou dados e indicadores de instituições oficiais, especialmente IBGE, IPECE, INEP, MDIC, SESA e RAIS/MTE, além de informações disponibilizadas pelas administrações municipais. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 Aspectos demográficos A densidade demográfica constitui um indicador fundamental para a compreensão da organização espacial da população, pois expressa o grau de concentração populacional em relação à área territorial. Na Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará, esse indicador revela uma ocupação predominantemente dispersa. Segundo o IBGE, característica comum às regiões interioranas do Estado, marcadas pela forte presença de áreas rurais e por níveis de urbanização inferiores aos observados em regiões metropolitanas. A Tabela 1 apresenta a área territorial, a população residente recenseada e a densidade demográfica da Região Centro-Sul e de seus municípios, com base nos dados do Censo Demográfico de 2022. Tabela 1 – Área, população residente recenseada e densidade demográfica Região de Planejamento Área (Km²) População Densidade demográfica (hab./km²) Centro Sul 11.556,62 353.289 30,57 Acopiara 2.254,279 44.962 19,95 Baixio 145,556 5.704 39,16 Cariús 1.036,417 17.015 16,42 Catarina 488,153 10.243 20,98 Cedro 729,970 22.344 30,61 Icó 1.865,860 62.642 33,57 Iguatu 977,311 98.064 98,83 Ipaumirim 276,508 12.083 43,70 Jucás 940,336 23.922 25,44 Orós 577,526 19.675 34,07 Quixelô 620,242 15.910 26,28 Saboeiro 1.381,274 13.854 10,03 Umari 263,185 6.871 26,11 Fonte: IBGE, 2022. Elaboração própria. A Região Centro-Sul apresenta densidade demográfica média de 30,57 hab./km², inferior à média estadual, evidenciando baixa concentração populacional e significativa heterogeneidade territorial. Iguatu possui a maior densidade (98,83 hab./km²), seguido por Ipaumirim (43,70) e Baixio (39,16), resultado associado, sobretudo no caso de Iguatu, à sua função de polo regional e à concentração de atividades comerciais e de serviços. Nos demais casos, áreas territoriais reduzidas contribuem para densidades relativamente elevadas. Em contraste, Saboeiro (10,03 hab./km²), Cariús (16,42) e Acopiara (19,95) apresentam as menores densidades, combinando extensos territórios, menor contingente populacional e maior predominância de atividades agropecuárias. A menor oferta de serviços especializados, infraestrutura urbana e capacidade de atração de investimentos também pode contribuir para a ocupação mais rarefeita. De modo geral, os resultados evidenciam forte heterogeneidade na distribuição populacional da Região Centro-Sul, com concentração em poucos municípios e dispersão nos demais, reforçando a necessidade de políticas de planejamento regional diferenciadas e ajustadas às especificidades territoriais e socioeconômicas locais. 4.2 Aspectos sociais 4.2.1 Educação Os indicadores educacionais, como a taxa de escolarização e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), são fundamentais para avaliar o acesso e a qualidade do ensino, bem como as condições de formação do capital humano em uma região. Esses indicadores evidenciam avanços significativos no acesso à educação básica, especialmente na faixa etária de 6 a 14 anos, ao mesmo tempo em que revelam desafios persistentes relacionados ao desempenho educacional nos anos finais do ensino fundamental e, sobretudo, no ensino médio da rede pública. A Tabela 2 apresenta a taxa de escolarização da população de 6 a 14 anos de idade, referente ao ano de 2022, e os valores do IDEB dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio público, relativos a 2023, para a Região de Planejamento Centro-Sul e seus municípios. Tabela 2 – Taxa de escolarização de 6 a 14 anos de idade e IDEB: anos finais do ensino fundamental e ensino médio públicos Região de Planejamento Taxa de escolarização: 6 a 14 anos (2022) IDEB – anos finais do ensino fundamental: rede pública (2023) IDEB – ensino médio: rede pública (2023) Centro Sul 98,57 5,2 4,5 Acopiara 99,45 5,0 5,0 Baixio 98,68 4,5 4,0 Cariús 99,76 5,5 5,5 Catarina 99,52 5,1 4,2 Cedro 100 5,7 4,6 Icó 97,56 4,2 4,5 Iguatu 99,44 4,8 4,8 Ipaumirim 92,96 5,1 4,3 Jucás 97,74 5,8 4,7 Orós 99,77 5,2 4,0 Quixelô 99,79 5,9 4,4 Saboeiro 99,45 5,2 4,0 Umari 97,24 5,7 4,3 Fonte: IBGE, 2022; INEP, 2023. Elaboração própria. Os resultados educacionais indicam que a Região Centro-Sul apresenta elevada taxa de escolarização (98,57%), próxima da universalização do ensino fundamental. Cedro (100%), Quixelô (99,79%) e Orós (99,77%) destacam-se nesse indicador, refletindo a ampla cobertura da educação básica e a atuação das políticas de acesso e permanência escolar. Quanto ao IDEB dos anos finais do ensino fundamental, Quixelô (5,9), Jucás (5,8), Cedro e Umari (5,7) superam a média regional (5,2), enquanto Icó (4,2), Baixio (4,5) e Iguatu (4,8) apresentam os menores resultados. Essas diferenças podem estar relacionadas à organização das redes de ensino, ao acompanhamento pedagógico e aos investimentos na formação docente. No ensino médio, a média regional é inferior (4,5), com melhores resultados em Cariús (5,5), Acopiara (5,0) e Iguatu (4,8), e menores índices em Baixio, Orós e Saboeiro (4,0). A diferença em relação ao ensino fundamental pode refletir desafios como evasão, inserção precoce dos jovens no mercado de trabalho e dificuldades de permanência nessa etapa, conforme análises do INEP e do IPECE. Em síntese, embora a região apresente avanços significativos no acesso à educação básica, persistem desigualdades de desempenho, sobretudo no ensino médio, evidenciando a necessidade de políticas voltadas à melhoria da aprendizagem, à redução da evasão e ao fortalecimento das redes públicas municipais. 4.2.2 Saúde Os indicadores de saúde, como a disponibilidade de médicos e unidades de saúde por mil habitantes e a taxa de mortalidade infantil, são amplamente utilizados para avaliar as condições de acesso aos serviços de saúde e a efetividade das políticas públicas voltadas à atenção básica. Esses indicadores permitem identificar desigualdades intra-regionais relacionadas à oferta de serviços e aos desfechos em saúde, especialmente no que se refere à mortalidade infantil, considerada um dos principais indicadores de desenvolvimento social. A Tabela 3 apresenta a razão de médicos e unidades de saúde por mil habitantes, bem como a taxa de mortalidade infantil de menores de 1 ano de idade (por mil nascidos vivos), para a Região Centro-Sul e seus municípios, com base em dados da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESA) e do IPECEDATA, referentes a 2024. Tabela 3 – Médicos e unidades de saúdes por mil habitantes e taxa de mortalidade infantil de menores de 1 ano de idade (por mil nascidos vivos) Região de Planejamento Médicos (por mil hab.) Unidades de saúde (por mil hab.) Taxa de mortalidade infantil de menores de 1 ano de idade Centro Sul 1,87 0,92 10,5 Acopiara 1,30 0,74 19,2 Baixio 1,71 1,03 0,0 Cariús 1,33 1,27 0,0 Catarina 2,09 2,09 0,0 Cedro 2,16 1,15 4,5 Icó 1,94 0,76 11,8 Iguatu 2,15 0,68 10,8 Ipaumirim 1,13 0,72 0,0 Jucás 3,33 0,94 14,8 Orós 1,40 1,25 23,3 Quixelô 1,71 1,24 6,6 Saboeiro 0,93 1,35 6,6 Umari 0,86 1,29 0,0 Fonte: SESA; IPECEDATA, 2024. Elaboração própria. Os resultados mostram que a Região Centro-Sul apresenta, em média, 1,87 médicos e 0,92 unidades de saúde por mil habitantes, evidenciando uma cobertura moderada da rede de atenção. Jucás (3,33), Cedro (2,16) e Iguatu (2,15) apresentam as maiores concentrações de médicos, possivelmente associadas à maior centralidade urbana e à presença de serviços de maior complexidade. Quanto às unidades de saúde, destacam-se Catarina (2,09), Saboeiro (1,35) e Umari (1,29), enquanto Iguatu (0,68), Acopiara (0,74) e Ipaumirim (0,72) apresentam os menores valores. A mortalidade infantil evidencia maior heterogeneidade entre os municípios. Baixio, Cariús, Catarina, Ipaumirim e Umari registraram taxa igual a zero, resultado que deve ser interpretado com cautela em municípios com menor número de nascimentos. Em contrapartida, Orós (23,3 por mil), Acopiara (19,2) e Jucás (14,8) apresentaram as maiores taxas, superiores à média regional de 10,5 por mil. Esses resultados podem estar relacionados a diferenças nas condições socioeconômicas, no acesso aos serviços especializados e na assistência materno-infantil. De modo geral, os indicadores revelam desigualdades na oferta e nos resultados de saúde entre os municípios, apesar da presença de uma rede básica regionalizada. Esse cenário reforça a importância do fortalecimento da atenção primária, da regionalização dos serviços e de políticas públicas que considerem as especificidades territoriais e sociais da Região Centro-Sul. 4.2.3. Emprego e renda A estrutura do emprego formal constitui um indicador central para compreender o padrão de desenvolvimento econômico regional, pois evidencia o grau de diversificação produtiva, a especialização setorial e a centralidade urbana dos municípios. Na Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará, observa-se predominância do setor de serviços, característica típica de economias interioranas com concentração de atividades administrativas, educacionais, comerciais e públicas. Nesta perspectiva, a Tabela 4 apresenta o quantitativo de empregos formais por setor produtivo no ano de 2024, com base nos dados da RAIS/MTE, permitindo identificar diferenças estruturais entre os municípios da região. Tabela 4 – Quantitativo de empregos formais: por setores produtivos, no ano de 2024 Região de Planejamento Agropecuária Indústria Construção Comércio Serviços Total FR (%) Centro Sul 403 4.781 1.142 8.073 19.219 33.618 100 Acopiara 83 205 32 804 1.780 2.904 8,6 Baixio 1 0 6 3 418 428 1,3 Cariús 46 22 15 137 740 960 2,9 Catarina 0 13 0 60 420 493 1,5 Cedro 2 27 68 284 1.159 1.540 4,6 Icó 9 359 308 989 2.462 4.127 12,3 Iguatu 251 3.378 380 4.863 7.260 16.132 48 Ipaumirim 1 82 288 153 938 1.462 4,3 Jucás 0 532 20 356 580 1.488 4,4 Orós 5 15 6 177 721 924 2,7 Quixelô 3 46 11 192 648 900 2,7 Saboeiro 0 101 4 36 1.669 1.810 5,4 Umari 2 1 4 19 424 450 1,3 Fonte: RAIS/MTE, 2025. Elaboração própria. Os resultados mostram que a Região Centro-Sul possui 33.618 empregos formais, concentrados principalmente nos setores de serviços (19.219), comércio (8.073) e indústria (4.781), evidenciando a predominância do setor terciário na estrutura ocupacional regional. Entre os municípios, Iguatu destaca-se como principal polo urbano e econômico, concentrando 16.132 empregos formais, equivalentes a 48% do total regional. Sua estrutura ocupacional é diversificada, com destaque para serviços (7.260), comércio (4.863) e indústria (3.378), reforçando sua função de centralidade regional. Na sequência, Icó apresenta 4.127 empregos (12,3%), com predominância dos serviços, comércio e indústria, enquanto Acopiara registra 2.904 postos (8,6%), concentrados principalmente nos serviços e comércio. Em contraste, Baixio, Umari e Catarina apresentam os menores volumes de emprego formal, com forte concentração nos serviços e reduzida participação industrial e comercial. Esse padrão revela menor diversificação produtiva e maior dependência de atividades locais e do setor público. A agropecuária possui baixa participação no emprego formal regional, com apenas 403 postos, mesmo em municípios de características rurais. Essa situação sugere que parcela significativa das atividades agrícolas ocorre por meio de formas informais ou da agricultura familiar, não sendo plenamente captada pelas estatísticas de emprego formal. De modo geral, os dados evidenciam forte concentração espacial e setorial do emprego formal, distinguindo municípios com maior centralidade e diversificação, especialmente Iguatu e Icó, daqueles com estruturas produtivas mais restritas. Esse cenário reforça a existência de desigualdades intra-regionais e a necessidade de políticas voltadas à diversificação econômica, ao fortalecimento das atividades locais e à ampliação da formalização do trabalho nos municípios de menor dinamismo. 4.3 Aspectos econômicos O Produto Interno Bruto (PIB) e o PIB per capita constituem indicadores centrais para a análise do desempenho econômico regional, pois permitem avaliar tanto a capacidade produtiva total quanto o nível médio de geração de riqueza por habitante. Esses indicadores evidenciam forte concentração econômica em poucos municípios, refletindo desigualdades estruturais no desenvolvimento intra-regional. Não obstante, a Tabela 5 apresenta o PIB a preços correntes (em mil reais), o PIB per capita e a participação percentual de cada município no total regional. Tabela 5 – PIB a preços correntes e PIB per capita Região de Planejamento PIB a preços correntes (x1000) R$ PIB per capita R$ Participação PIB região/PIB total (%) Centro Sul 4.909.081,23 12.544,89 100 Acopiara 564.519,85 10.322,74 11,50 Baixio 67.540, 64 10.690,19 1,38 Cariús 180.984,36 9.678,31 3,69 Catarina 154.108,26 7.724,19 3,14 Cedro 247.324,61 9.656,59 5,04 Icó 737.488,91 10.797,31 15,02 Iguatu 1.904.814,79 18.380,39 38,80 Ipaumirim 143.450,64 11.469,63 2,92 Jucás 319.373,49 12.801,05 6,51 Orós 218.899,30 10.256,74 4,46 Quixelô 198.819,98 12.336,81 4,05 Saboeiro 169.856,39 10.779,74 3,46 Umari 69.440,65 8.971,66 1,41 Fonte: Produto Interno Bruto dos municípios/IBGE; IPECEDATA, 2021. Elaboração própria. Os resultados indicam que a Região Centro-Sul apresentou PIB total de aproximadamente R$ 4,9 bilhões e PIB per capita médio de R$ 12.544,89. Observa-se forte concentração da produção em Iguatu, responsável por 38,80% do PIB regional, com aproximadamente R$ 1,9 bilhão e o maior PIB per capita da região (R$ 18.380,39). Esse desempenho reforça sua posição como principal polo econômico regional, associada à maior diversificação produtiva e à centralidade nos setores de comércio, serviços e indústria. Na sequência, destacam-se Icó, com 15,02% do PIB regional, e Acopiara, com 11,50%. Apesar da participação expressiva na produção total, ambos apresentam PIB per capita inferior à média regional, indicando menor geração de riqueza por habitante. Jucás (R$ 12.801,05) e Quixelô (R$ 12.336,81), por outro lado, apresentam PIB per capita acima da média regional, enquanto Catarina (R$ 7.724,19), Umari (R$ 8.971,66) e Cariús (R$ 9.678,31) registram os menores valores. A distribuição do PIB evidencia, portanto, uma estrutura econômica espacialmente concentrada, com Iguatu como principal núcleo dinâmico e Icó e Acopiara em posição intermediária. Os demais municípios apresentam menor participação na produção regional e, em geral, estruturas produtivas menos diversificadas e maior dependência de atividades primárias e do setor público. Esse cenário revela assimetrias no desenvolvimento regional e reforça a importância de políticas voltadas à diversificação produtiva e ao fortalecimento das economias locais. Em relação ao comércio exterior, os dados da Tabela 6 complementam essa análise ao evidenciar a inserção internacional e as especializações produtivas dos municípios. Embora os valores sejam reduzidos em comparação com regiões mais industrializadas, a presença de atividades exportadoras revela conexões com mercados externos e cadeias produtivas específicas, contribuindo para compreender as diferentes formas de inserção econômica dos municípios da Região Centro-Sul. Tabela 6 – Exportações e importações Região de Planejamento Exportações (US$ milhões FOB) Importações (US$ mil FOB) Centro Sul 7,1 421,9 Acopiara Baixio Cariús Catarina Cedro Icó Iguatu 1,2 345,2 Ipaumirim Jucás 5,9 76,7 Orós Quixelô Saboeiro Umari Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), 2024. Elaboração própria. Dessa forma, observa-se que o comércio exterior da Região Centro-Sul está fortemente concentrado em Iguatu e Jucás, reforçando a centralização econômica identificada nas análises de PIB e emprego formal. Iguatu apresenta US$ 1,2 milhão em exportações e concentra a maior parte das importações regionais, com US$ 345,2 mil, evidenciando maior articulação com o mercado internacional (MDIC, 2024). Suas exportações destinam-se principalmente a países da América Latina, tendo como principal produto os calçados com sola e parte superior de borracha, plástico ou couro natural, o que evidencia a especialização e a inserção da indústria calçadista em mercados externos (MDIC, 2024). No fluxo de importações, Iguatu mantém relações principalmente com China, Turquia, Indonésia e Polônia, adquirindo partes de calçados, insumos industriais, tintas, máquinas e equipamentos. Esse perfil revela uma estrutura produtiva mais diversificada e integrada a cadeias de fornecimento internacionais, especialmente por meio da indústria calçadista (MDIC, 2024). Jucás, por sua vez, destaca-se como o maior exportador da região, com US$ 5,9 milhões em vendas externas, superando Iguatu. Suas exportações são direcionadas principalmente a países europeus, com predominância de carbonato de magnésio natural e derivados, cimentos, argamassas e outros produtos minerais, indicando especialização na atividade mineral e na transformação de recursos naturais (MDIC, 2024). As importações, provenientes sobretudo de países europeus, concentram-se em máquinas, equipamentos e insumos destinados ao beneficiamento mineral, evidenciando a integração entre a atividade extrativa e o uso de tecnologias e bens de capital externos (MDIC, 2024). Em síntese, embora a participação da Região Centro-Sul no comércio exterior estadual seja limitada, Iguatu e Jucás constituem importantes núcleos de inserção internacional, sustentados por especializações produtivas distintas: a indústria calçadista em Iguatu e a atividade mineral em Jucás. Essa concentração evidencia a existência de polos produtivos capazes de gerar renda e dinamizar a economia regional, mas também aponta para a necessidade de ampliar a diversificação produtiva e a competitividade dos demais municípios. 5 CONCLUSÕES A análise da formação econômica dos municípios da Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará evidencia que sua configuração socioeconômica resulta de um processo histórico marcado, inicialmente, pela pecuária e pela agricultura de subsistência e, posteriormente, pela cotonicultura e pela implantação de infraestruturas ferroviárias e hídricas. Esses elementos contribuíram para estruturar as atividades produtivas, a ocupação territorial e as atuais relações econômicas entre os municípios. Os resultados também revelam significativa heterogeneidade intra-regional. Iguatu e Icó consolidaram-se como principais polos urbanos e econômicos, concentrando maior participação no PIB, empregos formais, comércio, serviços e atividades industriais. Nos municípios de menor porte, predominam estruturas produtivas menos diversificadas, maior dependência do setor público e atividades agropecuárias com elevada informalidade, evidenciando limitações à geração endógena de emprego e renda. No campo social, apesar dos avanços no acesso à educação básica, persistem desafios relacionados ao desempenho escolar, especialmente no ensino médio, enquanto as diferenças nos indicadores de saúde revelam desigualdades na oferta e na resolutividade dos serviços. Em conjunto com a elevada participação do setor terciário e a reduzida formalização das atividades primárias, esses aspectos reforçam a existência de disparidades territoriais que limitam um desenvolvimento regional mais equilibrado. Diante desse cenário, a Região Centro-Sul apresenta um padrão de desenvolvimento espacial e setorialmente concentrado, demandando políticas voltadas à diversificação produtiva, ao fortalecimento das atividades locais, à formalização do trabalho e à redução das desigualdades sociais. Nesse contexto, a regionalização institucionalizada pelo IPECE constitui importante instrumento para orientar o planejamento e a alocação de investimentos públicos segundo as especificidades de cada território. Por fim, o estudo contribui para o debate sobre a economia regional cearense ao articular a formação histórica dos municípios às suas condições socioeconômicas atuais. Os resultados reforçam a necessidade de estratégias territorialmente diferenciadas, capazes de promover maior integração regional e um desenvolvimento mais equilibrado, inclusivo e sustentável. AGRADECIMENTOS Este trabalho foi realizado com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio da concessão de bolsa de Iniciação Científica Júnior (Ensino Médio), e da Universidade Regional do Cariri (URCA), cujo suporte institucional e de infraestrutura foi fundamental para o desenvolvimento desta pesquisa. REFERÊNCIAS AMARAL FILHO, J. do. A endogeneização no desenvolvimento econômico regional e local. Planejamento e Políticas Públicas, n. 23, 2001. BAIXIO. Prefeitura Municipal. Histórico do Município de Baixio. Baixio, 2024. Disponível em: https://www.baixio.ce.gov.br. Acesso em: 23 out. 2025. CABUGUEIRA, A. C. C. M. Do desenvolvimento regional ao desenvolvimento local: análise de alguns aspectos de política económica regional. Gestão e Desenvolvimento, n. 9, p. 103–136, 2000. CARIÚS. Prefeitura Municipal. Histórico do Município de Cariús. 2024. Disponível em: https://www.carius.ce.gov.br. Acesso em: 23 out. 2025. CATARINA. 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CÂNCER DE MAMA NOS MUNICÍPIOS CEARENSES: EVOLUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO TERRITORIAL E ASSOCIAÇÃO COM INDICADORES SOCIOECONÔMICOS E DE ACESSO À SAÚDE (2016-2024)
LUAN MATEUS OLIVEIRA DE SOUZA; Felipe de Oliveira Silva; Carlos Gabriel de Sousa Gomes; Fládia Valéria Dantas dos Santos
CÂNCER DE MAMA NOS MUNICÍPIOS CEARENSES: EVOLUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO TERRITORIAL E ASSOCIAÇÃO COM INDICADORES SOCIOECONÔMICOS E DE ACESSO À SAÚDE (2016-2024) Área Temática: Área 5 - Trabalho, Sociedade, Demografia e Políticas Públicas. Resumo: O câncer de mama configura-se como a principal causa de morte por câncer entre mulheres no mundo e no Brasil, sendo fortemente influenciado por determinantes sociais, condições socioeconômicas e desigualdades territoriais no acesso aos serviços de saúde. Diante disso, o objetivo deste estudo foi analisar os casos de câncer de mama nos municípios do Ceará a partir de sua evolução, distribuição territorial e associação com indicadores socioeconômicos e de acesso à saúde, no período de 2016 a 2024. Para tanto, realizou-se um estudo quantitativo, descritivo e exploratório, com dados secundários do Painel de Oncologia, do TABNET e do SIDRA/IBGE, combinando análise descritiva, representação cartográfica e correlação de Spearman entre a taxa de incidência e o PIB per capita, a cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) e a taxa de mamografias. Os resultados evidenciaram crescimento expressivo dos casos registrados de câncer de mama no Ceará entre 2016 e 2024, acompanhado de heterogeneidade territorial significativa entre os municípios. A taxa de incidência registrada apresentou correlação positiva e estatisticamente significativa com a taxa de mamografias e com o PIB per capita, enquanto a cobertura da ESF não apresentou associação significativa. Conclui-se que os padrões municipais observados devem ser interpretados não apenas como diferenças no adoecimento, mas também à luz das desigualdades territoriais na capacidade de detecção e no acesso aos serviços de saúde, contribuindo para o debate sobre a necessidade de políticas públicas voltadas à redução dessas disparidades no enfrentamento do câncer de mama no estado. Palavras – Chave: Câncer de Mama, Determinantes Sociais da Saúde, Desigualdades Territoriais, Acesso à Saúde, Ceará. 1. INTRODUÇÃO O câncer constitui um dos principais problemas de saúde pública no mundo e é uma das maiores causas de morte. Conforme o INCA (2026), no Brasil, esta patologia ocupa a segunda posição entre os óbitos na população feminina e a terceira na masculina. Segundo Alves, Magalhães e Coelho (2017), embora a neoplasia maligna seja uma condição descrita como biológica, o tema tem adquirido proeminência nos debates da saúde pública mundial devido ao seu caráter epidêmico. Conforme os mesmos autores, projetam-se para 2030 cerca de 21,4 milhões de novos casos e 13,2 milhões de mortes, cenário associado, principalmente, ao crescimento e ao envelhecimento populacional. Em relação ao câncer de mama, de acordo com Rocha-Brischiliari et al. (2018), este permanece como a principal causa de morte entre mulheres no mundo e, especificamente, na América Latina. Segundo os autores, a taxa de sobrevida gira em torno de 70% e é impactada por limitações no acesso ao diagnóstico e tratamento, especialmente em países em desenvolvimento, onde apenas 20% a 50% dos casos são diagnosticados precocemente, em oposição aos 70% nos países de alta renda. No Brasil, o câncer integra o grupo das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). Entre as neoplasias que acometem a população feminina, o câncer de mama destaca-se como o mais incidente na maioria das regiões brasileiras. No Ceará, o câncer de mama também se destaca entre as principais neoplasias femininas (Ceará, 2023). Dessa forma, para se compreender o panorama da patologia, faz-se necessário considerar os determinantes sociais da saúde, os quais compreendem fatores não biológicos que influenciam o risco de adoecimento e os resultados em saúde, abrangendo dimensões como estabilidade econômica, acesso a serviços de saúde (Alves; Mendonça, 2021) e políticas públicas. Assim, condições socioeconômicas e determinantes sociais da saúde influenciam diretamente o risco de adoecimento e morte por câncer de mama, visto que indivíduos em posições de maior vulnerabilidade (com menor acesso a emprego, educação, saúde proteção social e moradia) apresentam piores indicadores de saúde, uma vez que condições de vulnerabilidade socioeconômica elevam a exposição a riscos, ao diagnóstico precoce, tratamento e sobrevida, agravando as disparidades nos índices da doença (Alves; Magalhães; Coelho, 2017; Costa; Ramos; Sousa, 2024; INCA, 2026). No mais, observa-se que o diagnóstico e início do tratamento precoces correspondem a um fator fundamental para se ampliar a probabilidade de cura, já que muitos tipos de patologia (inclusive o câncer de mama) apresentam melhor prognóstico quando identificados precocemente. Todavia, tais barreiras socioeconômicas influenciam diretamente o acesso à prevenção e relacionando com o pouco conhecimento sobre a doença faz com que indivíduos em maior vulnerabilidade procurem atendimento apenas em estágios avançados, muitas vezes recebendo cuidados inadequados e enfrentando limitações de recursos médico-hospitalares que dificultam o diagnóstico e tratamentos oportunos, o que contribui para o agravamento dos casos e para o aumento do risco de desfechos desfavoráveis em populações socialmente vulneráveis (INCA, 2026; Alves; Magalhães; Coelho, 2017). Tais disparidades são agravadas ainda pela questão territorial, uma vez que se observa uma distribuição desigual de recursos médico-hospitalares e mamógrafos, concentrando populações de baixa renda em áreas com menor oferta de serviços (Rocha Brischiliari et al., 2018). No Ceará, articulam-se os serviços de atenção especializada e de atenção básica, tendo as 22 Policlínicas Regionais como ponto estratégico da rede (embora Fortaleza não contenha unidades regionais, contando apenas com policlínicas municipais). Apesar dessa estrutura, conforme as diretrizes do Plano Estadual de Atenção Oncológica do Ceará de 2023, observa-se uma insuficiência de infraestrutura e de serviços especializados, configurando-se como um entrave ao cuidado oncológico no estado (Ceará, 2023). Diante disso, Alves, Magalhães e Coelho (2017) ressaltam que a limitação na oferta de serviços oncológicos contribui para a sobrecarga das unidades de saúde e aumenta o tempo de espera para exames, consultas e procedimentos, dificultando o acesso da população e o processo curativo. Logo, diante da heterogeneidade das condições socioeconômicas e de acesso aos serviços de saúde no estado do Ceará, a problemática deste estudo parte das diferenças observadas entre os municípios cearenses quanto à ocorrência registrada do câncer de mama. Embora o desenvolvimento da doença envolve fatores biológicos e individuais, sua detecção, diagnóstico e registro podem ser influenciados pelas condições socioeconômicas, territoriais e pela disponibilidade e acesso aos serviços de saúde. Assim, a investigação justifica-se pela relevância epidemiológica do câncer de mama e pela necessidade de compreender as desigualdades existentes em sua manifestação e detecção no território cearense. Diante disso, o objetivo deste estudo é analisar os casos de câncer de mama a partir da sua evolução, distribuição territorial e associação com indicadores socioeconômicos e de acesso à saúde, no período de 2016 a 2024. Para atender ao objetivo proposto, realizou se um estudo quantitativo, descritivo e exploratório, com dados secundários do Painel de Oncologia, do DATASUS, referentes aos municípios cearenses. Tendo em vista isso, foram analisadas a evolução e a distribuição espacial dos casos registrados de câncer de mama, bem como as associações entre a taxa de incidência e indicadores socioeconômicos e de atenção à saúde. A estratégia empírica combinou análise descritiva, representação cartográfica e análise de correlação. Os principais resultados evidenciam crescimento dos casos registrados de câncer de mama no Ceará entre 2016 e 2024 e expressiva heterogeneidade na distribuição municipal. A análise de associação indica correlação positiva e estatisticamente significativa da taxa de incidência registrada com a taxa de mamografias e com o PIB per capita, enquanto a cobertura da ESF não apresentou associação estatisticamente significativa. Os achados sugerem que os padrões municipais observados devem ser interpretados não apenas como diferenças no adoecimento, mas também à luz das desigualdades territoriais na capacidade de detecção e no acesso aos serviços de saúde. Além desta introdução, o artigo está organizado em mais quatro seções. A segunda apresenta o referencial teórico, discutindo vulnerabilidade, determinantes sociais da saúde e desigualdades territoriais. A terceira descreve os procedimentos metodológicos empregados. A quarta apresenta e discute os resultados da análise temporal, espacial e das associações entre o câncer de mama e os indicadores selecionados. Por fim, a quinta seção reúne as considerações finais do estudo. 2. REFERENCIAL TEÓRICO Na saúde coletiva, o conceito de vulnerabilidade transcende a noção tradicional de risco, incorporando dimensões mais amplas que condicionam a proteção e o enfrentamento dos problemas de saúde. Enquanto o risco indica probabilidades, a vulnerabilidade é um indicador da iniquidade e da desigualdade social, antecedendo o risco e determinando as diferentes chances de indivíduos e grupos de se infectar, adoecer e morrer (Sánchez; Bertolozzi, 2007). Logo, a vulnerabilidade é o resultado de um conjunto de aspectos individuais, sociais e programáticos que determinam a maior ou menor suscetibilidade de indivíduos e coletividades a um agravo e, de modo inseparável, a maior ou menor disponibilidade de recursos para se protegerem desse agravo (Ayres et al., 2003). Sendo assim, trata-se de um conceito multidimensional composto por três aspectos interligadas, são elas: a dimensão individual, que diz respeito ao conhecimento e à capacidade dos sujeitos de reconhecer riscos e adotar medidas de proteção; a dimensão social, a qual abrange as condições econômicas, culturais e políticas, como renda, escolaridade, gênero e raça, que ampliam ou reduzem a exposição aos agravos; e, por fim, a dimensão programática, que refere-se à capacidade das políticas públicas e dos serviços de saúde em oferecer atendimento adequado e acessível. Assim, essas três dimensões se articulam mutuamente, produzindo diferentes níveis de exposição e acesso ao cuidado em saúde (Ayres et al., 2003). Dessa forma, é possível observar que a compreensão da vulnerabilidade em saúde está diretamente relacionada aos Determinantes Sociais da Saúde (DSS), entendidos como os fatores sociais, econômicos, culturais e comportamentais que influenciam as condições de saúde da população, além das condições sociais em que as pessoas vivem e trabalham (Buss; Pellegrini Filho, 2007). Diante disso, fica evidente que a saúde não depende apenas de fatores biológicos ou escolhas individuais, mas também das estruturas sociais e econômicas que moldam a vida em sociedade (Buss; Pellegrini Filho, 2007). Nesse contexto, a distribuição desigual de renda, educação, moradia, saneamento básico, acesso a alimentos saudáveis, condições de trabalho e serviços de saúde cria um gradiente social na saúde, onde os grupos mais desfavorecidos social e economicamente tendem a apresentar piores indicadores de saúde (Barata, 2009; Buss; Pellegrini Filho, 2007). Diante dessa questão, a teoria estruturalista atribui à condição econômica um papel central na determinação da saúde, onde a insuficiência de recursos materiais pode levar ao aumento da vulnerabilidade às doenças. Contudo, essa perspectiva apresenta limitações ao não explicar por que países mais ricos nem sempre possuem melhores indicadores de saúde, especialmente quando as necessidades básicas da população já estão atendidas (Barata, 2009). Essas limitações podem comprometer o acesso a exames, tratamentos e orientações médicas, e contribuem para a perpetuação das desigualdades em saúde dentro do território, o que deixa claro como as desigualdades sociais influenciam diretamente as condições de saúde da população (Travassos; Castro, 2008). No Brasil, o acesso aos serviços de saúde é fortemente influenciado pela condição social das pessoas e pelo local onde residem, padrão que se mantém tanto para adultos quanto para crianças (Travassos; Oliveira; Viacava, 2006). Assim, indivíduos pobres, negros, mulheres e moradores de áreas rurais ou periferias urbanas concentram historicamente os piores indicadores de saúde do país. Logo, ser homem ou mulher, jovem ou idoso, pobre ou rico tem diferentes significados e diferentes consequências para a saúde em diferentes contextos históricos e sociais, e é justamente nos grupos que acumulam mais de uma dessas desvantagens que as iniquidades se manifestam com maior intensidade (Barata, 2009). A dimensão espacial também entra nesse debate como um fator de grande relevância para entender a manifestação das desigualdades em saúde. O território, longe de ser um mero palco para a ocorrência dos fenômenos sociais, é um elemento ativo na produção e reprodução das iniquidades (Santos, 1996). Para Santos (1996, p. 63), o espaço é um “conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá”. Nesse sentido, as condições de saúde de uma população não podem ser compreendidas de forma dissociada do território em que ela vive, uma vez que ele é agente modificador de características (Santos, 1996). Ainda sobre a ideia anterior, Santos (2000) afirma que a globalização produz um espaço fragmentado e articulado, onde as desigualdades regionais não são apenas mantidas, mas aprofundadas pela lógica do mercado global. Como o crescimento regional é diferente entre as localidades, concentrando-se em polos específicos (Perroux, 1967 apud Monasterio; Cavalcante, 2011) e gerando efeitos regressivos sobre as áreas periféricas, através do efeito circular acumulativo do crescimento (Myrdal, 1957 apud Monasterio; Cavalcante, 2011), essa fragmentação se manifesta na vulnerabilidade municipal, resultado da concentração, onde municípios com menor capacidade econômica e política enfrentam maiores desafios na provisão de serviços essenciais, incluindo a saúde (Pinafo et al., 2020). O pensamento de Carlos (2001) aprofunda a discussão sobre a dimensão espacial das desigualdades ao abordar a segregação socioespacial. Ela destaca que a segregação socioespacial se revela como a expressão geográfica da injustiça social, onde a separação física entre classes no tecido urbano reflete e reforça a privação de direitos e o acesso desigual aos serviços públicos (Carlos, 2001). Com base nisso, os recursos públicos foram canalizados prioritariamente em direção ao desenvolvimento da "cidade rica", evidenciando um contraditório processo de desenvolvimento de uma metrópole na periferia do capitalismo que levou os moradores das periferias à exclusão histórica dos direitos sociais básicos ao trabalho, à saúde e à educação, assim como ao direito à moradia digna, equipamentos públicos e infraestrutura urbana, o que causou um déficit de cidadania (Maricato, 2003). À luz dessas abordagens, compreende-se que as desigualdades em saúde resultam da interação entre condições individuais, socioeconômicas, institucionais e territoriais. No caso do câncer de mama, essa perspectiva implica reconhecer que os padrões espaciais observados não refletem exclusivamente diferenças no risco de adoecimento, mas podem expressar também desigualdades na disponibilidade de recursos, no acesso aos serviços e na capacidade de diagnóstico entre os territórios. 3. MÉTODO O objetivo deste estudo é analisar os casos de câncer de mama no Estado do Ceará a partir da sua evolução, distribuição territorial e associação com indicadores socioeconômicos e de acesso à saúde, no período de 2016 a 2024. Trata-se de um estudo quantitativo, de caráter descritivo e exploratório, realizado a partir de dados secundários referentes aos municípios do estado do Ceará. De acordo com Gil (2002), os estudos de natureza quantitativa tratam-se daqueles que, após o tratamento estatístico dos dados, têm-se, geralmente, os resultados plotados em tabelas, gráficos, elaboradas manualmente ou com o auxílio de computadores. Já a análise descritiva refere-se aquelas cujo objetivo primordial é a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou, então, o estabelecimento de relações entre variáveis. Por fim, a pesquisa exploratória, que têm como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. Seu planejamento é, portanto, bastante flexível, de modo que possibilite a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado (Gil, 2002). A área geográfica (Ceará e municípios do estado) se justifica pela sua heterogeneidade socioeconômica, espacial e de acesso à saúde (Alves; Magalhães; Coelho, 2017). Quanto ao recorte temporal, definiu-se o período de 2016 a 2024, considerando a disponibilidade e a consistência dos registros no Painel-Oncologia. O ano de 2016 foi adotado como marco inicial por apresentar maior consolidação do número de casos registrados na base, quando comparado aos anos anteriores, evitando-se períodos com reduzido volume de registros, que poderiam comprometer a comparabilidade temporal. O ano de 2024, por sua vez, corresponde ao período mais recente com dados disponíveis para as variáveis consideradas no estudo. Para a caracterização da evolução da doença no estado, foram considerados o número de casos registrados de câncer de mama e, também, da taxa de incidência expressas por 100 mil mulheres. A análise temporal dessas variáveis contemplou os anos de 2016, 2020 e 2024, o que possibilitou comparar o comportamento do indicador no início, no período intermediário e ao final do intervalo analisado. Em seguida, realizou-se a análise espacial das taxas municipais, com o intuito de identificar a distribuição territorial dos casos e as diferenças existentes entre os municípios cearenses. Para possibilitar a comparação entre localidades com diferentes tamanhos populacionais, também, utilizou-se a taxa de casos por 100 mil mulheres. O período analisado, também, foram os anos de 2016, 2020 e 2024. Por fim, para investigar a associação entre a ocorrência registrada do câncer de mama e as características socioeconômicas e de atenção à saúde dos municípios, foram considerados três indicadores: PIB per capita, cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) e taxa de mamografias. Para tanto, foram construídas as médias dessas variáveis para o período de 2016 a 2024, com exceção do PIB per capita que se insere no intervalo de 2016 a 2023 devido à disponibilidade dos dados. A escolha dessas variáveis buscou representar, respectivamente, a dimensão econômica municipal, a cobertura da atenção primária e o acesso a um dos principais instrumentos utilizados na detecção do câncer de mama. Quadro 1: Informações das variáveis utilizadas Descrição Fórmula Análise Casos registrados Número de casos Fonte Referências Gráfico Taxa de Incidência TxCE,t= Total de casos confirmados no Ceará no ano t População feminina do Ceará no ano t x 100000 Painel de Oncologia (DATASUS) Painel de Oncologia (DATASUS) Gráfico/Mapa Taxa de cobertura da ESF ESFC = nº de ESF x 3450 População total do município x 100 Painel de Oncologia (DATASUS) Salimena; Paiva; Torres (2026) Correlação PIB per capita � �
COMUNICAÇÃO, LITERACIA EM SAÚDE E ENFRENTAMENTO DA DESINFORMAÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: DIAGNÓSTICO SITUACIONAL PARA A IMPLANTAÇÃO DE UM PODCAST INSTITUCIONAL EM IGUATU (CE)
LUIZ HENRIQUE DE SOUSA LÉO ; João Paulo Xavier Silva; Cristiane Alves de Araújo; Gabryela Cavalcante dos Santos; Marcus Vinicius Alves de Souza
COMUNICAÇÃO, LITERACIA EM SAÚDE E ENFRENTAMENTO DA DESINFORMAÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: DIAGNÓSTICO SITUACIONAL PARA A IMPLANTAÇÃO DE UM PODCAST INSTITUCIONAL EM IGUATU (CE) Área Temática: Área 6 – Multidisciplinar Resumo: A disseminação de notícias falsas, popularmente conhecidas como fake news, consolidou-se como um desafio crescente em diversos setores da sociedade, incluindo a saúde pública. Diante disso, objetivo geral do presente trabalho é caracterizar, segundo a percepção dos profissionais da rede, as demandas informacionais dos usuários, as práticas de comunicação em saúde e a exposição à desinformação na APS de Iguatu (CE), bem como avaliar a receptividade desses profissionais a um podcast institucional. Metodologicamente, trata-se de um estudo descritivo de abordagem quanti-qualitativa, na modalidade de diagnóstico situacional, o qual foi aplicado durante o mês de maio/2026. Os principais resultados mostraram que: a demanda cotidiana dos usuários é dominada por questões de acesso e fluxo (74,4%), sinal de que a comunicação institucional sobre o funcionamento da rede permanece frágil; e, a desinformação apresenta impacto clínico relatado por 86% dos profissionais, com a vacinação como principal tema das fake news observadas (53,5%). Porém, o estudo identifica condições favoráveis: corpo profissional experiente, com leitura crítica sobre suas próprias dificuldades de comunicação, com resposta positiva ao podcast em 55,8% dos casos e potencial receptividade em outros 30,2%, e disposto a participar dele (53,5%). Assim, o trabalho oferece à gestão municipal um instrumento de decisão baseado em dados primários e, ao campo, um protocolo replicável de diagnóstico comunicacional para municípios do interior. Palavras-chave: Literacia em saúde; Desinformação; Atenção Primária à Saúde; Comunicação pública; Podcast. INTRODUÇÃO A disseminação de notícias falsas, popularmente conhecidas como fake news, consolidou-se como um desafio crescente em diversos setores da sociedade, incluindo a saúde pública (Oliveira et al., 2025). Um exemplo claro foi durante a pandemia do Covid-19, quando o fenômeno das fake news se manifestou de forma particularmente intensa, com a circulação massiva de conteúdos enganosos acerca das vacinas, da origem do vírus SARS-CoV-2 e da eficácia de medidas sanitárias, o que contribuiu para a hesitação vacinal e para o enfraquecimento da confiança nas instituições científicas e governamentais (Galhardi et al., 2022). Contudo, a questão não se restringe à produção de notícias falsas isoladas. Conforme argumenta Araújo (2021), tais fenômenos estão inseridos em novos regimes de informação, nos quais envolvem a centralidade das redes sociais, aplicativos de mensagens instantâneas e algoritmos de recomendação, que operam segundo critérios de visibilidade e engajamento, frequentemente favorecendo conteúdos sensacionalistas ou emocionalmente mobilizadores. Nesse cenário, mentiras deliberadas, negacionismo científico, discursos de ódio e teorias conspiratórias passam a disputar legitimidade com conteúdo baseados em evidências, o que afeta não apenas as decisões individuais em saúde, mas também a coesão social e a confiança democrática (Araújo, 2021). Assim, associado a esse contexto, emerge o fenômeno da infodemia, entendido como o excesso de informações, verdadeiras e falsas, que dificulta a identificação, por parte da população, de fontes confiáveis e compromete a tomada de decisões informadas, especialmente em situações de crise sanitária. A infodemia não apenas amplia a circulação de conteúdos enganosos, mas também gera sobrecarga cognitiva, ansiedade e desorientação social, tornando a população mais vulnerável a estratégias de desinformação (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE , 2020). Porém, segundo Araujo et al. (2023), o próprio aumento no consumo de informações pode ser uma importante estratégia para auxiliar na divulgação da ciência. Nesse sentindo, o autor cita a ferramenta de podcast como um instrumento de informações acessível e democrático, configurando-se como estratégia ímpar da divulgação científica na referida área. A saber, o podcast, em termos estruturais e funcionais, apresenta características semelhantes às de um blog, especialmente no que se refere à organização e disponibilização de conteúdos na Internet. Trata-se de uma ferramenta que permite a integração de diferentes formatos, como textos, imagens, áudio, vídeo e hipertexto, além de possibilitar atualização contínua sem a necessidade de conhecimentos técnicos avançados. Disponibilizado por meio de diversos servidores gratuitos, o podcast organiza-se em publicações que podem ser produzidas individual ou coletivamente, permitindo acesso livre ou mediante registro. Ademais, possibilita o consumo por streaming, tanto com escuta direta na Internet, quanto por download para dispositivos de reprodução digital de áudio (Bottentuit Junior e Coutinho, 2007). Para Amador et al., (2023), fica evidente que essa mídia, podcasts, quanto ferramenta educacional em saúde, não apenas transcende limitações de espaço e tempo, mas também se revela como uma intervenção inovadora, de custo acessível e fácil implementação. Quando estruturado de maneira adequada, ela tem impacto social, o que simplifica o processo educativo e a disseminação de informações sobre saúde. Nesse cenário, cabe destacar o importante papel da universidade na divulgação científica e em viabilizar a popularização do conhecimento produzido tanto na comunidade científica quanto pela sociedade como um todo (profissionais da saúde, gestores públicos e população), promovendo o acesso à informação. De acordo com Moser (2022), a comunicação no âmbito das universidades públicas se faz necessário, dado o seu caráter de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, por sua natureza de englobar públicos diversos, relacionar-se com numerosos outros públicos de interesse e causar impacto direto na sociedade, entre outros motivos, tem a comunicação como elemento fundamental de sua estrutura. O presente trabalho parte de uma resposta concreta a esse cenário: o projeto PetCast/Pet Saúde Digital, voltado à produção de um podcast institucional em saúde como ferramenta de educação popular e de enfrentamento da desinformação em Iguatu, no interior do Ceará. Antes de definir a linha editorial e estratégia de distribuição, optou-se por um diagnóstico situacional junto aos profissionais da rede, para ancorar as decisões de comunicação em evidência local. Por fim, a escolha do podcast constitui premissa de desenho do projeto, e não achado da literatura: parte-se da hipótese de que um formato sonoro, por prescindir da leitura, alcance melhor o nível funcional da literacia, hipótese que o próprio diagnóstico deve testar. A literatura de políticas públicas destaca que a formulação é seguida por implementação e avaliação, etapas decisivas para a materialização das iniciativas (SOUZA, 2006), razão para tratar o podcast como componente potencial de uma política municipal de comunicação em saúde, e não como produto isolado. Diante disso, objetivo geral do presente trabalho é caracterizar, segundo a percepção dos profissionais da rede, as demandas informacionais dos usuários, as práticas de comunicação em saúde e a exposição à desinformação na APS de Iguatu (CE), bem como avaliar a receptividade desses profissionais a um podcast institucional. Especificamente, busca-se identificar os temas mais demandados e mais vulneráveis à desinformação, mapear as barreiras de comunicação percebidas, dimensionar o impacto relatado das informações falsas sobre decisões de saúde e levantar as limitações institucionais à comunicação em saúde no município. Para atender a esse objetivo, a metodologia proposta consiste em um estudo descritivo de abordagem quanti-qualitativa, na modalidade de diagnóstico situacional, o qual foi aplicado durante o mês de maio/2026. Dessa forma, o trabalho justifica-se pela relevância social e pelo papel da universidade pública no enfrentamento de vulnerabilidades informacionais que impactam decisões individuais e coletivas. A proposta promove interação dialógica com a comunidade, ao incorporar demandas e perguntas de interesse dos usuários e profissionais do sistema público de saúde na construção dos episódios; articula saberes interdisciplinares das áreas da saúde, economia, comunicação e tecnologia; materializa a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão ao transformar evidências científicas em linguagem acessível; fortalece a formação discente em responsabilidade social e comunicação científica; e busca impacto e transformação social ao ampliar o acesso qualificado à informação e promover a literacia em saúde no território. Além da presente introdução, o trabalho encontra-se estruturado da seguinte forma: a seguir é apresentado a seção do referencial teórico do estudo; posteriormente, os procedimentos metodológicos; depois a seção de resultados e discussões; e, por fim, a conclusão do trabalho. REFERENCIAL TEÓRICO A circulação massiva de informações falsas sobre saúde deixou de ser problema restrito ao debate midiático e passou a produzir efeitos mensuráveis sobre a decisão clínica, a adesão terapêutica e a cobertura vacinal. Em emergências sanitárias, a Organização Mundial da Saúde nomeia esse excesso de informação, parte dela imprecisa ou deliberadamente falsa, como infodemia (WORLD HEALTH ORGANIZATION, [s.d.]); fora desses contextos, a categoria mais ampla é a desinformação em saúde. Nos serviços públicos de saúde, esse excesso de informações falsas encontra um segundo problema estrutural: a baixa literacia em saúde de parcelas expressivas da população (SORENSEN et al., 2012). A literacia em saúde é a capacidade de acessar, compreender, avaliar e aplicar informação para decidir sobre o próprio cuidado, e se organiza, em três níveis: funcional, a habilidade básica de ler e compreender orientações; interativo, a capacidade de extrair informação e dialogar com o serviço; e crítico, que permite avaliar a informação e exercer controle sobre os determinantes da própria saúde (Nutbeam, 2000). A revisão de Sorensen et al. (2012) integra essas formulações e compreende a literacia como resultado da interação entre competências individuais e a complexidade das demandas do sistema de saúde. Por sua vez, Passamai et al. (2012) sublinham, no caso brasileiro, seu caráter relacional, atravessado pelos sistemas de saúde e de educação, pela mídia e pela comunidade. A dificuldade de compreensão, portanto, não é atributo exclusivo do usuário, mas efeito do descompasso entre o repertório de quem comunica e o de quem recebe. A segunda chave analítica vem do campo brasileiro da comunicação e saúde. Araújo e Cardoso (2007) recusam o modelo transferencial, que pressupõe um emissor competente e um receptor carente, e propõem compreender a comunicação em saúde como mercado simbólico, espaço em que os discursos institucional, midiático e popular disputam a definição do que é saúde e do que é risco. A informação falsa, nessa perspectiva, não ocupa um vazio: disputa terreno com o discurso técnico em condições desiguais de circulação. Um exemplo claro é abordado por Galhardi et al. (2020), ao analisar conteúdos falsos sobre a COVID-19 no Brasil. Os autores encontraram evidências da predominância de mensagens sobre prevenção e tratamento difundidas por aplicativos de mensagem, associadas a práticas inadequadas de prevenção e tratamento. A tradição da educação popular em saúde fornece o terceiro pilar. Freire (2005) recusa a comunicação como transferência vertical de conteúdo e propõe o diálogo como método, partindo do saber prévio e da linguagem do interlocutor. Vasconcelos (1999) mostra como essa matriz se incorporou à atenção básica brasileira, deslocando o foco da correção do erro para a construção conjunta de sentido, orientação depois institucionalizada pela Política Nacional de Educação Popular em Saúde no SUS (Bonetti; Odeh; Carneiro, 2014) e que sustenta o uso de linguagem simples e de narrativas próximas ao cotidiano. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) é o ponto do sistema em que as duas dimensões (excesso de informações falsas e literacia em saúde) se encontram cotidianamente. Porta de entrada preferencial e centro de comunicação das redes de atenção à saúde (Mendes, 2011), a APS recebe o usuário com dúvidas sobre o funcionamento da rede e, simultaneamente, com conteúdos apreendidos em redes sociais. O profissional da ponta torna-se mediador involuntário entre o conhecimento científico e a informação circulante, função para a qual raramente recebe formação, tempo protegido ou apoio institucional. Nessa direção, a revisão realizada por Amador et al (2023) analisou as evidências científicas na literatura sobre o uso de podcasts como ferramenta de educação em saúde para indivíduos maiores de 18 anos, identificando potencialidades relacionadas à mudança comportamental, promoção da saúde, satisfação dos usuários e interação social. Os resultados indicam que esse recurso apresenta características favoráveis para ampliar o acesso a conteúdos educativos, especialmente por sua flexibilidade de uso, possibilidade de alcance de diferentes públicos e capacidade de disponibilizar informações em formatos compatíveis com o cotidiano dos usuários. Os autores ainda destacam que, apesar da escassez de evidências, e falta de estudos abrangentes sobre as metodologias de desenvolvimento, o uso do podcast como ferramenta se mostrou eficaz para desfechos de mudança comportamental, como: perda de peso, satisfação e interação social. No mais, a ferramenta foi identificada como um recurso promotor de bem-estar, qualidade de vida, autonomia, autoestima e pertencimento. Logo, o podcast, deve ser considerado como estratégia para aumento da adesão ao tratamento e comprometimento (Amador et. al, 2023). MÉTODOS Este é um estudo descritivo de abordagem quanti-qualitativa, na modalidade de diagnóstico situacional. De acordo com Gil (2008), essa abordagem caracteriza-se pela integração de procedimentos de mensuração e interpretação dos fenômenos analisados. A dimensão quantitativa permite identificar padrões, frequências e relações entre variáveis por meio do tratamento dos dados, enquanto a abordagem qualitativa possibilita compreender significados, percepções e contextos associados ao objeto de estudo. A combinação das duas perspectivas permite uma análise mais ampla da realidade investigada, articulando a objetividade dos dados numéricos com a interpretação dos aspectos sociais e subjetivos envolvidos. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do projeto de extensão PetCast, vinculado ao PET-Saúde Informação Digital. Este último integra uma iniciativa do Ministério da Saúde que tem como eixo estruturante a articulação entre formação acadêmica, inovação tecnológica e fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, as atividades desenvolvidas pelo PetCast ampliam as ações já realizadas pelo grupo, consolidando um canal permanente de mediação científica e comunicação em saúde, com foco no enfrentamento da desinformação e na promoção da literacia em saúde no território. A área em que o estudo foi realizado consiste no município Iguatu, interior do estado do Ceará, localizado na região Centro-Sul do estado. O município em questão reúne 98.064 habitantes, de acordo com o Censo de 2022 (IBGE, 2022), com data de referência em maio de 2026. O questionário foi aplicado durante o mês de maio de 2026. A coleta foi realizada por questionário estruturado autoaplicado em formato eletrônico (Google Forms), com questões objetivas e discursivas, organizado nos seguintes eixos analíticos: caracterização do respondente, quanto a local de atuação, profissão e tempo de serviço; demandas informacionais dos usuários; práticas de comunicação em saúde; literacia em saúde e desinformação; expectativas em relação ao podcast; e visão institucional, com questões direcionadas à esfera de gestão. A amostra foi não probabilística, por conveniência, constituída por 43 respondentes vinculados à rede municipal de saúde, sendo 86% atuantes em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 14% na Secretaria Municipal de Saúde. Os dados quantitativos foram tabulados em frequências relativas sobre o total de respondentes de cada questão. As respostas discursivas foram submetidas a análise de conteúdo temática (Bardin, 2011), da qual se derivou a hierarquização de prioridades editoriais apresentada na seção seguinte. RESULTADO E DISCUSSÃO Os resultados do diagnóstico situacional estão estruturados em dois eixos analíticos complementares: o primeiro, voltado à identificação dos problemas, mensura as fragilidades na comunicação da rede de saúde, como as dúvidas frequentes sobre fluxos e o alto impacto da desinformação; o segundo, focado nas oportunidades, revela condições favoráveis para a implementação do podcast, destacando a receptividade e o interesse dos profissionais em participar da iniciativa. O Quadro 1 a seguir sintetiza os principais indicadores que evidenciam essa relação entre as fragilidades encontradas e as oportunidades identificadas. Quadro 1 – Principais indicadores do diagnóstico situacional Indicador % Leitura analítica Marcação de exames/consultas como dúvida mais frequente 74,4 Demanda sobre fluxos de acesso à rede Fake news sobre vacinas como desinformação mais observada 53,5 Vacinação como principal tema Já viram fake news afetar decisões dos usuários 86,0 Impacto clínico relatado Baixa escolaridade como principal barreira de comunicação 48,8 Descompasso emissor–receptor Idosos entre os grupos de maior dificuldade de compreensão 55,8 Cautela no uso exclusivo de canais digitais Acesso à informação em saúde avaliado como adequado 11,6 46,5% parcial e 41,9% insuficiente Recursos e tempo como principais limitações institucionais 76,5 Faltam meios operacionais Resposta positiva ao podcast (sim) 55,8 Mais 30,2% de potencial receptividade Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). Base: n = 43, exceto os indicadores institucionais (n = 33; n = 34 na questão sobre limitações). Perfil dos respondentes A caracterização da amostra delimita de que posição institucional os profissionais observam o fenômeno comunicacional descrito (Figura 1). A concentração na ponta da rede é expressiva na amostra: 86,0% atuam em Unidades Básicas de Saúde e 14,0% na Secretaria Municipal de Saúde (painel A), de modo que a percepção relatada se constrói no encontro cotidiano com o usuário, e não no plano da formulação central, o que confere às respostas o estatuto de observação de campo sobre a mediação informacional, descrita por Mendes (2011). Quanto à composição funcional (painel B), 81,4% declararam-se profissionais de saúde e 9,3% integrantes da gestão ou do quadro administrativo, distribuindo-se os 9,3% restantes entre quatro categorias com uma única resposta cada; a presença, ainda que residual, de trabalhadores não assistenciais indica que a demanda por informação em saúde alcança todo trabalhador identificado pelo usuário como pertencente ao serviço. O tempo de atuação (painel C) reforça a densidade da amostra: 60,5% acumulam mais de dez anos de rede e 72,1% têm cinco anos ou mais, experiência que permite reconhecer padrões recorrentes de dúvida e mudanças no comportamento informacional dos usuários ao longo do tempo. Figura 1 – Perfil dos respondentes: local de atuação (A), profissão/função (B) e tempo de atuação na rede (C) Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). Demandas informacionais e desinformação O achado mais expressivo do eixo de demandas é a predominância de questões de acesso (Figura 2, painel A): 74,4% dos profissionais apontam a marcação de exames e consultas como o tema mais frequente nas dúvidas dos usuários, seguida, com 9,3% cada, por diabetes e saúde mental, e por saúde da mulher (4,7%) e vacinação (2,3%). A distância entre o primeiro colocado e os demais desloca o eixo do problema: a dúvida dominante na porta de entrada não é sobre a doença, mas sobre o funcionamento da própria rede. Na leitura de Sorensen et al. (2012), trata-se de demanda gerada pela complexidade organizacional do sistema, e não por déficit individual do usuário, o que reposiciona a resposta institucional do campo da educação em saúde para o da transparência sobre fluxos assistenciais. A porosidade do atendimento à informação circulante em ambiente digital, por sua vez, é praticamente universal (painel B): 46,5% relatam que os usuários trazem informações da internet com frequência e outros 46,5% que isso ocorre às vezes, totalizando 93,0%, sem qualquer registro na categoria "nunca". O consultório constitui-se, assim, como espaço de mediação entre o discurso científico e o conteúdo circulante, precisamente o mercado simbólico descrito por Araújo e Cardoso (2007), o que desautoriza qualquer estratégia que pressuponha um receptor informacionalmente vazio. Figura 2 – Temas mais frequentes nas dúvidas dos usuários (A) e informações da internet trazidas ao atendimento (B) Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). Entre os tipos de desinformação efetivamente observados (Figura 3, painel A), as fake news sobre vacinas lideram com 53,5%, seguidas por tratamentos milagrosos e medicamentos, empatados em 20,9%; categorias residuais, em torno de 2,3% cada, referem-se a fluxos de urgência e emergência e a diagnósticos baseados no "Dr. Google". A concentração em vacinas e medicamentos indica incidência majoritária sobre prevenção e tratamento, padrão compatível com o descrito por Galhardi et al. (2020) para o caso brasileiro durante a pandemia, o que sugere persistência do fenômeno para além da emergência sanitária que o tornou visível. Já na indicação dos temas mais vulneráveis no município (painel B), a hierarquia se mantém no topo, mas se reorganiza abaixo dele: vacinação (37,2%), saúde mental (27,9%), uso de medicamentos (16,3%) e COVID-19 (11,6%). A ascensão da saúde mental merece destaque analítico: tema pouco frequente nas dúvidas espontâneas (9,3%), mas aparece como altamente vulnerável na percepção profissional. O contraste sugere demanda reprimida, em que o estigma inibe a pergunta no serviço e desloca a busca por informação para ambientes de baixa curadoria, com potencial de adiamento do cuidado especializado. Figura 3 – Tipos de desinformação observados no atendimento (A) e temas mais vulneráveis à desinformação no município (B) Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). O achado mais grave do diagnóstico é o impacto clínico relatado (Figura 4): 86,0% dos profissionais já presenciaram informações falsas interferindo em decisões de saúde dos usuários, com menções recorrentes a recusa vacinal, abandono de medicamentos para hipertensão e diabetes e descrédito à orientação profissional. Como resume um respondente, "pacientes deixam de tomar a vacina ou medicamentos de hipertensão e diabetes por conta de fake news", enquanto outro acrescenta que "muitas vezes acreditam fielmente em informações que não têm fundamentação científica, então acabam colocando sua saúde em risco". Figura 4 – Impacto relatado das fake news sobre decisões de saúde dos usuários Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). O conjunto desloca a desinformação da condição de problema comunicacional para a de determinante de desfecho clínico, com implicações sobre adesão terapêutica e cobertura vacinal, e justifica tratá-la como objeto de política pública de saúde, e não apenas de comunicação institucional. Barreiras de comunicação e públicos vulneráveis Quase metade dos profissionais (48,8%) identifica a baixa escolaridade dos usuários como principal barreira de comunicação (Figura 5, painel A), seguida da resistência dos usuários (20,9%), da linguagem técnica do próprio profissional (16,3%), do excesso de informações (11,6%) e das limitações socioeconômicas (2,4%). A leitura combinada de baixa escolaridade e linguagem técnica totaliza 65,1% das menções e evidencia o descompasso entre os repertórios de emissor e receptor, objeto da crítica freiriana à comunicação vertical (Freire, 2005). Que 16,3% reconheçam a própria linguagem como parte do problema é achado de valor prático: indica disposição reflexiva que torna viável a capacitação em linguagem simples e afasta a leitura, criticada por Araújo e Cardoso (2007), de um emissor competente diante de um receptor carente. Quanto aos públicos (painel B), idosos (55,8%) e pessoas com baixa escolaridade (34,9%) somam 90,7% das menções, seguidos pela população rural (4,7%). Os dados não permitem afirmar que os mesmos indivíduos acumulem os três marcadores, mas a convergência recomenda que a estratégia não dependa exclusivamente de meios digitais, limite explicitado na ressalva de um respondente: "por ser uma população vulnerável, idosa e com muitos que não são alfabetizados, torna-se difícil o acesso a esse canal de informação". Figura 5 – Maiores dificuldades percebidas na comunicação (A) e grupos com maior dificuldade de compreensão (B) Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). No plano das práticas (Figura 6, painel A), a conversa individual é a modalidade absolutamente dominante de orientação (76,7%), com os grupos educativos em distante segundo lugar (11,6%) e as redes sociais em terceiro (4,7%). A predominância do formato individual reúne qualidades inegáveis de personalização, vínculo e escuta, mas onera fortemente o tempo das equipes e limita o alcance, configurando modelo de baixa escala; a presença ainda incipiente das redes sociais sugere, contudo, rede minimamente familiarizada com a comunicação digital. Figura 6 – Modalidade predominante de orientação (A) e percepção sobre a compreensão das orientações (B) Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). O resultado desse modelo é avaliado com reserva pelos próprios profissionais (painel B): apenas 37,2% percebem compreensão plena das orientações, contra 60,5% que a avaliam como parcial e 2,3% que a consideram inexistente. O indicador é central para o argumento do trabalho, pois demonstra que mesmo a modalidade mais intensiva em tempo e vínculo não assegura a apropriação da informação, o que remete ao nível funcional da literacia em saúde descrito por Nutbeam (2000) e reforça a utilidade de instrumentos capazes de repetir e reforçar a mensagem fora do tempo escasso da consulta. Condições institucionais e receptividade ao podcast A avaliação do acesso à informação em saúde no município é francamente crítica (Figura 7, painel A): apenas 11,6% o consideram adequado, enquanto 46,5% o julgam parcialmente adequado e 41,9% insuficiente, somando 88,4% de demanda por fortalecimento. No eixo institucional, respondido por 33 participantes vinculados à gestão, 54,5% afirmam que a instituição possui estratégias formais de comunicação em saúde e 45,5% não as reconhecem (painel B); o resultado majoritariamente positivo é relativizado pelo conteúdo das respostas discursivas, em que redes sociais, rádio, salas de espera, cartazes e visitas domiciliares aparecem de forma heterogênea e sem articulação declarada, sugerindo ações dispersas mais do que política consolidada. As limitações apontadas (painel C, n = 34) concentram-se em recursos (44,1%) e tempo (32,4%), somando 76,5%, seguidas de capacitação (14,7%). A leitura conjunta indica que a intenção institucional de comunicar existe, mas carece de meios operacionais, achado que dialoga com Souza (2006), para quem a formulação de políticas públicas só se materializa mediante implementação dotada de recursos e responsabilidades definidas. Figura 7 – Acesso à informação em saúde (A), existência de estratégia formal de comunicação (B) e principais limitações institucionais (C) Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). A receptividade à iniciativa, contudo, é relevante (Figura 8, painel A): 55,8% responderam que o podcast pode contribuir para o enfrentamento da desinformação e 30,2% responderam "talvez", totalizando 86,0% entre resposta positiva e potencial receptividade. Os argumentos favoráveis mobilizam justamente a acessibilidade do formato sonoro, como na resposta de que "mesmo nos tempos atuais existem pessoas que não sabem ler ou não gostam da leitura; o fato de ser algo para escutar facilita chegar até os usuários", enunciado que oferece sustentação empírica à hipótese de desenho do projeto, segundo a qual um formato que prescinde da leitura alcança melhor o nível funcional da literacia em saúde (Nutbeam, 2000). As ressalvas incidem sobre a dimensão do alcance, e não sobre o mérito do conteúdo, os resultados apontam: a ausência de acesso à internet, a falta de habilidade no manuseio de aparelhos eletrônicos e a indisponibilidade de tempo livre entre os públicos mais vulneráveis, crítica coerente com os dados das Figuras 5 e 7. Por fim, 53,5% declaram disposição para participar como convidados (painel B), percentual obtido sem qualquer contrapartida institucional e suficiente para sustentar uma grade inicial de episódios, o que indica engajamento capaz de reduzir o custo de produção de conteúdo qualificado. Figura 8 – Percepção sobre a contribuição do podcast (A) e disposição para participar como convidado (B) Fonte: Elaboração própria com base nos dados do diagnóstico situacional (2026). A leitura integrada dos dois eixos sustenta três frentes editoriais prioritárias: (i) orientação sobre fluxos da rede assistencial, que responde à maior demanda objetiva identificada (74,4%); (ii) enfrentamento da desinformação sobre vacinas e medicações para doenças crônicas, que responde ao maior risco clínico relatado (86,0% de impacto percebido, com vacinação em 53,5% das fake news observadas); e (iii) literacia em saúde mental, segundo tema mais vulnerável (27,9%) e marcado por demanda reprimida. A restrição de acesso digital dos públicos críticos recomenda distribuição multimodal, com recortes em rádios comunitárias, reprodução em salas de espera, cortes curtos difundidos pelos agentes comunitários de saúde e cartilhas derivadas dos episódios, de modo que o produto digital funcione como matriz de conteúdo para canais não digitais, e não como canal único. CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo geral do presente trabalho foi caracterizar, segundo a percepção dos profissionais da rede, as demandas informacionais dos usuários, as práticas de comunicação em saúde e a exposição à desinformação na APS de Iguatu (CE), bem como avaliar a receptividade desses profissionais a um podcast institucional. Especificamente, buscou-se identificar os temas mais demandados e mais vulneráveis à desinformação, mapear as barreiras de comunicação percebidas, dimensionar o impacto relatado das informações falsas sobre decisões de saúde e levantar as limitações institucionais à comunicação em saúde no município. O diagnóstico situacional evidencia duas faces de um mesmo problema comunicacional na Atenção Primária de Iguatu. De um lado, a demanda cotidiana dos usuários é dominada por questões de acesso e fluxo (74,4%), sinal de que a comunicação institucional sobre o funcionamento da rede permanece frágil. De outro, a desinformação apresenta impacto clínico relatado por 86% dos profissionais, com a vacinação como principal tema das fake news observadas (53,5%). O acesso à informação em saúde é avaliado como adequado por apenas 11,6% dos respondentes, e 88,4% indicam necessidade de fortalecimento, o que, somado à percepção fragmentada da estratégia institucional e à escassez de recursos e tempo (76,5%), delimita o campo de intervenção. Ao mesmo tempo, o estudo identifica condições favoráveis pouco frequentes: um corpo profissional experiente, com leitura crítica sobre suas próprias dificuldades de comunicação, com resposta positiva ao podcast em 55,8% dos casos e potencial receptividade em outros 30,2%, e disposto a participar dele (53,5%). O podcast institucional se sustenta, portanto, como componente de uma política municipal de comunicação em saúde, e sua efetividade depende da conexão com mídias capazes de alcançar idosos e pessoas com baixa escolaridade. Como contribuição, o trabalho oferece à gestão municipal um instrumento de decisão baseado em dados primários e, ao campo, um protocolo replicável de diagnóstico comunicacional para municípios do interior. Reconhecem-se como limites o desenho não probabilístico e a ausência da perspectiva direta dos usuários, o que recomenda, como agenda de pesquisa, a aplicação de instrumento validado de literacia em saúde junto à população. O objetivo último não é produzir um podcast, mas qualificar a relação entre o sistema de saúde e o cidadão, tratando a informação científica confiável como componente do direito à saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMADOR, Fabiola Leticia Damascena et al. Uso de podcasts para educação em saúde: uma revisão de escopo. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 77, n. 1, e20230096, 2024. ARAÚJO, Inesita Soares de; CARDOSO, Janine Miranda. Comunicação e saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2007. (Coleção Temas em Saúde). DOI: 10.7476/9788575413098. 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Palavras-chave: tripé macroeconômico,interpretações concorrentes,critérios de classificação,distribuição de renda,economia brasileira
Oral
Abrir o trabalhoO ESTADO COMO INDUTOR DO DESENVOLVIMENTO: EMPRESAS ESTATAIS, BNDE E A DESTINAÇÃO DO FINANCIAMENTO DO II PND ENTRE CAPITAL ESTATAL E CAPITAL PRIVADO NACIONAL
DAMIÃO HENRIQUE RODRIGUES TEIXEIRA ; DARLEY KAYNAN EVANGELISTA LIMA; JOICY KELLY DA SILVA; LARA MARIA ALVES BEZERRA
O período que antecedeu o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) foi marcado pelo "Milagre Econômico" (1968-1973), seguido pelo 1º Choque do Petróleo, em 1973, que agravou os desequilíbrios das contas externas brasileiras. Diante desse cenário, o governo Geisel optou por não adotar um ajuste recessivo e implementou o II PND como estratégia de modernização e redução da dependência externa, priorizando setores como siderurgia, petroquímica, fertilizantes e energia. Para financiá-lo, recorreu ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), ao PIS-Pasep, a empréstimos externos e ao endividamento junto a bancos internacionais (HERMANN, 2005), de modo que o Estado assumiu papel central na condução dos investimentos e dos projetos estratégicos do período. Este trabalho tem como objetivo geral analisar como o financiamento mobilizado pelo BNDE e a atuação das empresas estatais se distribuíram entre o capital estatal e o capital privado nacional na execução do II PND, entre 1974 e 1979, e quais efeitos essa distribuição produziu sobre a relação entre o Estado e o empresariado industrial. Como objetivos específicos, buscou-se: i) compreender o debate teórico sobre o papel do Estado na economia; ii) caracterizar o II PND e a atuação do BNDE; e iii) identificar os principais setores e projetos estratégicos financiados pelo BNDE e executados por empresas estatais. A hipótese central é a de que a execução do II PND, ao concentrar recursos e decisões nas empresas estatais e no BNDE, alterou o equilíbrio do "tripé" econômico do regime militar, reduzindo o espaço do empresariado industrial nacional que, embora inicialmente favorável ao plano, reagiu à perda de autonomia por meio da "Campanha Antiestatização" (MORAES; BASTOS, 2022). A justificativa do estudo reside na necessidade de aprofundar a análise das contradições de um modelo de desenvolvimento que, simultaneamente, ampliava oportunidades de mercado para o setor privado e gerava crescente temor de "asfixia" diante do gigantismo estatal, contribuindo para iluminar debates contemporâneos sobre os limites da intervenção governamental como indutora do crescimento. No referencial teórico, resgata-se o debate histórico sobre a extensão da intervenção estatal na economia, do mercantilismo à escola clássica, passando pela ruptura keynesiana após a Grande Depressão de 1929, que legitimou a atuação ativa do Estado como promotor da industrialização em países em desenvolvimento. No Brasil do regime militar, essa atuação foi particularmente proeminente: Moraes e Bastos (2022) argumentam que o II PND não pode ser lido como ato voluntarista de uma ditadura isolada, mas como expressão da autonomia relativa de um Estado articulado com frações do empresariado industrial nacional; Fonseca e Monteiro (2007) reforçam que sua racionalidade econômica esteve ligada a uma racionalidade política de legitimação e distensão do regime; e Velloso (1998), um dos arquitetos do plano, defende que este possuía fundamentação econômica sólida, contestando a tese de "fantasia política". A manutenção do crescimento acelerado após o choque de 1973 configurou a chamada "marcha forçada" (BOARATI, 2003), mecanismo pelo qual o Estado internalizou decisões de investimento que o setor privado hesitava em assumir, dados os altos riscos e longos prazos de maturação (FONSECA; MONTEIRO, 2007). O BNDE, por meio das subsidiárias EMBRAMEC, FIBASE e IBRASA, injetou capital de risco diretamente nas empresas privadas nacionais, atuando como "colchão" financeiro para o empresariado (MORAES; BASTOS, 2022), enquanto as estatais de siderurgia, petroquímica e energia funcionaram como demandantes de primeira ordem para a indústria de bens de capital nacional. Essa dinâmica compunha o "tripé" formado pelo capital estatal, privado nacional e estrangeiro (CEPAL, 2018), articulação que gerou tensões em torno do debate sobre o crowding out, isto é, sobre o deslocamento do investimento privado pela expansão da presença estatal (HERMANN, 2005). Consoante a isso, o documento original do II PND previa aportes de cerca de Cr$ 300 bilhões para o bloco de investimentos em bens de produção, siderurgia, petroquímica, fertilizantes, metais não ferrosos e insumos básicos, cerca de 17% da Síntese de Investimentos do Plano, ante 23% destinados à infraestrutura (BRASIL, 1974), o que demonstra que o II PND operou como sistema de financiamento misto, no qual o setor privado nacional foi, na prática, um dos principais beneficiários do crédito do BNDE, reforçando o caráter coordenador, e não substitutivo, da ação estatal (FONSECA; MONTEIRO, 2007). Metodologicamente, a pesquisa adota abordagem qualitativa, de natureza básica e caráter histórico-crítico e institucionalista, alicerçada em revisão bibliográfica e documental. Quanto aos objetivos, classifica-se como exploratória e descritiva. O recorte temporal abrange o "Milagre Econômico" (1968-1973), a vigência do Plano (1974-1979) e os desdobramentos posteriores relacionados à crise da dívida externa dos anos 1980. O levantamento bibliográfico utilizou bases como SciELO e Google Acadêmico, repositórios institucionais e bibliotecas digitais de órgãos públicos, com os descritores "II PND", "BNDE", "empresas estatais", "marcha forçada" e "Campanha Antiestatização". Como fontes documentais, utilizaram-se o texto original do II PND (BRASIL, 1974) e o artigo de Oliveira, Redivo e Cário (2015) sobre a atuação do BNDE; como fontes secundárias, as obras de Fonseca e Monteiro (2007), Moraes e Bastos (2022), Velloso (1998), Boarati (2003), Hermann (2005), Genta dos Santos e Colistete (2009), Maciel (2017), Salomão (2005) e Tavares et al. (2010), entre outras. A análise foi organizada em torno de quatro eixos: o debate teórico sobre o Estado na economia; a caracterização institucional do II PND e do BNDE; o mapeamento dos setores e projetos financiados; e as tensões entre o Estado e o empresariado industrial nacional. Como limitação, reconhece-se que o estudo não incorpora a construção de séries históricas quantitativas próprias, sugestão deixada para pesquisas futuras. Os resultados confirmam que a execução do II PND foi marcada por investimentos maciços em setores estratégicos - siderurgia, petroquímica, energia, bens de capital e transportes/infraestrutura -, identificados pelo próprio Plano como gargalos ao crescimento sustentado (BRASIL, 1974). O BNDE foi fundamental para capitalizar empresas nacionais e viabilizar sua participação nesses grandes projetos, mitigando riscos de investimentos de longo prazo e alta intensidade de capital. A diversidade de estatais envolvidas, de Siderbrás a Eletrobras, passando por Petroquisa, RFFSA e Portobrás, ilustra a amplitude do braço executor estatal, que atuou simultaneamente como produtor, investidor e planejador setorial. A centralidade do BNDE não se limitou ao repasse de recursos: os recursos do PIS-Pasep passaram a representar a principal fonte de funding do Banco, respondendo por cerca de 54% do total disponível em 1976, equivalente a aproximadamente R$ 43,8 bilhões a preços de 2014, com pico de R$ 53,3 bilhões em 1978 (MACIEL, 2017). Quanto à destinação, o setor privado nacional absorveu cerca de dois terços das aprovações de crédito do BNDE, contra aproximadamente 34% às empresas estatais (MACIEL, 2017), evidenciando que o Estado, longe de simplesmente substituir o capital privado, buscou qualificá-lo para competir nos grandes projetos de base. Contudo, a centralização de recursos e decisões no aparato estatal gerou tensões crescentes com o empresariado privado, que passou a temer a "estatização" da economia, culminando na "Campanha Antiestatização", movimento liderado por lideranças empresariais que buscavam redefinir os limites da intervenção estatal. Esse episódio confirma a hipótese central da pesquisa: a execução do II PND rompeu o equilíbrio original do "tripé", deslocando o eixo de poder decisório em direção ao Estado, ainda que em bens de capital o Estado tenha atuado mais como fomentador do que como substituto do empresariado nacional (TAVARES et al., 2010). Por fim, o financiamento via empréstimos externos a juros flutuantes, embora tenha viabilizado o crescimento acelerado, comprometeu a saúde financeira do Estado no médio prazo: a dívida externa bruta brasileira, de cerca de US$ 12,6 bilhões ao final de 1973, cresceu a uma taxa média anual de 22,9% entre 1973 e 1978 (HERMANN, 2005), puxada pelas captações do setor público e pelo endividamento privado junto a bancos internacionais; o déficit em conta corrente alcançou cerca de US$ 4,7 bilhões já em 1974 (MORAES; BASTOS, 2022), e a manutenção de uma taxa de investimento de 22,5% do PIB e crescimento médio de 8,2% ao ano entre 1974 e 1979 dependeu de poupança externa complementar (FIPE, 2014). Quando as taxas de juros internacionais subiram ao final da década de 1970, o serviço da dívida tornou-se insustentável, contribuindo diretamente para a crise da dívida e para a "década perdida" dos anos 1980, o que corrobora as críticas de Genta dos Santos e Colistete (2009) e Maciel (2017) quanto à insustentabilidade macroeconômica do modelo adotado. Conclui-se que o Estado brasileiro desempenhou papel central e planejado como indutor do desenvolvimento durante o II PND, e não um papel meramente voluntarista ou desprovido de racionalidade técnica. O debate teórico sobre o papel do Estado na economia mostrou-se nitidamente articulado à experiência do regime militar e à atuação do BNDE e das estatais, evidenciando o funcionamento do "tripé" formado pelo capital estatal, privado nacional e estrangeiro. A hipótese central da pesquisa encontrou respaldo nos resultados: a centralização de recursos e decisões nas estatais e no BNDE rompeu o equilíbrio do "tripé" econômico, marginalizando o empresariado industrial nacional, cuja reação, consubstanciada na "Campanha Antiestatização", demonstra que o modelo adotado, embora tenha ampliado oportunidades de mercado para o capital privado, gerou simultaneamente temor crescente de asfixia diante do gigantismo estatal. Contudo, o financiamento via endividamento externo a juros flutuantes revelou-se financeiramente oneroso, com efeitos que se manifestariam plenamente na crise da dívida e na "década perdida" dos anos 1980. Apesar disso, o II PND deixou um legado estrutural inegável, consolidando uma base industrial diversificada que sustentaria parte do parque produtivo brasileiro nas décadas seguintes. Recomenda-se, para pesquisas futuras, a construção de séries históricas quantitativas sobre os investimentos setoriais e o endividamento externo do período, complementando a análise histórico-institucional aqui desenvolvida.
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Abrir o trabalhoOral
Abrir o trabalhoCONCENTRAÇÃO E A DIVERSIFICAÇÃO DO EMPREGO FORMAL NO COMÉRCIO VAREJISTA DO CEARÁ: UM DIAGNÓSTICO PARA O ANO DE 2025
DAMIÃO HENRIQUE RODRIGUES TEIXEIRA ; DARLEY KAYNAN EVANGELISTA DE LIMA; JOICY KELLY DA SILVA; LARA MARIA ALVES BEZERRA
O objetivo deste estudo é analisar a concentração e a diversificação do emprego formal no comércio varejista do Ceará, identificando padrões regionais em 2025. Para atender a esse objetivo, a metodologia adotada consistiu na aplicação de três procedimentos: o cálculo da Participação Relativa no Município (PRM) e Participação Relativa no Estado (PRE) no emprego varejista; e, construção dos indicadores Quociente Locacional (QL) e Coeficiente de Especialização (CE), cujo o resultado do primeiro é apresentado em mapa de calor, e, posteriormente, o resultados de ambos os indicadores são cruzados em uma matriz de quadrantes que classifica os municípios em quatro perfis de especialização. Os principais resultados mostraram que: Juazeiro do Norte, Caucaia, Sobral, Crato, Iguatu, Aracati e Itapipoca posicionam-se como Polos Consolidados (Elevada PRM, QL > 1 e CE baixo), confirmando que o varejo é, nesses municípios, especializado e diversificado. Já Fortaleza, Maracanaú e Eusébio, apesar da alta participação estadual (PRE elevado), classificam-se como economias diversificadas (QL ≤ 1, CE baixo), onde o varejo representa fatia diluída por uma estrutura produtiva ampla (indústria, serviços especializados e administração pública).
Oral
Abrir o trabalhoDESIGUALDADE ESPACIAL DO SETOR INDUSTRIAL CEARENSE: UMA ABORDAGEM DO PIB PER CAPITA, 2002-2021.
INGRID MARIA DA SILVA ; Fladia Valeria Dantas dos Santos
O presente estudo busca analisar os efeitos espaciais do crescimento econômico industrial nos municípios do estado do Ceará no período de 2002 a 2021. A problemática central reside em compreender como a interdependência espacial e o desempenho econômico da indústria influenciam a concentração de renda no território cearense, tendo como objetivo verificar a influência do PIB per capita municipal no crescimento e nas desigualdades regionais. Para a análise, utilizaram-se dados secundários de população e do PIB total e industrial, coletados no SIDRA/IBGE e deflacionados a preços constantes de 2021. Os procedimentos de análise integram os indicadores de desigualdade (Coeficiente de Variação, Williamson e Theil), a análise estatística descritiva, a Análise Exploratória de Dados Espaciais (AEDE) e o Índice de Moran. Os resultados revelam que o setor de indústria apresenta elevado grau de assimetria, com forte concentração em enclaves e polos específicos. A análise espacial, por meio do Índice de Moran Global, confirmou a existência de autocorrelação espacial positiva e significativa para o setor analisado, identificando a persistência de clusters territoriais e fortes efeitos de transbordamento. Conclui-se que o crescimento econômico industrial do Ceará não ocorre de maneira aleatória, evidenciando que políticas públicas territoriais e estratégias de planejamento regional articuladas são fundamentais para atenuar as disparidades socioespaciais do estado.
Oral
Abrir o trabalhoDINÂMICA AGRÍCOLA DO CEARÁ: UMA ANÁLISE SHIFT-SHARE DAS CULTURAS DE 2000 A 2020
JOSÉ FLÁVIO FERREIRA DE OLIVEIRA
Este estudo analisa a dinâmica produtiva das principais culturas agrícolas do estado do Ceará entre 2000 e 2020, utilizando o método Shift-Share. Os resultados indicam uma retração generalizada da área colhida no estado compensada por ganhos expressivos de produtividade e, principalmente, por uma forte realocação das áreas cultivadas em favor de culturas de maior valor agregado, resultando em um crescimento médio anual da produção. A fruticultura irrigada, com destaque para melancia e maracujá, desponta como o principal vetor desse dinamismo, sobretudo nas mesorregiões do Jaguaribe, Noroeste Cearense e Sul Cearense, enquanto culturas tradicionais de subsistência, como feijão, mandioca e cana-de-açúcar, apresentam retração sistemática, com casos extremos nos Sertões Cearenses e na Região Metropolitana de Fortaleza. Os achados evidenciam uma transição estrutural de um modelo agrícola extensivo para um modelo intensivo e mais eficiente, ainda que desigual entre os territórios, reforçando a relevância de políticas de crédito rural (PRONAF, Agroamigo, FEDAF) e de infraestrutura hídrica para reduzir disparidades produtivas e fortalecer a agricultura familiar diante das vulnerabilidades climáticas do semiárido.
Oral
Abrir o trabalhoDISTRITOS INDUSTRIAIS COMO PROPULSORES DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL: UM ESTUDO SOBRE CINCO CENTROS PRODUTIVOS CEARENSES
MARIANA COSTA MARTINS; RAYANE VINUTO DA SILVA
O estudo analisou a contribuição dos distritos industriais de Maracanaú, Horizonte-Pacajus, Pecém, Sobral e Crajubar para o desenvolvimento regional do estado do Ceará. Metodologicamente, adotou-se uma abordagem quantitativa e aplicada por meio do levantamento de dados de emprego formal da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), compreendendo o recorte temporal do ano de 2025. Para a análise dos dados, foram calculados os indicadores de Economia Regional: o Quociente Locacional (QL) e o Coeficiente de Especialização (CE), além da construção do ranking por subsetores com maior destaque em cada distrito. Os principais resultados apontaram uma atuação territorial heterogênea dos distritos. Os distritos de Horizonte-Pacajus e Maracanaú revelaram elevado índice de especialização e maior atração de capital fabril. Ademais, a análise estrutural revelou que os distritos de Pecém, Sobral e Horizonte-Pacajus operam sob a lógica de enclaves econômicos altamente dependentes de poucas cadeias produtivas globais. Em contrapartida, os distritos de Maracanaú e Crajubar consolidaram matrizes industriais maduras, resilientes e diversificadas, alinhadas às premissas do desenvolvimento.
Palavras-chave: Economia Regional,Distritos Industriais,Desenvolvimento Regional,Ceará
Oral
Abrir o trabalhoMACROECONOMIA BRASILEIRA E DESENVOLVIMENTO REGIONAL (2014–2024): UMA ANÁLISE DOS INDICADORES DE CRESCIMENTO, INFLAÇÃO E MERCADO DE TRABALHO NA REGIÃO DE PLANEJAMENTO CENTRO-SUL DO CEARÁ
LUIZ FABIANO ALVES DA SILVA; Jamile Saraiva de Almeida
Este artigo integra os resultados do Projeto de Iniciação Científica desenvolvido na Universidade Regional do Cariri (URCA) e investiga a conjuntura macroeconômica brasileira entre 2014 e 2024 e sua relação com os indicadores de crescimento, inflação e mercado de trabalho nos treze municípios da Região de Planejamento Centro-Sul do Ceará. A pesquisa, aplicada e quanti-qualitativa, com procedimentos bibliográficos, documentais e ex-post-facto, utiliza dados secundários do IBGE, do Banco Central do Brasil e do Ministério do Trabalho e Emprego, comparando as trajetórias nacionais e regionais e calculando a taxa média geométrica de crescimento (CAGR) dos municípios. Em escala nacional, o período foi marcado por recessão em 2015-2016, ajuste fiscal no governo Temer, choque pandêmico em 2020 e retomada a partir de 2022, movimentos reproduzidos na região com defasagem e intensidade próprias. O PIB real regional cresceu apenas 0,87% ao ano entre 2014 e 2023, com forte concentração em Iguatu (38,51% do produto em 2023 e 48,25% do emprego formal em 2024), enquanto municípios menores, como Ipaumirim (+3,84% a.a.), Saboeiro (+3,22% a.a.) e Quixelô (+3,12% a.a.), registraram os maiores CAGRs, revelando dinâmicas de desenvolvimento endógeno. O mercado de trabalho manteve estrutura dual, com recuperação do emprego formal pós-pandemia seguida de recuo em 2024. Conclui-se que as transformações macroeconômicas nacionais repercutem de forma heterogênea no território, reforçando assimetrias intrarregionais e apontando a necessidade de políticas diferenciadas de desenvolvimento regional.
Palavras-chave: Assimetria territorial, Semiárido , Emprego formal , Causação circular cumulativa, PIB municipal
Oral
Abrir o trabalhoQUIXELÔ (CE) E OS CAMINHOS DO DESENVOLVIMENTO LOCAL: HISTÓRIA, POLÍTICA E REALIDADE SOCIOECONÔMICA
RAFAELE SOUZA QUEIROZ ; Janiele de Brito de Souza
QUIXELÔ (CE) E OS CAMINHOS DO DESENVOLVIMENTO LOCAL: HISTÓRIA, POLÍTICA E REALIDADE SOCIOECONÔMICA Área Temática: Desenvolvimento regional, urbano, rural e sustentabilidade Resumo: O desenvolvimento local constitui um processo que ultrapassa a dimensão do crescimento econômico, considerando as especificidades de cada território. Nessa perspectiva, o objetivo central deste trabalho consiste em discutir o desenvolvimento local em Quixelô, Ceará, considerando suas características históricas, culturais e socioeconômicas, bem como suas potencialidades e desafios. Para tanto, realizou-se uma revisão de literatura, de caráter descritivo e exploratório, fundamentada em pesquisa bibliográfica e documental, com utilização de dados secundários provenientes de fontes oficiais, especialmente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) e da Prefeitura Municipal de Quixelô. Os resultados evidenciam que o município apresenta uma trajetória marcada por transformações históricas, culturais, políticas e econômicas, com destaque para a presença de manifestações culturais, a herança indígena e a importância das atividades agropecuárias. A estrutura econômica caracteriza-se pela expressiva participação dos serviços e pela relevância da agropecuária, especialmente da pecuária leiteira e da produção agrícola, embora ainda apresente baixa diversificação. Os indicadores socioeconômicos também revelam desafios relacionados à geração de emprego formal, à oferta de serviços e às condições de vida da população. Assim, conclui-se que Quixelô dispõe de potencialidades associadas à sua base produtiva, identidade cultural e características territoriais, mas enfrenta limitações que condicionam suas possibilidades de desenvolvimento local, demandando a valorização de seus recursos e maior articulação entre sociedade e poder público. Palavras-chave: Desenvolvimento endógeno; Base produtiva; Economia local; Recursos territoriais; Planejamento municipal. 1. INTRODUÇÃO O conceito de desenvolvimento tem sido historicamente associado ao avanço econômico e à inovação tecnológica, muitas vezes desconsiderando as diversidades culturais e a pluralidade de valores locais (Martins, 2002). Sob essa perspectiva, compreende-se que o desenvolvimento deve resultar do crescimento da atividade econômica associado à elevação do bem-estar da população, incluindo mudanças na estrutura produtiva capazes de contribuir para a redução da pobreza, do desemprego e da desigualdade (Oliveira, 2002). Diante das limitações desse modelo convencional, o “desenvolvimento local apresenta-se como uma alternativa que reconhece as especificidades dos territórios e se fundamenta na articulação comunitária voltada ao planejamento do progresso e à superação da pobreza” (Rozas,1998 apud Martins, 2002, p. 53). Nesse contexto, o município de Quixelô, localizado no Centro-Sul cearense e emancipado politicamente em 1984, constitui o objeto de estudo desta pesquisa. Sua formação econômica foi marcada por uma base produtiva pouco diversificada, sustentada durante décadas pela cotonicultura, cuja decadência esteve relacionada, entre outros fatores, à disseminação da praga do bicudo (Quixelô, 2026). Com aproximadamente 15 mil habitantes, baixa densidade demográfica e perfil predominantemente rural, o município apresenta desafios associados às características de pequenas localidades do semiárido nordestino, entre eles a distribuição populacional dispersa e a distância em relação aos principais polos urbanos do Estado. Em 2023, o PIB per capita de Quixelô correspondia a R$ 15.166,35, revelando uma economia de dimensão modesta em relação aos contextos cearense e nacional. Em 2024, o município registrava apenas 299 trabalhadores com vínculos formais de trabalho, concentrados majoritariamente no setor comercial (IPECE, 2026). Embora a agropecuária respondesse por 35,67% do Valor Adicionado Bruto municipal (IPECE, 2026), o setor apresentava apenas três empregos formais, evidenciando a baixa capacidade de formalização do mercado de trabalho. Esse cenário também se relaciona à importância das políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que atendia 3.073 famílias no município. Somam-se a essas condições um IDH de 0,591 e indicadores sociais que apontam dificuldades persistentes, como a distorção idade-série de 17% na educação e a disponibilidade de 1,8 médico por mil habitantes, abaixo da média estadual de 2,6 (IPECE, 2026). Sob uma perspectiva crítica, Buarque (2008) salienta que, no Brasil, especialmente no Nordeste, as ações voltadas ao desenvolvimento local enfrentam limitações relacionadas à base econômica, contribuindo para a baixa efetividade de políticas de combate à pobreza e de desenvolvimento rural. Nesse sentido, o desenvolvimento local requer a articulação entre gestão pública eficiente, fortalecimento da cadeia produtiva e organização da sociedade, fatores que, quando integrados, contribuem para a melhoria da qualidade de vida e da eficiência econômica no território (Buarque, 2008). Um exemplo das transformações na estrutura produtiva de Quixelô pode ser observado após o declínio da cotonicultura. O cultivo do arroz, a criação de gado leiteiro e o aproveitamento dos recursos hídricos do Açude Orós passaram a contribuir para a sustentação da economia local. Paralelamente, manifestações culturais, como o Quiforró, evento que reúne mais de 20 mil pessoas anualmente, constituem fontes adicionais de geração de emprego e renda para comerciantes, artesãos e costureiras locais (Klisma, 2024; Quixelô, 2026). Diante desse cenário, esse trabalho se fundamenta na seguinte problemática: como os aspectos históricos, culturais e socioeconômicos de Quixelô, Ceará, se relacionam com as possibilidades de desenvolvimento local, à luz da literatura sobre o tema? A fim de responder a essa questão, este trabalho tem como objetivo central discutir o desenvolvimento local em Quixelô (CE), considerando suas características históricas, culturais e socioeconômicas, bem como suas potencialidades e desafios. Para tanto, recorreu-se aos seguintes objetivos específicos: i) contextualizar os principais aspectos teóricos relacionados ao desenvolvimento local, com ênfase na valorização das potencialidades e especificidades territoriais; e ii) compreender o perfil de desenvolvimento do município de Quixelô. A relevância da pesquisa decorre da necessidade de compreender como a estrutura produtiva de pequenas localidades do semiárido nordestino se relaciona com as condições de vida da população. Além disso, justifica-se pela necessidade de ampliar os estudos econômicos voltados às pequenas localidades do Centro-Sul cearense, como Quixelô, contribuindo para o debate científico sobre desenvolvimento local e para a geração de subsídios à formulação de políticas públicas municipais e regionais. Por fim, além desta introdução, o artigo está organizado em mais quatro seções. A segunda seção apresenta o referencial teórico, abordando a evolução conceitual do desenvolvimento local e sua relação com as especificidades e potencialidades dos territórios, aspectos que fundamentam a análise do município de Quixelô. A terceira seção apresenta os procedimentos metodológicos adotados na pesquisa. A quarta seção contempla os resultados e a discussão, abordando a formação histórica, política e socioeconômica do município de Quixelô. E, por fim, a quinta seção apresenta as considerações finais do trabalho. 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1.O conceito de desenvolvimento local Buarque (2008) conceitua o desenvolvimento local como um processo interno de transformação capaz de promover crescimento econômico e bem-estar social nos municípios e nas comunidades. Para que se consolide de forma sustentável, esse processo deve aproveitar os recursos e as capacidades existentes no território, melhorar as condições sociais da população e fortalecer o dinamismo econômico do município, conciliando tais aspectos com a preservação ambiental, fundamental para o aproveitamento das potencialidades locais e para a manutenção da qualidade de vida. A partir desse conceito, compreende-se, segundo Martins (2002), que o desenvolvimento local não se configura como um modelo predefinido e aplicável indistintamente a qualquer realidade, mas como uma abordagem orientada por princípios humanos, sociais e ambientais. Nesse sentido, um dos principais desafios consiste em construir uma concepção de desenvolvimento que tenha como finalidade a ampliação do bem- estar social em suas diferentes dimensões, incluindo os aspectos psicossociais, ambientais e econômicos. Um dos elementos inovadores do desenvolvimento endógeno consiste no fato de que a construção das estratégias de desenvolvimento passa a ser realizada pelos próprios agentes locais, em contraposição a modelos baseados em decisões centralizadas (Amaral Filho, 1996). Corroborando essa perspectiva, Buarque (1999) destaca que práticas consistentes de desenvolvimento local, ou endógeno, geralmente emergem de um contexto político e social favorável, marcado pela organização e pelo envolvimento dos atores locais em torno de objetivos e diretrizes comuns. Nesse sentido, o desenvolvimento local resulta de um esforço coletivo da comunidade, capaz de proporcionar apoio e legitimidade política a programas e iniciativas voltados à mobilização de recursos e à promoção de mudanças no território. O progresso local, portanto, decorre de ações articuladas e coordenadas que podem contribuir para superar situações de estagnação econômica e social e impulsionar transformações na realidade local. Embora não deva se restringir à dimensão econômica, o desenvolvimento local não pode desconsiderar a importância das atividades produtivas. Em municípios e regiões economicamente vulneráveis, torna-se necessário fortalecer a economia local por meio de atividades estruturadas e capazes de gerar emprego, renda e dinamismo econômico, ampliando sua inserção em diferentes escalas de mercado (Buarque, 2008). No contexto brasileiro, especialmente no Nordeste, Buarque (2008) ressalta que as iniciativas de desenvolvimento local enfrentam limitações relacionadas à fragilidade da base econômica. Essa situação contribui para a reduzida efetividade de políticas de combate à pobreza e de desenvolvimento rural e local, que, em determinados contextos, apresentam baixo impacto na formação e no fortalecimento de uma estrutura produtiva capaz de sustentar o desenvolvimento. Ainda segundo Buarque (2008), as iniciativas voltadas ao desenvolvimento local devem apoiar-se em, pelo menos, três eixos fundamentais: a articulação da sociedade, que contribui para a construção do capital social; o fortalecimento da cadeia produtiva, por meio da mobilização e ampliação da capacidade competitiva das atividades econômicas com potencialidades locais; e a reorganização e o aprimoramento do poder público local, com vistas à descentralização das decisões e à melhoria da capacidade administrativa e de gestão municipal. Figura 1 – Pilares do desenvolvimento local Fonte: Buarque (2008) A Figura 1 sintetiza a relação entre os diferentes elementos que compõem o desenvolvimento local. A organização da sociedade contribui para a mobilização da população e para a definição das prioridades das políticas locais. A dinâmica econômica, por sua vez, está relacionada ao fortalecimento da capacidade produtiva, à geração de valor e à ampliação das oportunidades econômicas. Já a atuação do poder público envolve a capacidade administrativa e financeira necessária à implementação de políticas e ações voltadas à melhoria das condições de vida da população. Nesse processo, a articulação entre qualidade de vida, eficiência econômica, distribuição de ativos sociais, organização da sociedade e atuação do poder público é fundamental para que os benefícios do desenvolvimento sejam ampliados e distribuídos de forma mais equilibrada. Como destaca Buarque (2008, p. 27), esses elementos não atuam isoladamente, mas dependem de sua articulação para a consolidação do desenvolvimento local. No âmbito local, as estratégias de desenvolvimento também estão sujeitas à atuação de agentes externos e à disputa por recursos e interesses. Segundo Goulart (2006), os territórios podem se tornar espaços de disputa entre diferentes agentes, cuja capacidade de influência tende a aumentar de acordo com seus recursos tecnológicos e seu poder de coordenação política e econômica. Nesse contexto, a capacidade de organização e articulação dos atores locais torna-se relevante para a definição das prioridades e estratégias de desenvolvimento. Nessa perspectiva, Buarque (1999) afirma que os diferentes grupos e setores sociais constituem conjuntos relativamente homogêneos a partir de suas posições nas esferas econômica e sociocultural. Por meio de práticas e interesses comuns, esses grupos constroem identidades e espaços de influência relacionados às suas perspectivas de mundo. A participação desses atores, portanto, torna-se fundamental para a construção de estratégias de desenvolvimento local. O planejamento, nesse contexto, assume dimensões simultaneamente técnicas e políticas. Para Buarque (1999), essa perspectiva implica uma transformação da função dos técnicos na identificação das prioridades do desenvolvimento e exige estruturas capazes de promover o envolvimento e a mobilização da sociedade na definição das escolhas. A articulação entre conhecimento técnico e participação social permite a construção de um projeto comum, socialmente reconhecido e capaz de envolver os diferentes segmentos da sociedade e os representantes do poder público. Dessa forma, o desenvolvimento local deve ser compreendido como um processo multidimensional, que articula aspectos econômicos, sociais, políticos, ambientais e territoriais. A participação dos diferentes segmentos da sociedade, o fortalecimento das atividades produtivas e a atuação do poder público constituem elementos fundamentais para a construção de estratégias compatíveis com as especificidades de cada território. Essa abordagem oferece suporte à análise da dinâmica econômica e dos limites ao desenvolvimento local do município de Quixelô, Ceará. 3 METODOLOGIA A pesquisa caracteriza-se como uma revisão de literatura, de caráter descritivo e exploratório, realizada por meio de pesquisa bibliográfica e documental, com abordagem qualitativa. O estudo tem como objeto o município de Quixelô, localizado na região Centro- Sul do Ceará, considerando suas especificidades históricas, econômicas e socioeconômicas. Para a fundamentação teórica, foram consultados livros, artigos científicos e materiais institucionais relacionados ao desenvolvimento local. A caracterização do município foi realizada a partir de dados secundários e documentos disponíveis em fontes oficiais, especialmente o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) e a Prefeitura Municipal de Quixelô, além de publicações jornalísticas regionais utilizadas para informações históricas e culturais. As informações levantadas foram organizadas e analisadas de forma descritiva, considerando aspectos demográficos e territoriais, econômicos e produtivos, sociais, históricos e culturais. A análise buscou articular as informações sobre Quixelô à discussão teórica acerca do desenvolvimento local, destacando suas principais características, potencialidades e desafios. Como limitação, destaca-se a defasagem temporal de alguns indicadores socioeconômicos, especialmente o índice de Gini, cujo dado disponível para o município corresponde ao ano de 2003. Ainda assim, as fontes consultadas possibilitaram reunir informações relevantes para a caracterização do município e para a discussão de suas possibilidades de desenvolvimento local. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 Quixelô e suas transformações históricas, sociais, políticas e econômicas Situado na região Centro-Sul do Ceará, o município de Quixelô apresenta uma trajetória histórica caracterizada por significativas mudanças nos âmbitos social, cultural, político e econômico. Conhecido anteriormente como Bom Jesus de Quixelô, o território manteve vínculo administrativo com o município de Iguatu até o ano de 1985, quando sua independência política foi aprovada por meio de plebiscito. Ainda que a autonomia administrativa tenha assegurado independência, os vínculos históricos, econômicos e culturais com Iguatu permanecem (Prefeitura Municipal de Quixelô, 2026). Os dados demográficos e territoriais do município são apresentados na Tabela 1. Tabela 1- Caracterização demográfica e territorial do município de Quixelô (CE) Indicadores Valor Ano Área territorial (km2) 620, 242 km2 2025 População (Censo) 15.910 habitantes 2022 Densidade demográfica 26,28 hab./ km2 2022 Cor ou raça da população (Censo 2022) Branca Preta Amarela Parda Indigena 5.669 485 8 9.738 10 2022 2022 2022 2022 2022 Fonte: Elaborada pela autora (2026), com base em dados IBGE-Cidades e Estados Na Tabela 1, constam os dados demográficos e territoriais que caracterizam o município de Quixelô (CE). Com 15.910 habitantes e extensão territorial de 620,242 km², Quixelô apresenta densidade demográfica de 26,28 hab./km². Quanto à composição da população por cor ou raça, a maioria se autodeclara parda, seguida pela branca, ao passo que as categorias preta, indígena e amarela aparecem em proporções reduzidas. A partir desses dados, torna-se possível compreender aspectos da estrutura populacional do município e discutir suas características socioeconômicas, que moldam o desenvolvimento de Quixelô. As raízes históricas de Quixelô estão ligadas aos povos indígenas que habitavam a região antes da chegada dos colonizadores. O nome Quixelô é de origem indígena e carrega o significado de “lugar onde se faz cerâmica”, representando um dos principais elementos da identidade local. Apesar de a colonização ter fomentado a narrativa de extinção desses povos, os registros disponíveis e a presença de seus descendentes contradizem essa perspectiva. Cabe ressaltar, nesse sentido, o reconhecimento formal dos Kariri-Quixelôs, descendentes diretos desse povo, que preservam sua ligação com o território, reafirmando a necessidade de valorizar a herança indígena como elemento da construção da identidade quixeloense (Prefeitura Municipal de Quixelô, 2026). Conforme informações da Prefeitura Municipal de Quixelô, o município, além de sua relevância histórica, também revela um patrimônio cultural significativo, influenciado por suas origens indígenas e pelas experiências coletivas que se sedimentaram ao longo do tempo. Destaca-se, nesse cenário, a atuação de artistas, artesãos, poetas e agentes culturais que desempenham um papel ativo tanto na preservação quanto na reinvenção das manifestações culturais do município. As festividades populares, as celebrações religiosas e os eventos tradicionais cumprem papel central na preservação da memória coletiva e na afirmação da identidade cultural local, o que evidencia a cultura como um dos pilares centrais na constituição e na reprodução da vida social. Nesse contexto, destacam-se, em Quixelô, o Quiforró e a Festa de São Francisco, eventos que ocupam lugar central no calendário cultural do município e traduzem, na prática, essa afirmação identitária. O Quiforró, criado em 1997, é realizado anualmente no mês de junho e consolidou-se como o evento cultural mais tradicional do município de Quixelô. A festa reúne mais de 20 mil pessoas vindas de toda a região, reunindo famílias, visitantes e artistas locais e nacionais. Além de sua dimensão cultural, o evento movimenta significativamente a economia local, beneficiando comerciantes, ambulantes e pequenos empreendedores, contribuindo para a geração de emprego e renda no município (Klisma, 2024). A festa também se destaca por sua dimensão solidária, ao adotar a entrada em troca de alimentos, posteriormente distribuídos às famílias carentes de Quixelô. O evento ainda conta com apresentações de quadrilhas juninas, cada vez mais elaboradas, e feiras de artesanato e culinária regional, fatores que reforçam o potencial turístico do município e beneficiam economicamente as costureiras locais. Diante de sua importância cultural e econômica, o evento é objeto de projeto de lei que visa à sua inclusão no Calendário Oficial de Eventos do Estado. O evento pode ser visualizado na Figura 2, que registra a abertura do Quiforró 2025. Figura 2 – Abertura do Quiforró, em 2025 Fonte: Prefeitura de Quixelô (2025) Outra manifestação cultural e religiosa de destaque no município é a Festa de São Francisco de Assis, que, de acordo com fontes diocesanas e jornalísticas locais (Mais FM, 2018; Diocese de Iguatu, 2021), remonta a 1904, ano de sua introdução por iniciativa do monsenhor José Coelho. Realizada há mais de um século, a festa é anterior à restituição da paróquia local, extinta ao longo do tempo e restabelecida apenas em 1921 pelo primeiro bispo diocesano do Crato, Dom Quintino. Embora o padroeiro oficial seja Bom Jesus Piedoso, celebrado em 1º de janeiro, é a Festa de São Francisco que reúne o maior número de devotos no município. Em 2024, a programação incluiu novenário e missas, celebradas com intensa participação dos devotos, tendo como tema “Com São Francisco, somos cristãos, sujeitos na Igreja em saída, a favor do Reino” (Mais FM, 2018). Segundo o padre João Teixeira, responsável pela paróquia de Quixelô, a celebração constitui uma manifestação de fé crescente, sendo o novenário um momento de fortalecimento espiritual e de caminhada firme da comunidade (Mais FM, 2018). A procissão de encerramento pode ser visualizada na Figura 3, que registra o encerramento dos festejos de São Francisco em Quixelô, em 2018. Figura 3 - Procissão de encerramento dos festejos de São Francisco em Quixelô, 2018 Fonte: Mais FM (2018) Do ponto de vista econômico, a trajetória de Quixelô revela um processo contínuo de adaptações em resposta às mudanças ocorridas no contexto regional. Por décadas, a cotonicultura sustentou a economia local, até ser gravemente afetada pela expansão da praga do bicudo, que devastou a produção algodoeira em todo o Nordeste (Quixelô, 2026). Diante desse quadro, outras atividades produtivas ganharam relevância na economia municipal, com destaque para o cultivo do arroz e a criação de gado leiteiro. Ao mesmo tempo, a oferta de recursos hídricos assegurada pelo Açude Orós e pelos demais reservatórios do município impulsionou a expansão da irrigação, da pesca e de iniciativas produtivas vinculadas ao setor rural, elementos que se mostram fundamentais tanto para a sustentação da economia local quanto para o desenvolvimento progressivo do município, conforme dados da Prefeitura Municipal de Quixelô. Os principais indicadores econômicos do município são apresentados na Tabela 2. A Tabela 2 permite visualizar os principais indicadores econômicos do município de Quixelô (CE), proporcionando uma visão geral da estrutura econômica e das principais atividades produtivas do município. Nota-se que o setor de serviços representa a maior participação no Valor Adicionado Bruto (62,08%), seguido pela agropecuária (35,67%), enquanto a indústria apresenta participação pouco expressiva (2,25%), o que reforça o caráter pouco diversificado da estrutura produtiva local. Ademais, os indicadores relacionados à produção agropecuária, como o rebanho bovino de 50 mil cabeças e a produção leiteira de 39 milhões de litros, confirmam a importância desse setor para a geração de renda e para a dinâmica econômica municipal, corroborando a contextualização apresentada anteriormente. Tabela 2 – Indicadores econômicos de Quixelô, Ceará Indicadores Valor Ano PIB (R$ mil) R$ 241.297 2023 PIB per capita (R$) R$ 14.171 2023 Participação da agropecuária no VAB 35,67 2021 (%) Participação da indústria no VAB (%) 2,25 2021 Participação dos serviços no VAB (%) 62,08 2021 Rebanho Bovino (cabeças) 50.000 2024 Produção de leite (mil litros) 39.000 2024 Produção do arroz (t) 95 2024 Produção do milho (t) 1.254 2024 Produção de feijão (t) 87 2024 Fonte: Elaborado pela autora (2026), com base em dados do IBGE Cidades e IPECE – Perfil Municipal de Quixelô. Além da estrutura produtiva, torna-se necessário observar os indicadores sociais do município, apresentados na Tabela 3, que permitem avaliar em que medida refletem as condições de vida da população e complementam a caracterização do desenvolvimento local. Tabela 3 – Indicadores sociais de Quixelô (CE) Indicadores Valor Ano IDHM 0,591 2010 Índice de Gini 0,43 2003 Mortalidade infantil (%) 26,49 2023 Taxa de escolarização (6 a 14 anos) (%) 99,79 2022 Médicos por mil habitantes 1,8 2025 Total de empregos formais 299 2024 Consumidores de energia elétrica – Residencial (%) 62,96 2025 Consumidores de energia elétrica - Rural (%) 34,13 2025 Fonte: Elaborada pela autora (2026), com base em dados do IBGE e IPECE – Perfil Municipal de Quixelô1 . 1 O índice de Gini de Quixelô, disponibilizado pelo IBGE Cidades, tem como ano de referência 2003, não havendo atualização mais recente disponível na base consultada até a data de elaboração deste trabalho. Os dados sociais expostos na Tabela 3 revelam um cenário de desenvolvimento humano ainda pouco consolidado no município. Com IDHM de 0,591, Quixelô apresenta baixo desenvolvimento humano, enquanto o índice de Gini de 0,43 aponta um grau moderado de desigualdade na renda, embora esse dado remonte a 2003, o que limita sua atualidade. No âmbito da saúde, a taxa de mortalidade infantil de 26,49% e a disponibilidade de 1,8 médico por mil habitantes apontam deficiências estruturais no acesso aos serviços. Por outro lado, a taxa de escolarização de 99,79% entre crianças de 6 a 14 anos demonstra elevada cobertura do ensino fundamental. Sobre o mercado de trabalho, os 299 vínculos formais contabilizados em 2024 revelam uma limitada geração de emprego formal, proporcional ao porte populacional de Quixelô. Por último, a distribuição dos consumidores de energia elétrica, sendo 62,96% residenciais e 34,13% rurais, confirma a importância contínua do meio rural na estrutura socioeconômica do município, dialogando com os dados apresentados na Tabela 2. Em conjunto, os indicadores apresentados nesta seção revelam que, embora Quixelô tenha reorganizado sua base produtiva após o declínio da cotonicultura, consolidando-se em torno da pecuária leiteira, do arroz e das atividades vinculadas aos recursos hídricos de Orós, essa mudança na base econômica ainda não superou obstáculos significativos no âmbito social, principalmente quanto ao acesso à saúde e à geração de emprego formal. Tal panorama reforça o entendimento de Buarque (2008) e Amaral Filho (1996), para os quais o desenvolvimento local não é consequência direta do crescimento econômico ou da diversificação da produção, mas, sim, da capacidade do território de transformar sua estrutura produtiva em ganhos concretos para a qualidade de vida da população. 5 CONCLUSÕES A discussão realizada ao longo deste trabalho evidencia que o desenvolvimento local deve ser compreendido como um processo que ultrapassa o crescimento econômico, incorporando as dimensões sociais, culturais, políticas e territoriais. Nessa perspectiva, as características e especificidades de cada território assumem importância na definição de suas possibilidades de desenvolvimento, especialmente quando suas potencialidades são articuladas às necessidades da população e à atuação dos diferentes agentes locais. No caso de Quixelô, sua trajetória revela um território marcado por importantes transformações históricas, políticas, culturais e econômicas. A formação de sua identidade está relacionada à presença de elementos históricos e culturais, como a herança indígena, as manifestações populares e as tradições religiosas, que permanecem presentes na dinâmica social do município. Essas características constituem elementos importantes para a valorização do território e podem contribuir para o fortalecimento de iniciativas voltadas ao desenvolvimento local. No âmbito econômico, observa-se a permanência da importância das atividades rurais, especialmente da pecuária leiteira e da produção agrícola, ao mesmo tempo em que o setor de serviços apresenta participação significativa na economia municipal. A trajetória da produção local também demonstra processos de adaptação diante das transformações econômicas, como ocorreu com o declínio da cotonicultura e a posterior ampliação de outras atividades produtivas. Esse processo evidencia a capacidade de reorganização da economia municipal, embora ainda permaneça uma estrutura produtiva relativamente pouco diversificada. Por outro lado, os indicadores apresentados apontam desafios que limitam a consolidação de melhores condições de desenvolvimento. A reduzida quantidade de empregos formais, as limitações na oferta de serviços e alguns indicadores sociais revelam dificuldades que não podem ser dissociadas da própria estrutura econômica do município. Assim, a existência de atividades produtivas e de recursos territoriais não garante, por si só, a melhoria das condições de vida da população. Nesse sentido, as potencialidades de Quixelô encontram-se tanto em sua base produtiva quanto em seus recursos culturais, históricos e territoriais. Entretanto, sua transformação em oportunidades efetivas de desenvolvimento requer articulação entre os diferentes atores locais, fortalecimento das atividades econômicas, valorização das características próprias do território e atuação do poder público na promoção de condições mais favoráveis à geração de emprego, renda e bem-estar social. Portanto, a realidade de Quixelô demonstra que pensar o desenvolvimento local exige considerar simultaneamente as potencialidades e as limitações presentes no território. A valorização de sua trajetória histórica, de sua identidade cultural e de sua base produtiva pode contribuir para a construção de alternativas de desenvolvimento mais compatíveis com as características do município e com as necessidades de sua população. REFERÊNCIAS AMARAL FILHO, Jair do. Desenvolvimento regional endógeno em um ambiente federalista. Planejamento e Políticas Públicas, n. 14, dez. 1996. BUARQUE, Sérgio C. 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Abrir o trabalhoPalavras-chave: Câncer de Mama,Determinantes Sociais da Saúde,Desigualdades Territoriais,Acesso à Saúde,Ceará
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Abrir o trabalhoDESIGUALDADE SALARIAL DE GÊNERO NO NORDESTE BRASILEIRO: UMA ANÁLISE POR COORTES NO MERCADO FORMAL, 2010-2019
FRANCISCO CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA LEITE
DESIGUALDADE SALARIAL DE GÊNERO NO NORDESTE BRASILEIRO: UMA ANÁLISE POR COORTES NO MERCADO FORMAL, 2010-2019 Área Temática: Área 5 - Trabalho, Sociedade, Demografia e Políticas Públicas Resumo: Este artigo analisa o hiato salarial de gênero no mercado formal privado do Nordeste brasileiro entre 2010 e 2019. Utilizando microdados da RAIS, o estudo examina diferenças salariais entre homens e mulheres, e explora a heterogeneidade geracional por meio de coortes de nascimento decenais. Metodologicamente, a análise emprega a decomposição Oaxaca-Blinder para distinguir a parcela do hiato associada às características observáveis daquela relacionada a diferenças nos retornos a essas características. Os resultados mostram que o diferencial salarial de gênero está presente em todas as coortes analisadas, embora sua magnitude diminua entre as gerações mais jovens. Em todas elas, a parcela explicada do hiato é negativa, indicando que as características observáveis das mulheres, em especial a escolaridade, tenderiam a reduzir a diferença salarial. Ainda assim, a parcela inexplicada permanece positiva em todas as coortes, sugerindo persistência de retornos salariais mais favoráveis aos homens, mesmo quando se comparam trabalhadores com atributos semelhantes. A inclusão de controles ocupacionais não elimina esse padrão, o que indica que a segregação ocupacional importa, mas não esgota a explicação do diferencial salarial de gênero no mercado formal nordestino. Os resultados sugerem que a expansão educacional, embora relevante, não foi suficiente para eliminar a desigualdade salarial, o que reforça a necessidade de políticas que enfrentem também os retornos desiguais e a segmentação do mercado de trabalho. Palavras-chave: Desigualdade salarial de gênero; Mercado de trabalho formal; Nordeste; Decomposição Oaxaca-Blinder; Expansão educacional. INTRODUÇÃO A desigualdade salarial entre homens e mulheres permanece como uma característica persistente do mercado de trabalho, mesmo em contextos de expansão educacional. A teoria do capital humano estabeleceu que diferenças de escolaridade, treinamento e experiência afetam os rendimentos (Schultz, 1961; Mincer, 1974), mas essa explicação se torna insuficiente quando mulheres com atributos produtivos semelhantes continuam recebendo menos do que homens (Mohanty, 2021). Por essa razão, a literatura sobre do hiato salarial de gênero passou a incorporar, além do capital humano, mecanismos ligados à segregação ocupacional e setorial, às penalidades associadas ao trabalho de cuidado e às diferenças de retorno a características observáveis entre homens e mulheres (Becker, 2010; Blinder, 1973; Bergmann, 1974). No caso brasileiro, esse debate se intensifica porque o avanço feminino em escolaridade foi expressivo nas últimas décadas, porém não foi acompanhado pela eliminação das desigualdades salariais. Estudos para o país mostram que parte importante do diferencial de rendimentos persiste mesmo entre trabalhadores com características semelhantes (Cavalieri e Fernandes, 1998; Araújo e Ribeiro, 2002; Almeida et al., 2022). Em outras palavras, a maior escolarização feminina não tem sido suficiente para garantir remuneração equivalente. Essa discussão ganha contornos específicos quando se considera a dimensão regional. As desigualdades de gênero não se manifestam de forma homogênea no território brasileiro, pois os mercados de trabalho diferem em estrutura produtiva, composição ocupacional, níveis salariais e oportunidades de inserção. O Nordeste é um caso relevante nesse debate, pois além de apresentar rendimentos médios inferiores aos das regiões mais dinâmicas do país, a região combina forte heterogeneidade produtiva, maior peso relativo de ocupações menos valorizadas e desigualdades distributivas persistentes (Oliveira, Machado e Mattos, 2020). Além disso, a desigualdade salarial de gênero não é necessariamente estática entre gerações. Mudanças na expansão educacional, na estrutura ocupacional e no ambiente institucional não afetam todos os trabalhadores da mesma forma, pois diferentes coortes ingressam no mercado de trabalho sob condições históricas distintas (Mohanty, 2021). Assim, uma análise por coorte permite verificar se o avanço educacional feminino foi acompanhado por redução do hiato salarial entre gerações ou se a desigualdade persiste ao longo do tempo (Bar-Haim et al., 2018). É nesse ponto que se insere este artigo. O objetivo do presente estudo é analisar o hiato salarial de gênero no mercado formal do Nordeste brasileiro entre 2010 e 2019, com base nos microdados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). O foco no emprego formal permite examinar um segmento em que vínculos, rendimentos e características ocupacionais são registrados de forma sistemática, o que torna possível investigar com maior precisão a estrutura do diferencial salarial. A partir dos vínculos observados entre 2010 e 2019, os trabalhadores são agrupados em coortes de nascimento, permitindo comparar gerações que ingressaram no mercado de trabalho sob condições educacionais e institucionais distintas. Metodologicamente, o artigo utiliza a decomposição Oaxaca-Blinder para separar a parcela do hiato associada às características observáveis daquela relacionada a diferenças nos retornos a essas características. A contribuição do estudo está em oferecer evidência sobre a desigualdade salarial de gênero para o Nordeste brasileiro, um recorte ainda menos explorado na literatura nacional acerca do tema. Além disso, o estudo incorpora a dimensão de coorte à análise do diferencial salarial regional, permitindo investigar se a estrutura do hiato muda entre gerações. Por fim, a análise considera a inserção ocupacional dos trabalhadores, avaliando em que medida a composição por ocupações contribui para o diferencial observado. A hipótese central é que o avanço educacional feminino não elimina, por si só, a desigualdade salarial no mercado formal nordestino. Assim, mesmo que as mulheres apresentem características observáveis mais favoráveis em algumas coortes, o diferencial de rendimentos pode persistir devido à parcela não explicada do hiato, associada a atribuição de retornos desiguais entre homens e mulheres. De fato, os resultados indicam que a desigualdade salarial de gênero persiste no mercado formal nordestino em todas as coortes analisadas, ainda que com menor intensidade entre as gerações mais jovens. Embora as mulheres apresentem, em média, escolaridade mais elevada, recebem salários inferiores aos dos homens, e esse padrão permanece mesmo quando se leva em conta a inserção ocupacional. A persistência do hiato, portanto, está menos ligada à ausência de atributos produtivos entre as mulheres do que à forma desigual como suas qualificações são convertidas em rendimentos. REFERENCIAL TEÓRICO A teoria do capital humano fornece o ponto de partida para a análise dos diferenciais salariais. Segundo essa abordagem, escolaridade, treinamento e experiência elevam a produtividade e, por consequência, os rendimentos ao longo do ciclo de vida (Schultz, 1961; Mincer, 1974). Aplicada à diferença salarial entre homens e mulheres, a previsão é que hiato se estreite à medida que as mulheres acumulam qualificação equivalente à dos homens. No Brasil, porém, o forte avanço não foi acompanhado pela eliminação do diferencial de rendimentos, o que expõe os limites de uma explicação baseada apenas em atributos produtivos (Cavalieri e Fernandes, 1998; Araújo e Ribeiro, 2002). Diante dessa insuficiência, a literatura passou a incorporar mecanismos que operam do lado da demanda. A segregação ocupacional é central nessa leitura, pois homens e mulheres não se distribuem de maneira uniforme entre ocupações e setores, e as ocupações com maior presença feminina tendem a ser remuneradas abaixo de ocupações comparáveis com maior presença masculina, mesmo após o controle por qualificação (Bergman, 1974; England, 19992; Levanon, England e Allison, 2009). Um segundo mecanismo diz respeito à estrutura de recompensas dentro das ocupações mais bem pagas. Goldin (2014) argumenta que muitos postos de alta remuneração premiam de forma desproporcional jornadas longas e contínuas, de modo que os rendimentos crescem mais que proporcionalmente com o tempo dedicado ao trabalho. Como as mulheres arcam com a parcela maior de reponsabilidades domésticas e de cuidado, essa relação penaliza sua progressão justamente nos segmentos de maior remuneração. Esse tipo de barreira, discutido na literatura sob a noção de teto de vidro, sugere que a desigualdade de gênero pode se estruturar de forma distinta ao longo da distribuição salarial (Mohanty, 2021). A desigualdade salarial de gênero também não é estática entre as gerações. Coortes que ingressaram no mercado de trabalho em momentos distintos enfrentaram condições educacionais e institucionais diferentes, o que pode alterar tanto a magnitude quanto a composição do hiato (Bar-Haim et al., 2018). Essas dimensões, que não se esgotam nessa discussão, assumem contornos próprios quando se considera o recorte regional. Os mercados de trabalho brasileiros diferem em estrutura produtiva, composição ocupacional e níveis salariais, e as desigualdades de gênero não se manifestam de modo homogêneo no território (Oliveira, Machado e Mattos, 2020). É nesse cruzamento entre gênero, geração e território Nordestino que o presente estudo se situa. A análise do presente estudo utiliza microdados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) para o período de 2010 a 2019, com foco nos vínculos empregatícios localizados nos nove estados do Nordeste. Por reunir informações anuais sobre remuneração, características do trabalhador, ocupação e vínculo, a RAIS oferece uma base adequada para examinar diferenciais salariais no mercado de trabalho formal. A amostra foi construída a partir dos vínculos ativos em 31 de dezembro de cada ano, pertencentes ao setor privado, com idade entre 18 e 64 anos, remuneração positiva em dezembro e jornada contratada igual ou superior a 20 horas semanais. A restrição ao setor privado procura reduzir a influência de regras remuneratórias próprias do setor público, marcadas por estruturas salariais e formas de progressão distintas. Já a seleção dos vínculos ativos no fim do ano amplia a comparabilidade entre as observações, ao concentrar a análise em relações de trabalho vigentes na data de referência. Além disso, considerou-se, apenas, os indivíduos com informações de raça e gênero identificadas. Após a aplicação dos filtros, a base final totaliza mais de 50 milhões no período, com média anual de 5 milhões de vínculos. Como os registros não são identificados, as informações configuram-se em um conjunto de cortes transversais repetidos do emprego formal na região. Para obter o salário-hora, é realizada a razão entre a remuneração de dezembro e a jornada de trabalho contratada mensal. Em seguida, os valores foram deflacionados pelo IPCA, tomando 2019 como ano-base, para que todos os rendimentos sejam expressos em preços constantes. Entre as covariáveis, incluem-se idade e idade ao quadrado, para captar o perfil não linear dos rendimentos ao longo do ciclo de vida laboral, e tempo de emprego no vínculo atual, medido em meses, como aproximação da permanência no posto de trabalho. Uma variável importante para determinar o salário é a escolaridade (Mincer, 1974). Nesta pesquisa, ela é considera em quatro grupos: fundamental, médio, superior e pós-graduação), de modo a preservar a hierarquia educacional relevante para a determinação dos salários sem fragmentar excessivamente a amostra. Por sua vez, a variável de raça/cor foi recodificada em uma dummy que distingue trabalhadores negros e não negros, sendo considerados negros os indivíduos classificados como pretos ou pardos. A ocupação é incorporada à análise porque parte do diferencial salarial de gênero pode refletir a distribuição desigual entre postos de trabalho com distintos níveis de remuneração (Foliano et al., 2024). Para isso, utiliza-se o grande grupo da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), construído a partir do primeiro dígito da ocupação informada. Na amostra analisada, os grupos observados vão de 1 a 9, correspondendo aos grandes grupos ocupacionais civis. O grupo 0 não aparece na base final, o que é compatível com a restrição da amostra ao setor privado. Por fim, a dimensão geracional é incorporada por meio da coorte de nascimento, construída pela diferença entre ano de observação e idade do trabalhador. As 5 coortes foram agrupadas em intervalos de dez anos, a saber: 1952-1961, 1962-1971, 1972-1981, 1982-1991 e 1992-2001. A escolha desses blocos atende, em primeiro lugar, à necessidade de manter tamanho amostral elevado em cada grupo, e, sobretudo, ela permite distinguir gerações cuja transição entre educação e trabalho ocorreu sob contextos bastante diferentes de acesso ao ensino superior. Esse recorte é relevante porque a expansão do ensino superior no Brasil se intensificou a partir de meados dos anos 2000 (o REUNI foi instituído em 2007), acompanhado por forte crescimento das matrículas de graduação ao longo da década e pela ampliação da presença feminina no ensino superior. O agrupamento decenal ajuda a separar coortes que chegaram à idade típica de ingresso no ensino superior em momentos distintos desse processo. As gerações mais jovens atravessaram essa fase já sob a expansão mais avançada do acesso, enquanto as mais antigas realizaram sua transição educacional e laboral sob menor cobertura relativa. A Tabela 1 apresenta as estatísticas descritivas das principais variáveis. O diferencial salarial de gênero está presente em todas as coortes analisadas, embora sua magnitude diminua entre as gerações mais jovens. As mulheres apresentam maior participação nos níveis médio, superior e de pós-graduação, enquanto os homens concentram proporções mais elevadas no nível fundamental, sobretudo nas coortes mais velhas. Ainda assim, essa vantagem educacional feminina não se traduz em remuneração superior. A composição ocupacional também difere entre homens e mulheres. Os homens estão relativamente mais concentrados em ocupações ligadas à produção de bens e serviços industriais, atividades agropecuárias e reparação e manutenção, enquanto as mulheres apresentam maior participação em serviços administrativos, vendas, ciências e artes e ocupações de nível técnico médio. Em termos raciais, a proporção de trabalhadores negros é elevada em todas as coortes e para ambos os sexos, o que reforça o contexto estrutural do mercado formal nordestino. O presente artigo analisa o diferencial salarial de gênero no mercado formal do Nordeste brasileiro por meio da decomposição de Oaxaca-Blinder (Blinder, 1973; Oaxaca, 1973). O objetivo é separar a parcela do hiato salarial médio associada a diferenças nas características observáveis entre homens e mulheres da parcela associada a diferenças nos retornos a essas mesmas características. Essa estratégia é adequada ao problema em estudo porque permite ir além da simples comparação entre salários médios e investigar se o diferencial decorre de composição produtiva distinta ou de retornos atribuídos de forma desigual no mercado de trabalho. Tabela 1 - Estatísticas descritivas por coorte Variável Coorte 1952-1961 Coorte 1962-1971 Coorte 1972-1981 Coorte 1982-1991 Coorte 1992-2001 Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Nº de observações 2.134.776 793.375 5.348.916 2.613.985 9.505.304 5.222.763 11.694.107 7.110.425 3.873.721 2.472.699 Salário-hora - média R$ 18,97 R$ 15,75 R$ 13,78 R$ 11,73 R$ 11,79 R$ 10,61 R$ 9,64 R$ 8,99 R$ 7,03 R$ 6,83 Salário-hora - mediana R$ 8,56 R$ 6,85 R$ 7,87 R$ 6,43 R$ 7,59 R$ 6,43 R$ 6,85 R$ 6,1 R$ 5,99 R$ 5,90 Tempo de emprego 101 117 68 76 44 46 27 29 16 17 Fundamental (%) 46,1% 24,4% 42,3% 20,2% 33,8% 13,4% 25,2% 7,5% 19,5% 4,7% Médio (%) 42,8% 52,7% 49,0% 59% 56,7% 64,6% 64,9% 70,8% 74,3% 82,6% Superior (%) 10,6% 21,9% 8,4% 19,7% 9,19% 21,4% 9,77% 21,4% 6,2% 12,6% Pós-graduação (%) 0,4% 1,0% 0,3% 1,1% 0,3% 0,6% 0,13% 0,3% 0,0% 0,04% Negro (%) 69% 64% 72% 67% 74% 70% 75% 72% 79% 77% Dirigentes (%) 4,7% 5,5% 4,0% 5,2% 3,4% 4,9% 2,2% 3,4% 1,1% 1,4% Ciências e artes (%) 4,8% 12,5% 3,3% 11,1% 3,8% 11,1% 3,8% 9,6% 1,6% 3,6% Técnicos nível médio (%) 6,3% 11,8% 5,8% 12,0% 6,5% 11,8% 7,1% 10,1% 5,9% 7,5% Serviços administrativos (%) 11,9% 26,4% 10,1% 24,8% 10,8% 27,2% 14,9% 36,0% 21,9% 47,6% Vendedores (%) 23,7% 32,1% 27,9% 34,17% 26,9% 32,5% 26,6% 29,8% 28,2% 29,8% Agropecuários (%) 8,2% 1,1% 8,5% 1,4% 7,8% 1,2% 6,8% 0,8% 6,9% 0,8% Bens e serviços industriais (%) 32,5% 8,1% 31,9% 8,5% 32,2% 8,9% 30,4% 8,6% 29,8% 7,9% Reparação e manutenção (%) 3,9% 1,5% 4,5% 1,6% 4,7% 1,6% 4,7% 1,2% 4,1% 0,8% Elementares (%) 4,0% 1,0% 4,0% 1,0% 4,0% 1,0% 3,0% 0,0% 0,0% 0,1% Fonte: elaboração dos autores a partir da RAIS, 2026. A variável dependente é o logaritmo do salário-hora real de dezembro, expresso em preços de 2019. A opção pelo logaritmo acompanha a tradição das equações salariais e reduz a assimetria da distribuição dos rendimentos, além de permitir interpretar os diferenciais de forma aproximada em termos percentuais (Mincer, 1974). Na decomposição, tomando os retornos masculinos como referência, diferencial salarial médio entre homens e mulheres pode ser escrito conforme a equação (1). lnw ̂_h- lnw ̂_m=(X ̅_h - X ̅_m ) β ̂_h+( β ̂_h- β ̂_m ) X ̅_m (1) Em que h denota homens e m mulheres, X ̅ representa as médias das características observáveis e β ̂ os coeficientes estimados para cada grupo. O primeiro termo, (X ̅_h - X ̅_m ) β ̂_h corresponde a parcela explicada (diferença salarial atribuída às diferenças nas características entre homens e mulheres, avaliadas aos retornos masculinos); o segundo termo, ( β ̂_h- β ̂_m ) X ̅_m, corresponde a parcela não explicada (a diferença nos retornos que homens e mulheres recebem por características equivalentes (Yemelina, Kemelbayeva e Roshchin, 2024). Os componentes detalhados das variáveis categóricas são normalizados segundo Gardeazabal e Ugidos (2004), o que os torna invariantes à escolha da categoria de referência. Os erros-padrão são obtidos por bootstrap em blocos, com reamostragem de municípios, de modo a levar em conta a não independência das observações ao longo dos anos. O vetor de covariáveis inclui idade, idade ao quadrado, tempo de emprego no vínculo atual, escolaridade e raça/cor. Em especificações adicionais, o modelo incorpora o grande grupo ocupacional da CBO, com o objetivo de verificar em que medida a inserção ocupacional altera a magnitude da parcela explicada e da parcela não explicada do diferencial salarial. A principal dimensão de heterogeneidade explorada no artigo é a coorte de nascimento, construída a partir da diferença entre ano de observação e idade e agrupada nos intervalos descritos na subseção de dados. As decomposições são estimadas separadamente para cada coorte, sempre com observações provenientes de toda a janela 2010-2019. Ou seja, quando se analisa a coorte 1952-1961, por exemplo, considera-se o conjunto de trabalhadores observados dessa faixa de nascimento ao longo de todo o período. Em consequência, a coorte funciona como recorte geracional da força de trabalho, enquanto o período 2010-2019 continua fornecendo a base temporal da análise. RESULTADOS E DISCUSSÃO A Tabela 2 apresenta os resultados da decomposição Oaxaca-Blinder, por coorte e componentes de decomposição. O componente reportado como explicado corresponde à parte do hiato salarial associada a diferenças nas características observáveis entre homens e mulheres, como idade e escolaridade. Quando esse componente é positivo, isso significa que as diferenças de características entre os grupos favorecem os homens e, portanto, contribui para ampliar o diferencial em favor deles. Quando esse componente é negativo, a leitura é a inversa, assim, as características observáveis das mulheres são, em média, mais favoráveis, de modo que, se os salários variassem apenas em função dessas características, o hiato seria menor do que o observado ou poderia até se inverter. Já a parcela inexplicada corresponde à parte do diferencial associada a diferenças nos retornos a essas características. Quando esse componente é positivo, ele indica que, dadas características semelhantes, os retornos salariais continuam favorecendo os homens; quando é negativo, sugere que os retornos favorecem relativamente as mulheres (Yemelina, Kemelbayeva e Roshchin, 2024). . Tabela 2 - Decomposição Oaxaca-Blinder do diferencial salarial de gênero por coorte Variável Coorte 1952-1961 Coorte 1962-1971 Coorte 1972-1981 Coorte 1982-1991 Coorte 1992-2001 Explicado Inexplicado Explicado Inexplicado Explicado Inexplicado Explicado Inexplicado Explicado Inexplicado Total -0,2371*** 0,3846*** -0,1903*** 0,3254*** -0,1623*** 0,2648*** -0,1107*** 0,1720*** -0,0286*** 0,0497*** (0,0165) (0,0211) (0,0090) (0,0204) (0,0058) (0,0179) (0,0036) (0,0120) (0,0010) (0,0062) Idade -0,0004 0,0007** 0,0002* -0,0000 -0,0008*** 0,0002** -0,0025*** 0,0005** -0,0017** 0,0002 (0,0002) (0,0003) (0,0001) (0,0000) (0,0002) (0,0001) (0,0006) (0,0002) (0,0007) (0,0002) Idade² -0,0004*** -0,0073*** -0,0003*** -0,0031*** -0,0000 -0,0049*** -0,0003*** -0,0054*** 0,0001*** -0,0051*** (0,0001) (0,0012) (0,0000) (0,0007) (0,0000) (0,0005) (0,0001) (0,0008) (0,0000) (0,0005) Tempo de emprego -0,0386*** -0,0212* -0,0162*** -0,0096 -0,0045*** -0,0153*** -0,0036*** 0,0012 -0,0010*** 0,0069*** (0,0067) (0,0109) (0,0019) (0,0104) (0,0007) (0,0056) (0,0005) (0,0031) (0,0003) (0,0018) Fundamental -0,1817*** -0,0019 -0,1771*** -0,0081 -0,1493*** -0,0025 -0,0967*** 0,0015** -0,0319*** 0,0024*** (0,0103) (0,0069) (0,0076) (0,0053) (0,0065) (0,0029) (0,0038) (0,0007) (0,0019) (0,0008) Médio 0,0544*** 0,0019 0,0614*** -0,0183*** 0,0431*** -0,0061 0,0249*** 0,0060 0,0145*** 0,0103 (0,0050) (0,0081) (0,0056) (0,0063) (0,0063) (0,0059) (0,0037) (0,0060) (0,0013) (0,0126) Superior -0,0635*** 0,0430*** -0,0536*** 0,0370*** -0,0474*** 0,0286*** -0,0308*** 0,0161*** -0,0087*** 0,0070*** (0,0053) (0,0047) (0,0041) (0,0037) (0,0034) (0,0025) (0,0024) (0,0020) (0,0007) (0,0018) Pós-graduação -0,0034*** -0,0016*** -0,0028*** -0,0007*** -0,0023*** -0,0006*** -0,0011*** -0,0003*** -0,0001*** -0,0001*** (0,0005) (0,0004) (0,0004) (0,0001) (0,0003) (0,0001) (0,0001) (0,0000) (0,0000) (0,0000) Não negra -0,0017*** -0,0000 -0,0009*** -0,0004 -0,0005*** -0,0004 -0,0003** -0,0001 -0,0000 0,0000 (0,0005) (0,0025) (0,0002) (0,0019) (0,0002) (0,0016) (0,0001) (0,0009) (0,0001) (0,0004) Negra -0,0017*** 0,0001 -0,0009*** 0,0008 -0,0005*** 0,0009 -0,0003** 0,0002 -0,0000 -0,0000 (0,0005) (0,0046) (0,0002) (0,0038) (0,0002) (0,0034) (0,0001) (0,0024) (0,0001) (0,0015) Fonte: elaboração dos autores, 2026. Erro-padrão entre parênteses. *** p < 0,01; ** p < 0,05; * p < 0,10. Sob esse padrão, a primeira linha da tabela reporta a decomposição total. Em todas as coortes, a parcela explicada do hiato salarial é negativa. Isso implica que as características observáveis das mulheres, tomadas em conjunto, são tão ou mais favoráveis que a dos homens, de modo que, se os salários fossem determinados apenas por esses atributos, as mulheres deveriam receber um salário maior. A parcela inexplicada, por sua vez, é positiva em todas as coortes e de magnitude superior à explicada. Um valor positivo significa que homens e mulheres com as mesmas características são remunerados de forma distinta, em favor dos homens. É uma diferença de retorno que não decorre de escolaridade ou tempo de emprego, mas da forma como o mercado precifica trabalhadores do mesmo perfil. Esse resultado é consistente com as estatísticas descritivas apresentadas na seção anterior. Em todas as coortes, as mulheres apresentam maior escolaridade média e participação relativamente mais elevada nos níveis superiores de ensino, mas ainda assim recebem salários inferiores aos dos homens. A decomposição confirma que essa vantagem observável, em especial a educacional, não se converte automaticamente em maior remuneração. A tabela 2 revela ainda um padrão geracional. A magnitude, tanto da parcela explicada quanto da parcela inexplicada, diminui à medida que se avança das coortes mais antigas para as mais jovens. Na coorte 1952-1961, a parte explicada alcança -0,2371, enquanto a parte inexplicada atinge 0,3846. Já na coorte 1992-2001, esses valores passam para -0,0286 e 0,0497, respectivamente. Esse movimento indica que o hiato salarial de gênero é mais intenso entre as gerações mais antigas e menor entre as mais jovens. Essa redução ao longo das gerações acompanha o padrão de convergência do hiato de gênero documentado em outros países por Bar-Haim et al. (2018), que atribuem parte importante desse movimento ao avanço educacional das mulheres. Apesar disso, a melhora relativa da posição educacional feminina e a redução do hiato bruto entre as gerações mais novas não implicam que o mercado de trabalho tenha se tornado neutro em termos de gênero. O que os resultados mostram é uma diminuição da magnitude do diferencial, sem alteração do padrão qualitativo, em que características observáveis femininas favoráveis convivem com retornos salariais menos vantajosos. A decomposição detalhada permite identificar quais variáveis respondem por cada componente. Na parte explicada, a escolaridade aparece como o principal fator que empurra o diferencial na direção oposta ao hiato observado. Em todas as coortes, os componentes associados ao ensino superior apresentam sinais negativos, o que significa que a maior presença feminina no ensino superior tende a reduzir o hiato. Ainda se observa que o efeito do ensino superior perde intensidade à medida que se avança para as coortes mais jovens. A contribuição explicada passa de -0,0635 na coorte 1952-1961 para -0,0087 em 1992-2001. Esse movimento sugere que a escolaridade segue atuando no sentido de reduzir o hiato, mas com menor força entre as gerações mais recentes. Uma interpretação compatível é que a expansão educacional elevou a escolaridade de homens e mulheres ao longo do tempo, de modo que, embora a vantagem educacional feminina permaneça, sua contribuição relativa para distinguir os grupos e comprimir o hiato diminui nas coortes mais jovens. Conforme documentam Blau e Kahn (2017), as variáveis de capital humano contribuem cada vez menos com a redução do hiato salarial. A experiência também não explica a desvantagem feminina. Medida pela idade e pelo tempo de emprego, ela contribui para reduzir o hiato, o que indica que mulheres não estão em posição inferior quanto a trajetória no mercado de trabalho. A diferença de salários, portanto, não vem de elas terem menos experiência, mas dos retornos, de forma difusa, sem se prender a uma característica específica. Assim, a vantagem educacional feminina não elimina o hiato salarial, de modo que o diferencial observado não pode ser interpretado como simples reflexo de composição produtiva desfavorável às mulheres. Ademais, embora o hiato salarial diminua entre as coortes mais jovens, a persistência da parcela inexplicada sugere que mecanismos estruturais de desigualdade seguem operando no mercado formal nordestino. A Tabela 3 apresenta os resultados para o modelo incluindo a ocupação (controle por grande grupo de CBO). Em termos de coorte, os resultados apresentam o mesmo padrão anterior, a parcela explicada segue negativa, enquanto a parcela inexplicada permanece positiva. Isso significa que, mesmo controlando a composição ocupacional, as características observáveis das mulheres continuam atuando no sentido de reduzir o hiato salarial, ao passo que a parcela associada aos retornos continua atuando no sentido de ampliá-lo. Ao mesmo tempo, a comparação com o modelo sem CBO mostra que a inclusão da ocupação altera pouco a decomposição. Na coorte 1952-1961, por exemplo, a parte explicada passa de -0,2371 para -0,2409, enquanto a parte inexplicada sobe de 0,3846 para 0,3884. Essas diferenças são pequenas, o que indica a distribuição ocupacional responde por uma fração limitada do diferencial. Esse resultado impede uma interpretação segundo a qual o hiato salarial seria apenas reflexo de segregação ocupacional. Se o diferencial decorresse principalmente da alocação de homens e mulheres em áreas de remuneração distinta, esperar-se-ia que a inclusão do controle ocupacional reduzisse mais significativamente a parcela não explicada, o que não ocorre. De fato, Araújo e Ribeiro (2002) já apontavam que a dimensão ocupacional contribuía de forma limitada para o diferencial de gênero nas regiões brasileiras, não constituindo seu principal determinante. Em verdade, a literatura recente com dados vinculados empregador-empregado oferece uma interpretação para esse padrão, deslocando o foco da ocupação para a firma. Card, Cardoso e Kline (2016) mostram que parte do hiato decorre tanto de as mulheres se alocarem em firmas que pagam prêmios salariais menores quanto de receberem prêmios salariais inferiores aos dos homens dentro das firmas. Para o Brasil, com a mesma base utilizada neste estudo, Morchio e Moser (2026) encontram que o componente de firma responde pela maior parte do hiato de gênero, sobretudo pela alocação das mulheres em empregadores que pagam menos. Sob essa leitura, a parcela não explicada estimada aqui refletiria menos uma escolha das mulheres por grande área de menor remuneração e mais os mecanismos de remuneração entre e dentro de firmas, que o grade grupo não capta. Do ponto de vista geracional, o modelo com CBO preserva o movimento já observado, com magnitude do hiato diminuindo entre as coortes mais jovens. A coorte 1992-2001 continua apresentando os menores valores absolutos, o que indica um estreitamento do diferencial entre os trabalhadores mais novos. Essa permanência indica que o diferencial de gênero não é estático e responde a transformações de longo prazo. Esse movimento, conforme discutido anteriormente, acompanha o padrão internacional de convergência salarial que se manifesta gradualmente entre as gerações. Contudo, a literatura também adverte que a queda do diferencial entre as gerações nem sempre reflete uma melhora inequívoca da posição das mulheres, podendo decorrer também da saída de coortes mais velhas e mais desiguais ou de mudanças na posição relativa dos homens no mercado de trabalho (Arellano-Bover et al., 2024). Estudos apontam, ainda, que em diversos países esse processo desacelerou nas últimas décadas, estabilizando-se em patamares distantes de igualdade (England, Levine e Mishel, 2020; Blau e Kahn, 2017). No presente estudo, a parcela inexplicada positiva mesmo entre os trabalhadores mais jovens é coerente com esse diagnóstico, sugerindo que a redução do diferencial convive com a manutenção de um tratamento remuneratório distinto entre homens e mulheres de perfil semelhante. Tabela 3 - Decomposição Oaxaca-Blinder do diferencial salarial de gênero por coorte, com controle ocupacional Variável Coorte 1952-1961 Coorte 1962-1971 Coorte 1972-1981 Coorte 1982-1991 Coorte 1992-2001 Explicado Inexplicado Explicado Inexplicado Explicado Inexplicado Explicado Inexplicado Explicado Inexplicado Total -0,2409*** 0,3884*** -0,1821*** 0,3172*** -0,1523*** 0,2548*** -0,1050*** 0,1663*** -0,0276*** 0,0486*** (0,0177) (0,0173) (0,0129) (0,0135) (0,0084) (0,0131) (0,0048) (0,0089) (0,0022) (0,0048) Tempo emprego -0,0361*** -0,0196** -0,0159*** 0,0010 -0,0045*** -0,0051 -0,0034*** 0,0024 -0,0009*** 0,0055*** (0,0055) (0,0099) (0,0020) (0,0081) (0,0006) (0,0044) (0,0004) (0,0026) (0,0002) (0,0018) Fundamental -0,1372*** 0,0012 -0,1514*** -0,0165*** -0,1230*** -0,0086*** -0,0753*** -0,0020*** -0,0247*** 0,0009 (0,0067) (0,0066) (0,0072) (0,0052) (0,0060) (0,0026) (0,0038) (0,0007) (0,0015) (0,0006) Médio 0,0450*** 0,0196*** 0,0539*** -0,0133** 0,0347*** -0,0019 0,0184*** 0,0004 0,0109*** 0,0016 (0,0049) (0,0074) (0,0055) (0,0064) (0,0051) (0,0048) (0,0031) (0,0045) (0,0011) (0,0110) Superior -0,0487*** 0,0378*** -0,0440*** 0,0386*** -0,0383*** 0,0324*** -0,0246*** 0,0201*** -0,0073*** 0,0075*** (0,0037) (0,0040) (0,0032) (0,0034) (0,0026) (0,0021) (0,0019) (0,0019) (0,0007) (0,0019) Pós-graduação -0,0027*** -0,0018*** -0,0025*** -0,0006*** -0,0019*** -0,0004*** -0,0008*** -0,0002*** -0,0000*** -0,0000** (0,0004) (0,0005) (0,0003) (0,0001) (0,0002) (0,0001) (0,0001) (0,0000) (0,0000) (0,0000) Dirigentes -0,0023*** -0,0067*** -0,0036*** -0,0058*** -0,0048*** -0,0028*** -0,0027*** -0,0020*** -0,0005*** -0,0003*** (0,0004) (0,0010) (0,0004) (0,0007) (0,0004) (0,0003) (0,0002) (0,0002) (0,0000) (0,0001) Ciências e artes -0,0179*** -0,0025 -0,0069* -0,0124*** -0,0150*** -0,0083*** -0,0158*** -0,0072*** -0,0034*** -0,0029*** (0,0048) (0,0029) (0,0036) (0,0020) (0,0030) (0,0015) (0,0017) (0,0010) (0,0003) (0,0004) Técnicos-médio -0,0160*** 0,0231*** -0,0131*** 0,0101*** -0,0082*** 0,0017 -0,0032*** -0,0002 -0,0011*** -0,0005 (0,0021) (0,0038) (0,0021) (0,0025) (0,0011) (0,0022) (0,0005) (0,0011) (0,0001) (0,0006) Serviços admin. -0,0099*** -0,0193*** 0,0079*** -0,0239*** 0,0214*** -0,0258*** 0,0264*** -0,0206*** 0,0188*** -0,0125*** (0,0028) (0,0048) (0,0022) (0,0033) (0,0024) (0,0023) (0,0028) (0,0023) (0,0021) (0,0017) Serviços-vendas 0,0343*** -0,0771*** 0,0190*** -0,0560*** 0,0148*** -0,0400*** 0,0069* -0,0209*** 0,0017 -0,0047*** (0,0095) (0,0076) (0,0065) (0,0054) (0,0053) (0,0045) (0,0036) (0,0026) (0,0017) (0,0015) Agropecuários -0,0334*** -0,0028*** -0,0209*** -0,0017** -0,0145*** -0,0004 -0,0095*** 0,0002 -0,0049*** 0,0006*** (0,0073) (0,0010) (0,0036) (0,0007) (0,0024) (0,0004) (0,0015) (0,0002) (0,0009) (0,0002) Prod. industrial -0,0139*** 0,0074*** -0,0057*** 0,0097*** -0,0111*** 0,0099*** -0,0170*** 0,0077*** -0,0130*** 0,0041*** (0,0031) (0,0013) (0,0016) (0,0011) (0,0016) (0,0012) (0,0019) (0,0011) (0,0016) (0,0008) Prod. processos -0,0001 0,0027* -0,0003 0,0023** -0,0024*** 0,0004 -0,0027*** -0,0000 -0,0014*** 0,0000 (0,0009) (0,0015) (0,0013) (0,0010) (0,0009) (0,0004) (0,0007) (0,0002) (0,0004) (0,0001) Manutenção 0,0011 0,0032*** 0,0028*** 0,0029*** 0,0022*** 0,0016*** 0,0015** 0,0006*** -0,0002 0,0001 (0,0007) (0,0011) (0,0007) (0,0010) (0,0006) (0,0004) (0,0006) (0,0002) (0,0003) (0,0001) Fonte: elaboração dos autores, 2026. Erro-padrão em parênteses. *** p < 0,01; ** p < 0,05; * p < 0,10. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este artigo analisou o diferencial salarial de gênero no mercado formal do Nordeste brasileiro entre 2010 e 2019, com base em microdados da RAIS e decomposições de Oaxaca-Blinder estimadas por coorte de nascimento. O objetivo foi examinar se a desigualdade salarial entre homens e mulheres se altera entre gerações de trabalhadores e em que medida esse diferencial pode ser associado às características observáveis ou à parcela não explicada do hiato. Dois resultados se destacam. O primeiro é que o hiato persiste em todas as coortes, ainda que se reduza entre as gerações mais jovens. O segundo é que essa desvantagem não decorre das características das mulheres. Ao contrário, a escolaridade feminina atuaria no sentido de reduzir o diferencial, e o que sustenta o hiato é a parcela não explicada, associada aos retornos desiguais que homens e mulheres recebem por atributos semelhantes. O controle pela ocupação altera pouco esse quadro, o que indica que a desigualdade não se organiza principalmente pela distribuição de homens e mulheres entre grandes áreas ocupacionais, podendo estar associada a mecanismos de firma. Esses achados contribuem para a literatura em duas direções. A primeira é oferecer evidência específica para o Nordeste brasileiro, um recorte ainda pouco explorado nos estudos sobre desigualdade salarial de gênero. A segunda é incorporar a dimensão de coorte à análise regional, permitindo observar que a redução do hiato entre gerações convive com a persistência de um núcleo estrutural da desigualdade. Nesse sentido, os resultados sugerem que mudanças na escolarização e na composição da força de trabalho alteraram a magnitude do diferencial, mas não eliminaram os mecanismos que reproduzem retornos salariais desiguais entre homens e mulheres. Do ponto de vista mais amplo, o artigo reforça que a desigualdade salarial de gênero no Nordeste deve ser compreendida para além das diferenças médias de produtividade. Trata-se de um fenômeno associado à segmentação do mercado de trabalho, à divisão sexual do trabalho e à persistência de barreiras que limitam a conversão da vantagem educacional feminina em rendimentos equivalentes. Assim, esses resultados têm implicações relevantes para o desenho de políticas públicas. A primeira delas é que políticas centradas apenas na ampliação do acesso à educação tendem a ser insuficientes para enfrentar a desigualdade salarial de gênero. A expansão educacional é condição importante, mas não elimina, por si, os mecanismos que reproduzem retornos salariais desiguais. Isso significa que uma agenda voltada à redução do hiato precisa combinar políticas educacionais com instrumentos capazes de enfrentar a segmentação ocupacional, ampliar a transparência remuneratória e fortalecer a fiscalização da discriminação salarial, em linha com o espírito da Lei nº 14.611/2023. Por fim, o estudo também apresenta limitações que merecem registro. Como a análise se concentra na RAIS, os resultados se referem ao mercado formal de trabalho e não captam a informalidade, dimensão particularmente relevante no contexto nordestino. Além disso, por se tratar de cortes transversais repetidos, não é possível acompanhar trajetórias individuais ao longo do tempo. Por fim, a parcela inexplicada não deve ser interpretada, de forma automática, como sinônimo de discriminação. Ela pode captar, além de retornos desiguais, fatores não observados na base, como habilidades não mensuradas, aspectos da trajetória laboral e características das firmas. 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Palavras-chave: Desigualdade salarial de gênero,Mercado de trabalho formal,Nordeste,Decomposição Oaxaca-Blinder,Expansão educacional
Oral
Abrir o trabalhoDESLOCAMENTOS PENDULARES POR MOTIVO ESTUDO NAS CIDADES MÉDIAS CEARENSE NO ANO DE 2010
ROSILANIA MENDONCA DE SOUZA
Este artigo analisa os deslocamentos pendulares por motivo de estudo nas cidades médias cearenses em 2010, considerando suas características socioeconômicas e sua inserção na hierarquia urbana. A pesquisa possui abordagem quantitativa e caráter descritivo, utilizando indicadores demográficos e econômicos e os fluxos de estudantes obtidos dos microdados do Censo Demográfico de 2010. Para cada cidade, foram considerados os movimentos entre municípios pertencentes à mesma mesorregião, calculando-se entradas, saídas, saldo e Índice de Eficácia de Pendularidade (IEP). Os resultados mostram diferentes formas de participação na mobilidade educacional. Sobral apresenta o maior volume de entradas e a maior predominância de recebimento de estudantes, enquanto Juazeiro do Norte, Maracanaú e Crato também se destacam pelos contingentes recebidos. Iguatu, Quixadá e Itapipoca registram forte absorção em fluxos de menor dimensão. Caucaia, Maracanaú e Maranguape apresentam configurações que devem ser compreendidas no contexto de sua integração metropolitana com Fortaleza. Conclui-se que os fluxos são compatíveis com diferentes funções regionais e metropolitanas, mas sua distribuição não reproduz uma ordenação única da hierarquia urbana. A interpretação conjunta dos indicadores permite reconhecer a dimensão educacional da centralidade, respeitando os limites territoriais e descritivos da pesquisa.
Palavras-chave: Pendularidade, Estudo , Ceará , Cidades Médias
Oral
Abrir o trabalhoDETERMINANTES DA OCUPAÇÃO E DA INFORMALIDADE NO MERCADO DE TRABALHO CEARENSE: UMA ANÁLISE INTERSECCIONAL DE RAÇA/COR E GÊNERO (2020-2025)
DAIANA DE SOUZA BEZERRA
Este trabalho analisa os fatores associados à probabilidade de ocupação e de informalidade no mercado de trabalho cearense entre 2020 e 2025, com foco nas desigualdades de raça/cor e gênero. Com os microdados da PNAD Contínua (IBGE) para o Ceará, foram estimados dois modelos logit com desenho amostral complexo: o primeiro para a probabilidade de estar ocupado e o segundo, restrito aos ocupados, para a probabilidade de informalidade. Ambos controlam por escolaridade, idade, situação rural/urbana, trimestre e ano, e têm como variável de interesse o grupo de raça/cor e gênero, com o homem branco/amarelo como categoria de referência. Os resultados mostram que, apesar da recuperação do mercado de trabalho - a taxa de ocupação subiu em todos os grupos entre 2020 e 2025 -, as desigualdades estruturais persistem: mulheres, independentemente da raça/cor, apresentam probabilidade de ocupação entre 19 e 20 pontos percentuais menor que a de homens brancos/amarelos, e mulheres pretas/pardas acumulam a maior probabilidade de informalidade entre os quatro grupos (+8,2 p.p.). Entre os homens, a raça deixa de diferenciar estatisticamente a informalidade após os controles, mas persiste um diferencial positivo condicional dos pretos/pardos na ocupação, resultado que diverge do padrão nacional e é discutido como agenda de pesquisa. Escolaridade e localização rural são os controles mais fortes dos dois modelos. Conclui-se que a recuperação do mercado de trabalho cearense não reduziu o hiato de gênero, reforçando a necessidade de políticas de formalização e de combate à desigualdade direcionadas a mulheres, sobretudo pretas e pardas.
Palavras-chave: Mercado de trabalho,Desigualdade de gênero,Desigualdade racial,Informalidade,PNAD Contínua
Oral
Abrir o trabalhoECONOMIA DO CUIDADO E DESIGUALDADES NA INSERÇÃO FEMININA NO MERCADO DE TRABALHO: EVIDÊNCIAS PARA O BRASIL
LUIZ FABIANO ALVES DA SILVA; Jamile Saraiva de Almeida; Antonia Guadalupe Vieira Barbosa; Ícaro Sales Campos
O trabalho doméstico e de cuidados não remunerado é fundamental para a reprodução da vida e da força de trabalho, mas é distribuído de forma desigual entre homens e mulheres, relacionando-se às desigualdades de inserção no mercado de trabalho. Este artigo analisa, de forma descritiva, a relação entre a distribuição dessas atividades e as diferenças de participação, ocupação, desocupação, jornada e rendimento entre mulheres e homens no mercado de trabalho brasileiro, considerando desigualdades por cor ou raça e região. A pesquisa possui abordagem quantitativa e descritiva, baseada em dados secundários da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), utilizando dados da tabulação trimestral e do suplemento anual da 5ª visita. Os resultados mostram que, em 2022, as mulheres dedicavam 21,2 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados, contra 9,6 horas dos homens. Essa assimetria acompanha diferenças persistentes na inserção laboral, destacando-se o menor nível de ocupação das mulheres com filhos, de 56,6%, frente a 89,0% entre os homens com filhos. As desigualdades são mais intensas entre mulheres pretas e pardas e na região Nordeste, que apresentou a maior carga feminina de cuidado e o maior diferencial de jornada. O hiato de rendimento entre homens e mulheres também permaneceu no período analisado. Conclui-se que a desigual distribuição do trabalho doméstico e de cuidados está associada a desigualdades persistentes na inserção feminina no mercado de trabalho brasileiro, sem que os resultados permitam estabelecer relações causais.
Palavras-chave: Economia do cuidado, Mercado de trabalho, Desigualdade de gênero, Interseccionalidade
Oral
Abrir o trabalhoJORNADA DE TRABALHO E PERCEPÇÃO DO ESTADO DE SAÚDE DOS TRABALHADORES BRASILEIROS
LARISSA FERREIRA FERNANDES ; Glória Maria Frasão Alves; Marcos Martins de Oliveira; Andréa Ferreira da Silva
Este estudo analisa a distribuição da percepção do estado de saúde entre trabalhadores brasileiros submetidos a diferentes jornadas semanais de trabalho. Trata-se de uma pesquisa descritiva e transversal, baseada nos microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde. A amostra analítica foi composta por 52.832 trabalhadores com informações válidas sobre jornada de trabalho e percepção do estado de saúde. As jornadas foram agrupadas em quatro categorias: até 20 horas, 21 a 40 horas, 41 a 44 horas e 45 horas ou mais por semana. A percepção de saúde foi analisada em cinco categorias e também agrupada entre avaliações positivas e negativas. Os resultados mostraram predominância de avaliações positivas, com 80,5% dos trabalhadores classificando sua saúde como boa ou muito boa. Observou-se um padrão de U invertido, com a maior proporção de percepção positiva entre aqueles que trabalhavam de 41 a 44 horas semanais, enquanto as jornadas mais curtas e mais extensas apresentaram proporções menores. Também foram identificadas diferenças na jornada média segundo o sexo, com homens apresentando jornadas superiores às das mulheres. As diferenças segundo raça/cor foram menos expressivas. Por se tratar de uma análise descritiva e transversal, os resultados não permitem estabelecer causalidade entre jornada e saúde. O estudo contribui para compreender a distribuição das condições de trabalho e saúde dos trabalhadores brasileiros.
Palavras-chave: Jornada de trabalho, Saúde autorreferida,Trabalhadores brasileiros,Pesquisa Nacional de Saúde,Qualidade de vida
Oral
Abrir o trabalhoMIGRAÇÃO INTRAESTADUAL E CENTRALIDADE URBANA: UM ESTUDO DOS FLUXOS MIGRATÓRIOS NAS CIDADES MÉDIAS DO CEARÁ NO ANO DE 2010
MIRYAN ALVES ALENCAR
Este artigo analisa a migração intraestadual no Ceará no ano de 2010 e sua relação com a redistribuição populacional e a organização da rede urbana cearense, com foco na centralidade, na hierarquia urbana e no papel das cidades médias. O objetivo é verificar se os municípios com maior população, Produto Interno Bruto (PIB) e nível de emprego também apresentam maior capacidade de atração migratória, e em que medida essa capacidade corresponde à posição desses municípios na hierarquia urbana. A pesquisa tem abordagem quantitativa e utiliza dados do Censo Demográfico de 2010 do IBGE, considerando a migração de data fixa no período de 2005 a 2010. Foram selecionadas dez cidades médias cearenses: Caucaia, Crato, Iguatu, Itapipoca, Juazeiro do Norte, Maracanaú, Maranguape, Quixadá, Russas e Sobral. A seleção considerou o porte populacional dos municípios e sua posição funcional na hierarquia urbana estabelecida pelo REGIC, o que permitiu incluir tanto municípios de maior porte quanto municípios de porte inferior a 100 mil habitantes com papel regional relevante. Para cada município foram calculados os fluxos de entrada e saída, o saldo migratório, a migração bruta, a taxa de migração líquida e o Índice de Eficácia Migratória (IEM), comparados à posição na hierarquia urbana definida pelo REGIC 2007 (IBGE, 2008), edição mais próxima do período migratório analisado, e pelo REGIC 2018 (IBGE, 2020), usado para verificar se essa posição se manteve estável. Os resultados mostram que Caucaia, Maracanaú, Juazeiro do Norte e Sobral se destacam pelos maiores volumes de entrada migratória e apresentam saldo migratório positivo. População e emprego têm relação mais evidente com a atração migratória, enquanto o PIB apresenta relação menos direta. A comparação com a hierarquia do REGIC mostrou correspondência parcial entre a posição hierárquica dos municípios e a centralidade observada no fluxo migratório. Conclui-se que a migração intraestadual é um elemento importante para compreender a redistribuição populacional e a organização da rede urbana cearense.
Oral
Abrir o trabalhoMOBILIDADE PENDULAR PARA TRABALHO NAS CIDADES MÉDIAS CEARENSES: PERFIL SOCIOECONÔMICO, CENTRALIDADE E A HIERARQUIA URBANA NO ANO 2010
ANTONIA GUADALUPE VIEIRA BARBOSA
Resumo: Este artigo analisa os deslocamentos pendulares por motivo de trabalho no ano de 2010 nas cidades médias cearenses. O objetivo do trabalho foi investigar como o deslocamento pendular por trabalho se configurava nesses centros urbanos, de modo a avaliar o fortalecimento dessas centralidades no interior do estado do Ceará. A partir dos microdados do Censo Demográfico de 2010 (IBGE) e de dados do SIDRA IBGE, foram levantados indicadores de população, taxa de urbanização, densidade demográfica, ocupação, formalização do emprego e PIB e do deslocamento pendular, deste último foi calculado o Índice de Eficácia de Pendularidade (IEP). Os resultados mostram polarização acentuada entre os municípios, com o IEP variando de -0,852 (Caucaia) a 0,913 (Sobral), que podem ser explicados pela dinâmica econômica e pela integração com seu entorno. Os municípios integrados à Região Metropolitana de Fortaleza (Caucaia, Maracanaú e Maranguape) atuam como áreas de evasão, funcionando como cidades - dormitório da capital, enquanto Sobral, Juazeiro do Norte e Russas se consolidam como polos de absorção. De modo geral, os achados confirmam que a centralidade pendular está associada à função do município na rede urbana, corroborando com a hierarquia definida pelo REGIC/IBGE. Palavras-chave: Mobilidade pendular. Cidades médias. Mercado de trabalho. Rede urbana. Ceará. I. INTRODUÇÃO A mobilidade pendular por motivo trabalho constitui um dos principais indicadores da integração funcional entre municípios e da estruturação das redes urbanas contemporâneas. Definido como o deslocamento diário entre o município de residência e o município onde o indivíduo exerce sua atividade laboral (Ântico, 2005; Aranha, 2005), a pendularidade revela níveis de articulação regional que extrapolam os limites administrativos, evidenciando a existência de sistemas urbanos funcionalmente integrados, ainda que politicamente fragmentados. Moura et al. (2005) argumentam que o movimento pendular constitui indicador essencial para identificar centralidades, cidades-dormitório e novas configurações espaciais na organização do território. Historicamente associados às grandes regiões metropolitanas, os deslocamentos pendulares por trabalho passaram, nas últimas décadas, a se disseminar também em áreas não metropolitanas, evidenciando que a integração funcional entre municípios se tornou fenômeno mais abrangente, não restrito aos grandes centros urbanos (Silva; Queiroz, 2021). Esse processo está associado a transformações na organização produtiva do território, à expansão da infraestrutura de transporte e à diversificação das oportunidades de emprego para além das capitais estaduais. No Ceará, essa dinâmica assume contornos particulares. A desconcentração produtiva e a expansão de atividades econômicas fora da Região Metropolitana de Fortaleza, impulsionadas pela ampliação da infraestrutura rodoviária e pela diversificação das atividades econômicas em cidades como Juazeiro do Norte, Sobral e Iguatu, ampliaram a oferta de emprego fora da capital, redefinindo a lógica dos deslocamentos cotidianos por trabalho no estado (Barros; Oliveira, 2018). Nesse cenário, as cidades médias emergem como polos regionais de emprego, ao concentrarem atividades comerciais, industriais e de serviços que passam a atrair trabalhadores oriundos de municípios vizinhos. Estudos indicam a intensificação dos deslocamentos pendulares por motivo de trabalho nas cidades médias cearenses (Silva; Queiroz; Sidrim, 2017; Barros; Oliveira, 2018; Oliveira; Machado; Queiroz, 2024), revelando que o interior do estado passou a desempenhar papel cada vez mais ativo na organização dos fluxos laborais cotidianos, relativizando a histórica centralidade exercida pela capital nesse aspecto. A magnitude desses fluxos sinaliza reconfiguração das redes urbanas e capacidade de polarização de determinados municípios sobre seu entorno, na medida em que passam a concentrar contingentes significativos de trabalhadores provenientes de outras localidades. Embora a literatura registre avanços relevantes na análise da pendularidade no Ceará (Silva; Queiroz; Sidrim, 2017; Silva; Queiroz, 2021; Carvalho; Queiroz, 2021; Oliveira; Machado; Queiroz, 2024), grande parte desses estudos concentra-se em análises voltadas às regiões metropolitanas ou ao Ceará como um todo, sendo ainda incipiente a produção que aborda especificamente a pendularidade por trabalho nas cidades médias cearenses. Portanto, o objetivo deste artigo é investigar como o deslocamento pendular por trabalho se configurava nesses centros urbanos, de modo a avaliar o fortalecimento dessas centralidades no interior do estado do Ceará Ao focalizar as cidades médias cearenses e os deslocamentos pendulares por motivo de trabalho no ano de 2010, esta pesquisa busca contribuir para a compreensão da configuração da rede urbana estadual naquele período, examinando a capacidade de polarização funcional em torno do emprego exercida por esses centros. Trata-se, portanto, de analisar empiricamente se a dinâmica dos fluxos laborais cotidianos registrada em 2010 aponta para uma reconfiguração territorial marcada pelo fortalecimento das cidades médias como polos de emprego e eixos estruturantes do espaço cearense. II. REFERENCIAL TEÓRICO O Papel da Mobilidade na Organização do Território A mobilidade pendular é caracterizada como o deslocamento diário entre o município de residência e o de estudo e/ou trabalho (Andrade, 2021). Este fenômeno tem sido estudado por vários autores (Oliveira, 2022; Carvalho; Queiroz, 2023; Silva; Ojima, 2016; Moura; Delgado, 2016; Sidrim; Fusco, 2019). Embora a pendularidade seja característico das grandes metrópoles, apresenta relevância também nas pequenas e médias cidades, o que justifica sua análise para a compreensão da organização territorial em diferentes escalas. A intensificação desses deslocamentos está articulada ao processo de urbanização e à redistribuição espacial da população. Segundo Antico (2005), tendem a ser mais intensos em áreas de maior concentração populacional; com a estabilização das migrações de longa distância, parte da população passou a residir em localidades de menor custo de vida, deslocando-se diariamente aos centros de trabalho e consumo. Silva e Ojima (2016) argumentam que a urbanização brasileira reorganizou os padrões de deslocamento por trabalho, tornando a pendularidade um indicador de integração econômica entre municípios: o trabalhador pendular opera como elo entre mercados de trabalho geograficamente separados. Sidrim e Fusco (2019) reforçam essa leitura ao identificar a concentração de pendulares no comércio, na indústria de transformação e na construção civil, evidenciando a natureza estrutural, e não residual, dessa mobilidade. Entre 1980 e 1990, a concentração populacional e econômica nas metrópoles brasileiras pressionou o mercado de trabalho, impulsionando a mobilidade de curta distância como as migrações de retorno às pequenas e médias cidades (Andrade, 2021), favorecidas por investimentos em infraestrutura e incentivos fiscais que diversificaram suas estruturas urbanas e econômicas, conferindo-lhes papel central na organização regional (Sposito, 2006) e a mobilidade pendular. Consolida-se, assim, o deslocamento pendular como prática cotidiana estruturante, articulando centros de diferentes portes e densificando as redes de interdependência entre municípios. Rede Urbana Cearense A rede urbana articula centros de diferentes hierarquias e funções, organizando os fluxos de pessoas, bens e serviços que sustentam a vida econômica e social do território (Morais; Macedo, 2014). Sua compreensão passa pelas noções de centralidade e hierarquia urbana, fundamentadas na Teoria das Localidades Centrais de Christaller, o número, o tamanho e a distribuição das cidades obedecem a uma lógica funcional, e a centralidade designa a capacidade de um centro de polarizar fluxos e atender demandas que extrapolam seus próprios limites, enquanto a hierarquia expressa sua posição relativa na rede (Morais; Macedo, 2013). A rede urbana cearense formou-se a partir do binômio pecuária-algodão. O povoamento seguiu os rios Acaraú e Jaguaribe, originando os primeiros núcleos urbanos, Sobral, Aracati e, com o avanço algodoeiro, as cidades de Iguatu, Quixadá, Quixeramobim e Crato ganharam destaque (Jucá Neto, 2009; Macedo; Lima Júnior; Morais, 2011). A pecuária, atividade rústica que exigia grandes extensões de terra concentradas nas mãos de poucas pessoas, gerou uma estrutura fundiária excludente e uma ocupação descentralizada e ruralizada, sem rede urbana densa, “o processo de povoamento do Ceará vai caracterizar-se no sentido do pastoreio [...] fazenda ligada a fazenda [...] através da intrincada rede de rios e ravinas” (Girão, 1986 apud Bonfim, 1999, p. 106). Seu declínio, no fim do século XVIII, deveu-se a secas severas e à concorrência da cotonicultura, introduzida em 1777 e impulsionada pela Guerra de Independência dos Estados Unidos, que redirecionou a demanda europeia ao Brasil (Bonfim, 1999). A vocação exportadora do algodão exigiu infraestrutura de beneficiamento e comercialização, estimulando núcleos urbanos no interior e no litoral, com destaque manufatureiro para Fortaleza e Sobral (Bonfim, 1999). Aracati, antigo centro do gado, perdeu essa centralidade para Fortaleza com o algodão e por não integrar a ferrovia (Oliveira; Silva, 2025). Uma nova classe de comerciantes urbanos se instalava nos polos de escoamento entre fazendas e portos, assentando as bases da futura centralidade de Fortaleza. A partir de 1873, a Estrada de Ferro de Baturité reorganizou a rede urbana cearense, Iguatu, como ponta de trilhos (1910-1916), teve crescimento populacional de 16% e, depois, de 28% por década, tornando-se centro econômico regional (Oliveira; Silva, 2025). A industrialização concentrada na capital produziu, já desde a primeira fase têxtil (Muniz, 2016), uma estrutura macrocefálica na distribuição dos fatores econômicos e sociais do Ceará (Jucá Neto, 2009), consolidada ao longo do século XX na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) (Macedo; Lima Júnior; Morais, 2011). A segunda fase de industrialização (1950-1980) inseriu o estado na integração produtiva nacional sob comando dos capitais do Centro-Sul, via planejamento da SUDENE (Guimarães Neto, 1989); a hiperconcentração na RMF resultou de ação deliberada do Estado (Bernal, 2004), por meio de investimentos em infraestrutura básica priorizados na capital e municípios limítrofes e da instalação de órgãos técnico-burocráticos, como o Banco do Nordeste (1952), a UFC (1954) e a sede do DNOCS (1961), que ampliaram a centralidade de comando de Fortaleza (Silva, 2007). Planos estaduais como o PLAMEG e entes como CODEC, SUDEC e BEC deram sustentação técnica e financeira a esse modelo (Macedo; Lima Júnior; Morais, 2011), que culminou, nos anos 1970, na atração de recursos do II PND para o III Polo Industrial do Nordeste e na criação do Fundo de Desenvolvimento Industrial, em 1979 (Aquino, 2000). A terceira fase (1980-2000) buscou descentralizar a produção via guerra fiscal, com incentivos ligados ao ICMS (FDI e PROVIN) atraindo indústrias calçadistas e têxteis para polos como Sobral, Juazeiro do Norte, Crato e Iguatu, além da fruticultura irrigada no Baixo Jaguaribe (Macedo; Lima Júnior; Morais, 2011; Amora, 2007; Pires Souza, 2005). Ainda assim, os dados demográficos atestam os limites desse processo, a Mesorregião Metropolitana de Fortaleza ampliou sua fatia populacional de 24,6% em 1970 para 39,8% em 2010, enquanto os Sertões Cearenses recuaram de 16,3% para 10,5% no mesmo período. Do mesmo modo, embora os Serviços Distributivos tenham crescido no interior (de 13,5% para 24,3% entre 1994 e 2009), os serviços de apoio às empresas, que concentram regulação financeira e decisões estratégicas, reforçaram sua centralização na RMF, de 91,8% para 94,9% no mesmo período, atestando que a metrópole manteve o comando financeiro da economia regional (Macedo; Lima Júnior; Morais, 2011). Apesar desse descompasso, algumas cidades adquiriram destaque como cidades médias, Iguatu, Crato, Juazeiro do Norte, Sobral, Maranguape, Caucaia, Maracanaú, Itapipoca, Quixadá e Russas, cuja posição hierárquica e integração com os municípios de menor porte fornecem elementos importantes para a interpretação dos efeitos da mobilidade pendular na integração econômica regional (Silva; Ojima, 2016). Cidades Médias As cidades médias podem ser compreendidas a partir de critérios populacional e funcional. Pelo critério demográfico, situam-se entre as pequenas cidades e as metrópoles, sem consenso quanto aos limites. No Brasil, adota-se frequentemente a faixa de 100 mil a 500 mil habitantes (Motta; Da Mata, 2008; Santos, 2009), enquanto a ONU já considerou cidades médias aquelas entre 100 mil e 3 milhões de habitantes (Lima; Silveira, 2018), evidenciando a insuficiência do tamanho populacional como critério isolado (Cavalcante; Souza, 2010). O critério funcional desloca o foco para a posição dessas cidades na rede urbana, elas desempenham funções intermediárias entre pequenos centros e metrópoles, concentrando comércio e serviços diversificados, ensino superior e saúde de média e alta complexidade que atendem também aos municípios vizinhos, tornando-se polos de dinamização regional (Sposito, 2006; Cavalcante; Souza, 2010; Santos, 2009). A reestruturação produtiva e a interiorização do desenvolvimento cearense, a partir do pós-1980/1990, alteraram a dinâmica de um território historicamente macrocefálico (Cavalcante; Souza, 2010; Sousa; Medeiros, 2021). Nesse cenário, as cidades médias emergiram como elos de intermediação que redistribuem bens e serviços complexos, estendendo hinterlândias e promovendo descentralização econômica intraestadual (Alves et al., 2019; Amora; Costa, 2006; Holanda; Amora, 2011). A interiorização do ensino superior foi pilar dessa dinâmica, a atuação da Universidade Regional do Cariri (URCA) no sul do estado, da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) na zona norte, e a criação da Universidade Federal do Cariri (UFCA) em 2013 configuraram novos arranjos de centralidade intelectual, atraindo estudantes de cidades vizinhas e de estados como Piauí, Pernambuco e Paraíba, e dinamizando os setores de hospedagem, alimentação e saúde (Silva; Queiroz, 2023; Holanda; Amora, 2011; Pereira; Oliveira, 2012; Amora; Costa, 2006; Santana et al., 2020). Distingue-se, contudo, entre cidades médias metropolitanas e independentes, municípios como Caucaia, Maracanaú e Maranguape cumprem os limites demográficos, mas, por sua contiguidade territorial e integração à RMF, não desenvolvem centralidade e funções de intermediação regional próprias, atuando de forma subordinada à metrópole (Alves et al., 2019; Nascimento, 2021; Oliveira Júnior, 2008). O comando regional autônomo concentra-se, assim, nas cidades médias interioranas, classificadas pelo REGIC/IBGE em Capitais Regionais e Centros Sub-regionais (Silva; Queiroz, 2023). O arranjo conurbado do Cariri (CRAJUBAR: Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha) foi elevado a Capital Regional B em 2018, polarizando saúde, ensino técnico e superior, comércio e turismo religioso; Sobral, Capital Regional C, consolidou um polo industrial calçadista associado a centralidade educacional e de saúde regional (Silva; Queiroz, 2023; Holanda; Amora, 2011; Lima Júnior, 2019). Como Centro Sub-regional A no Centro-Sul cearense, Iguatu sustenta-se em serviços médicos especializados, comércio varejista e ensino, dando suporte às pequenas cidades adjacentes (Alves et al., 2019; Santana et al., 2020). Entre os Centros Sub-regionais B, destacam-se Quixadá, com especialização em serviços médicos, odontológicos e universitários (Santana et al., 2020; Sousa; Medeiros, 2021); Itapipoca, articulando o litoral norte por meio da administração pública e da saúde (Lima Júnior, 2019; Santana et al., 2020); e Russas, polo do Baixo Jaguaribe fundamentado na fruticultura irrigada, na indústria calçadista e nos serviços técnicos especializados (Nascimento, 2021; Silva; Queiroz, 2023). A hierarquia das cidades médias cearenses, exemplificadas na classificação do REGIC/IBGE entre Capitais Regionais e Centros Sub-regionais (Silva; Queiroz, 2023), fornece a base territorial sobre a qual se estrutura a mobilidade pendular no estado. Enquanto polos de intermediação regional, essas cidades concentram empregos, serviços e equipamentos que atraem deslocamentos diários da população residente nos municípios menores do seu entorno, reproduzindo, em escala intraestadual, a lógica de integração econômica entre centros de diferentes portes discutida na seção anterior. Assim, a posição de cada cidade média na rede urbana, seja como Capital Regional, a exemplo do CRAJUBAR e de Sobral, seja como Centro Sub-regional, caso de Iguatu, Quixadá, Itapipoca e Russas, condiciona a intensidade e o alcance geográfico dos fluxos pendulares que ela polariza, tornando a mobilidade pendular um indicador empírico da centralidade e da hierarquia urbana constituídas ao longo do processo histórico de formação da rede urbana cearense.
Palavras-chave: Mobilidade Pendular,Cidades Médias,Mercado de Trabalho,Rede Urbana,Ceará
Resumo Expandido · Oral
Abrir o trabalhoPalavras-chave: Literarcia em saúde,Desinformação,Atenção primária em saúde,Comunicação Pública,Podcast
Oral
Abrir o trabalhoDINÂMICA DA POBREZA E POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL: Uma Análise em Painel dos Estados do Nordeste
HELENNEIDE OLIVEIRA DE MORAIS; Andréa Ferreira da Silva; Wellington Ribeiro Justo; Diogo Brito Sobreira
Este estudo teve como objetivo analisar a persistência e os determinantes da pobreza nos estados brasileiros, com ênfase na Região Nordeste, no período de 2012 a 2024. Para tanto, foram utilizados dados em painel para as 27 unidades federativas, obtidos a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Ipeadata e de outras bases oficiais. A fundamentação teórica baseou-se na literatura sobre pobreza, desigualdade e políticas públicas de combate à pobreza. A estratégia empírica empregou modelos econométricos para dados em painel, estimados por efeitos fixos e efeitos aleatórios, sendo a escolha da especificação realizada por meio do teste de Hausman, que indicou a superioridade dos modelos de efeitos fixos. Os resultados evidenciaram elevada persistência temporal da pobreza, indicada pelo coeficiente positivo e estatisticamente significativo da variável dependente defasada. Observou-se que a cobertura do Programa Bolsa Família apresentou associação negativa e significativa com a pobreza, sendo essa relação mais intensa nos estados nordestinos. Da mesma forma, a maior disponibilidade de médicos por habitante esteve associada à redução dos níveis de pobreza, reforçando a importância da ampliação do acesso aos serviços públicos de saúde. Em contrapartida, o PIB per capita mostrou resultado limitado, não apresentando significância estatística para o Nordeste, o que sugere que o crescimento econômico, isoladamente, não é suficiente para reduzir a pobreza regional. As análises de robustez, realizadas mediante diferentes medidas de pobreza monetária, confirmaram a estabilidade e a consistência dos resultados. Conclui-se que a pobreza apresenta elevada persistência temporal, especialmente na Região Nordeste, e que políticas públicas de transferência de renda e de fortalecimento da infraestrutura social, particularmente na área da saúde, desempenham papel fundamental na redução da vulnerabilidade social. Os resultados reforçam a necessidade de estratégias de desenvolvimento regional que articulem crescimento econômico, inclusão social e ampliação do acesso aos serviços públicos essenciais.
Palavras-chave: Pobreza, Persistência da pobreza, Dados de painel, Programa Bolsa Família, Nordeste brasileiro
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